Cientistas criam açúcar de cana de absorção mais lenta usando resíduos de café e amendoim

Pesquisa brasileira incorporou compostos extraídos de subprodutos agroindustriais à sacarose; primeiro teste em humanos indicou resposta glicêmica menor e tecnologia avança em direção ao licenciamento industrial

Um açúcar de cana de absorção mais lenta, produzido com compostos obtidos de grãos defeituosos de café e da pele do amendoim, apresentou resultados promissores em um primeiro teste com seres humanos. Desenvolvida por pesquisadores ligados à Unicamp, USP e Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), a tecnologia busca modificar a forma como a sacarose é processada pelo organismo e, ao mesmo tempo, criar uma nova destinação para materiais gerados pela agroindústria.

A avaliação inicial envolveu 25 voluntários, acompanhados em diferentes sessões de teste. Entre as formulações estudadas, a combinação dos compostos provenientes do café e do amendoim levou a sacarose da classificação de índice glicêmico médio para a faixa baixa. Apesar do resultado, ainda serão necessários estudos maiores para determinar o alcance do efeito e as possíveis aplicações do produto.

Resíduos do café e do amendoim entram dentro do cristal de açúcar

A proposta não consiste simplesmente em misturar resíduos agrícolas ao açúcar convencional. Os pesquisadores primeiro obtêm extratos ricos em compostos fenólicos a partir de café verde e defeituoso e da película que recobre o amendoim.

Esses extratos passam então por um processo denominado cocristalização, no qual a estrutura da sacarose é reorganizada durante a formação dos cristais. O procedimento cria condições para incorporar os compostos de origem vegetal à matriz do açúcar.

A técnica precisou ser adaptada porque parte dessas moléculas é sensível a temperaturas elevadas. Na versão desenvolvida pela equipe, a sacarose é processada juntamente com o extrato ainda em estado líquido antes da concentração. Segundo os dados divulgados pelos pesquisadores, a alteração aumentou em 7,5 vezes a capacidade de incorporação dos compostos e permitiu preservar as características fenólicas do material.

O trabalho integra uma frente da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS) dedicada ao aproveitamento de coprodutos da agroindústria. Além do café e do amendoim, a plataforma também pesquisa resíduos cítricos como possíveis fontes de compostos para novos ingredientes alimentícios.

Açúcar de absorção mais lenta foi testado em 25 pessoas

Depois dos experimentos de laboratório, os pesquisadores partiram para uma avaliação da resposta glicêmica em humanos.

Os 25 participantes passaram por seis dias distintos de testes. Entre as amostras administradas estavam glicose, sacarose cocristalizada sem os extratos e versões contendo compostos provenientes apenas do café, somente do amendoim ou das duas matérias-primas combinadas.

A concentração de glicose no sangue foi acompanhada durante duas horas após a ingestão. O melhor resultado foi registrado com a combinação dos dois extratos, que apresentou redução suficiente para mudar a classificação da sacarose de índice glicêmico médio para baixo, de acordo com os dados preliminares divulgados pela FAPESP.

O índice glicêmico indica como um alimento contendo carboidratos afeta a glicose sanguínea após seu consumo. Uma resposta mais lenta não significa, entretanto, que o produto deixe de conter açúcar ou que possa ser consumido livremente.

Esse limite é particularmente relevante porque a pesquisa ainda está em uma etapa de desenvolvimento tecnológico, e o número de participantes do teste inicial é pequeno para sustentar conclusões amplas sobre efeitos nutricionais ou clínicos.

Produto não é açúcar para diabéticos e não há comprovação de menos calorias

A redução do índice glicêmico não deve ser confundida com redução do valor energético.

Os pesquisadores ainda não determinaram se a nova formulação possui menos calorias que a sacarose tradicional. A hipótese inicial apresentada pela coordenadora do estudo é de que o teor energético possa permanecer semelhante, embora a absorção efetiva ainda precise ser investigada experimentalmente.

Também não há evidência suficiente para divulgar o ingrediente como um açúcar próprio para pessoas com diabetes ou como um substituto que dispense os cuidados associados ao consumo de açúcares.

Outra linha que deverá ser investigada envolve a microbiota intestinal. O grupo pretende estudar, em colaboração com a Universidade de Bolonha, na Itália, o que ocorre durante a permanência mais prolongada do ingrediente no trato gastrointestinal. Essa etapa ainda não foi concluída e, portanto, não é possível atribuir benefícios à microbiota neste momento.

Tecnologia cria nova possibilidade para coprodutos do agro

Além da questão alimentar, a pesquisa chama atenção pelo destino dado às matérias-primas utilizadas.

Grãos que apresentam defeitos podem ter menor valor para determinadas aplicações da indústria cafeeira. A pele do amendoim, por sua vez, é retirada durante o processamento do grão. Em vez de tratar esses materiais apenas como resíduos, a pesquisa os utiliza como fonte de compostos com potencial tecnológico.

Essa abordagem está inserida no chamado upcycling, estratégia que busca transformar um material de baixo valor ou destinado ao descarte em matéria-prima para produtos de maior valor agregado.

A mesma lógica vem aparecendo em outras pesquisas brasileiras. Uma ferramenta desenvolvida na Unicamp para avaliar o aproveitamento energético e ambiental de resíduos agroindustriais considera materiais como palha de cana, resíduos do café e outras biomassas geradas pelo setor.

No caso do novo açúcar, ainda não existem dados públicos capazes de mostrar quanto café defeituoso ou pele de amendoim seria necessário em uma eventual produção comercial. Também não há estimativas sobre preço, escala de demanda ou possível remuneração desses coprodutos.

Por isso, um eventual efeito econômico para produtores e beneficiadores dependerá de etapas que ainda precisam ser vencidas, como custo de processamento, disponibilidade regional da matéria-prima, logística e interesse da indústria de alimentos.

Escala da cana aumenta potencial de aplicação da tecnologia

Uma inovação envolvendo sacarose ganha relevância adicional pela dimensão da cadeia brasileira de cana-de-açúcar.

No segundo levantamento da safra 2026/27, publicado em agosto, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou a colheita brasileira em 705,2 milhões de toneladas de cana, avanço de 4,7% diante da temporada anterior. A área destinada à cultura foi calculada em 9,1 milhões de hectares.

Para o açúcar, a projeção é de 42,89 milhões de toneladas na temporada, volume 2,9% inferior ao ciclo anterior. São números que mostram o tamanho da estrutura industrial na qual uma nova tecnologia baseada em sacarose poderia ser inserida caso alcance viabilidade comercial.

A pesquisa também ocorre em um momento de transformação tecnológica no setor sucroenergético. Outra frente em desenvolvimento no país é a produção de cana a partir de sementes sintéticas em escala industrial, projeto voltado a mudanças no sistema de implantação dos canaviais.

No novo açúcar, entretanto, a inovação ocorre depois que a matéria-prima já deixou a lavoura: o objetivo é ampliar as possibilidades de uso da sacarose dentro da indústria de alimentos.

Patente depositada abre caminho para licenciamento

A tecnologia já teve pedido de patente depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e foi estruturada para ser transferida à iniciativa privada por meio de licenciamento.

A PBIS reúne Unicamp, USP, Ital, Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia e empresas do setor alimentício. As soluções desenvolvidas pela plataforma podem ser transferidas para parceiros industriais e, em determinadas condições, disponibilizadas a outras empresas interessadas.

Segundo a divulgação da pesquisa, o conjunto tecnológico relacionado ao produto chegou aos níveis 5 e 6 de maturidade tecnológica, em uma escala que vai de 1 a 9. Nessa etapa, a solução já avançou além da demonstração inicial em laboratório, mas ainda precisa percorrer etapas adicionais antes de uma eventual produção comercial.

A indústria que assumir o desenvolvimento também terá de enfrentar questões regulatórias relacionadas à composição, registro, fabricação e às alegações que eventualmente poderão aparecer na embalagem ou na comunicação ao consumidor.

Portanto, ainda não existe uma previsão pública para encontrar esse açúcar no varejo.

O avanço obtido até aqui aponta para uma possibilidade pouco usual: usar duas cadeias agrícolas — café e amendoim — para modificar um produto originado de uma terceira, a cana-de-açúcar. Se os resultados forem confirmados em amostras maiores e o processo mostrar viabilidade industrial, a inovação poderá criar uma nova aplicação para a sacarose e, simultaneamente, ampliar o aproveitamento de coprodutos do agronegócio brasileiro.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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