Experimento na Costa Rica usou cerca de 360 m³ do resíduo da produção de café sobre um terreno dominado por capim; resultado abre caminho para estudar o aproveitamento de subprodutos agrícolas na recuperação de áreas degradadas
Um experimento realizado em uma antiga pastagem na Costa Rica voltou a ganhar atenção ao mostrar uma transformação impressionante: pesquisadores cobriram uma área degradada e dominada por gramíneas com uma espessa camada de polpa de café e, apenas dois anos depois, mais de 80% do terreno tratado estava coberto pelas copas de árvores. Na área vizinha que não recebeu o resíduo, a cobertura permaneceu próxima de 20%. O trabalho mostra como um subproduto abundante da agroindústria pode, sob determinadas condições, acelerar processos naturais de recuperação ambiental.
O experimento foi conduzido no sul da Costa Rica pelos pesquisadores Rebecca J. Cole e Rakan A. Zahawi e publicado em 2021 na revista científica Ecological Solutions and Evidence. Embora não seja um estudo novo, o caso voltou a circular com força no Google Discover no Brasil nos últimos dias por causa do contraste visual e dos resultados obtidos.
Uma camada de quase meio metro de polpa de café
Em março de 2018, os pesquisadores levaram 30 caminhões de polpa de café, aproximadamente 360 metros cúbicos, para uma antiga área agrícola dominada por gramíneas no sul costa-riquenho.
O material foi espalhado com uma retroescavadeira sobre uma parcela de aproximadamente 35 por 40 metros, formando uma camada entre 40 e 50 centímetros de espessura. Outra área de dimensões semelhantes, localizada a cerca de dez metros de distância, foi mantida sem aplicação para funcionar como controle.
A quantidade utilizada tem sido convertida em algumas publicações recentes para algo próximo de 100 toneladas, mas o estudo científico original informa o volume aplicado — cerca de 360 m³ — e a quantidade de caminhões, sem apresentar esse peso como medida oficial do experimento. Por isso, o volume é a referência mais segura.
O objetivo não era simplesmente adubar a terra ou plantar árvores. Os cientistas queriam descobrir se o resíduo agrícola conseguiria eliminar uma das principais barreiras à regeneração daquela antiga pastagem: as gramíneas invasoras que dominavam o terreno e dificultavam o estabelecimento de outras plantas.
Dois anos depois, a diferença era enorme
O acompanhamento revelou uma mudança expressiva entre as duas parcelas.
Na área que recebeu a polpa de café, a cobertura formada pelas copas chegou a mais de 80% depois de dois anos. Já no terreno sem tratamento, as gramíneas continuaram dominantes e a cobertura arbórea permaneceu muito menor.
A vegetação da área tratada também ganhou altura rapidamente. Segundo a British Ecological Society, o dossel formado no terreno que recebeu a polpa ficou quatro vezes mais alto que o observado na parcela de controle.
Isso não significa, porém, que uma floresta madura tenha surgido em apenas dois anos. O que ocorreu foi uma forte aceleração da sucessão florestal inicial, com espécies pioneiras ocupando um terreno que anteriormente oferecia condições difíceis para o estabelecimento de árvores.
O que a polpa de café fez com o terreno?
Parte da explicação está justamente na grande quantidade de material depositada sobre o capim.
A camada de aproximadamente meio metro sufocou as gramíneas invasoras, reduzindo a competição pela área. À medida que a polpa se decompôs, também houve alteração das condições químicas do solo.
Depois de dois anos, os pesquisadores encontraram níveis significativamente maiores de nutrientes, incluindo carbono, nitrogênio e fósforo, na parcela tratada em comparação com a área de controle.
Com o capim perdendo espaço e o ambiente se tornando mais favorável, sementes transportadas pelo vento, aves e outros animais conseguiram se estabelecer. Ou seja: os pesquisadores não plantaram uma floresta inteira sobre o local. Eles criaram condições para que a regeneração natural avançasse muito mais rapidamente.
De resíduo do café a ferramenta de restauração
A experiência chama atenção também pela conexão entre dois desafios presentes em regiões agrícolas: a destinação dos resíduos agroindustriais e a recuperação de terras degradadas.
A polpa utilizada veio de uma unidade de processamento de café próxima e, segundo informações relacionadas ao experimento, foi disponibilizada sem custo pelo material em si, ficando o transporte como uma das despesas envolvidas.
Essa proximidade é importante para entender a aplicação prática da ideia. Transportar centenas de metros cúbicos de um material pesado por grandes distâncias poderia transformar uma alternativa ambientalmente interessante em uma operação economicamente inviável.
Em regiões cafeeiras, entretanto, a possibilidade de aproximar uma fonte concentrada de resíduo agrícola de áreas que precisam ser restauradas abre uma linha interessante de pesquisa.
Resultado é promissor, mas não é receita pronta
O próprio desenho do trabalho exige cautela antes de imaginar a técnica sendo reproduzida indiscriminadamente.
Tratou-se de um estudo de caso, realizado em uma área relativamente pequena e sob condições específicas de clima, solo, vegetação e disponibilidade de resíduos da Costa Rica. Os autores destacam que aplicações práticas desse tipo de estratégia ainda são pouco exploradas.
Também seria inadequado concluir que simplesmente despejar polpa de café sobre qualquer terreno produzirá o mesmo resultado. Volume aplicado, características do solo, proximidade de cursos d’água, composição do resíduo, vegetação existente e logística precisam ser considerados.
No experimento costa-riquenho, inclusive, o local foi definido seguindo orientações relacionadas à disposição de resíduos orgânicos e ficou afastado de cursos d’água, fontes de água e residências.
O que os resultados demonstram é outra coisa: subprodutos da própria atividade agrícola podem ter potencial para acelerar a recuperação de determinadas áreas degradadas, transformando um material que precisa de destinação em insumo para restauração ecológica.
Para um país como o Brasil, líder mundial na produção de café e que concentra grandes volumes de resíduos associados ao processamento do grão, o estudo também levanta uma pergunta relevante para novas pesquisas: em quais condições soluções semelhantes poderiam ser técnica, ambiental e economicamente viáveis por aqui?
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