Cidade subterrânea no deserto da Austrália esconde casas, igrejas e hotéis debaixo da terra

Em Coober Pedy, moradores transformaram antigas escavações em residências para enfrentar temperaturas superiores a 40 °C; cidade construída em uma das regiões mais áridas do planeta impressiona pela arquitetura e pelo estilo de vida.

Imagine viver em uma cidade onde boa parte das casas não possui fachadas convencionais, os quartos são escavados na rocha e igrejas, hotéis e estabelecimentos comerciais funcionam debaixo da terra. Parece cenário de ficção científica, mas essa realidade existe no coração de uma das regiões mais áridas da Austrália. Em Coober Pedy, no estado da Austrália Meridional, a população encontrou no subsolo uma alternativa para enfrentar o calor intenso e construir uma comunidade em pleno deserto.

A cidade ficou mundialmente conhecida por suas moradias subterrâneas, chamadas de dugouts, que aproveitam o isolamento térmico natural do terreno. Enquanto as temperaturas externas podem ultrapassar os 40 °C durante os períodos mais quentes, os ambientes escavados permanecem relativamente estáveis, reduzindo a necessidade de climatização artificial. O que começou como uma solução prática para trabalhadores da mineração acabou se transformando em uma característica arquitetônica e cultural única.

A cidade que encontrou no subsolo uma forma de sobreviver ao deserto

Localizada no interior australiano, Coober Pedy está cercada por uma paisagem árida, com vegetação escassa, solo pedregoso e precipitações reduzidas. A região recebe aproximadamente 175 milímetros de chuva por ano, volume muito inferior ao observado em grande parte das regiões produtoras brasileiras.

As condições ambientais ajudam a explicar por que construir debaixo da terra se tornou uma alternativa tão importante. Durante o verão, o calor extremo dificulta a permanência em edificações convencionais sem sistemas de refrigeração.

Nas residências subterrâneas, entretanto, a própria formação geológica funciona como uma barreira natural contra as oscilações de temperatura.

As casas são escavadas em terrenos adequados, formando ambientes que podem incluir salas, cozinhas, quartos, banheiros e corredores. Algumas apresentam acabamentos sofisticados, iluminação planejada e instalações comparáveis às de residências convencionais.

Não se trata de uma cidade inteiramente enterrada, mas de um município que combina construções na superfície com uma extensa tradição de habitações e estabelecimentos subterrâneos.

A descoberta de pedras preciosas mudou o destino da região

A história de Coober Pedy está diretamente ligada à exploração de opalas, pedras preciosas conhecidas por seus reflexos multicoloridos e elevado valor no mercado internacional.

A descoberta de opalas na região, em 1915, impulsionou a chegada de garimpeiros e trabalhadores interessados nas oportunidades oferecidas pela mineração.

Com o avanço das escavações, os mineradores perceberam que os espaços abertos no subsolo também poderiam servir como abrigo contra as condições extremas do deserto.

A prática evoluiu. Antigas áreas de mineração passaram a ser adaptadas, enquanto novas moradias foram planejadas especificamente para ocupação residencial.

Atualmente, a identidade econômica e turística da cidade continua fortemente associada às opalas. O município também funciona como ponto de apoio regional e destino de visitantes interessados em conhecer as construções subterrâneas.

Casas subterrâneas mantêm temperaturas entre 23 °C e 25 °C

Uma das características mais impressionantes das construções de Coober Pedy é o conforto térmico. Segundo informações turísticas locais, os ambientes subterrâneos mantêm temperaturas próximas de 23 °C a 25 °C ao longo do ano, mesmo quando o clima na superfície apresenta grandes variações.

Estima-se que aproximadamente metade dos moradores viva em residências subterrâneas. Algumas propriedades chegam a ocupar 450 metros quadrados, com espaços amplos e diferentes ambientes interligados por corredores escavados.

A maior parte dessas construções é feita nas encostas de pequenas elevações, aproveitando a estabilidade da formação rochosa. Isso permite criar cômodos relativamente grandes sem depender das mesmas estruturas utilizadas em edificações convencionais.

Além da temperatura, a arquitetura subterrânea oferece proteção contra a incidência direta do sol e parte das tempestades de poeira comuns em regiões desérticas.

Entretanto, viver debaixo da terra também exige cuidados. Ventilação, iluminação, instalações hidráulicas, segurança estrutural e características geológicas precisam ser considerados na construção e manutenção das moradias.

Uma livraria dentro de Coober Pedy. Foto: Divulgação

Igrejas, hotéis e galerias funcionam debaixo da terra

O estilo de vida subterrâneo ultrapassou os limites das residências. Coober Pedy abriga igrejas, galerias de arte, hospedagens e espaços turísticos construídos ou adaptados no interior das rochas.

Entre os exemplos mais conhecidos estão as igrejas subterrâneas e o Desert Cave Hotel, empreendimento que permite aos visitantes experimentar a sensação de dormir em ambientes escavados.

O turismo tornou-se uma atividade econômica importante, ao lado da mineração e dos serviços regionais. O centro de informações turísticas local recebe aproximadamente 150 mil visitantes por ano, segundo dados divulgados pela organização turística da cidade.

Quantas pessoas realmente vivem na cidade subterrânea?

A população de Coober Pedy é um dos pontos que mais geram divergências nas publicações sobre o município.

Embora algumas descrições mencionem mais de 3 mil moradores, o censo australiano de 2021 registrou 1.566 habitantes na área estatística de Coober Pedy. Um guia turístico publicado em 2024 apresentou estimativa de aproximadamente 1.700 pessoas.

O número de 3 mil tem fundamento histórico: a população chegou a superar essa marca na década de 1990. Além disso, documentos municipais apontam que a presença de trabalhadores temporários e moradores sazonais pode elevar significativamente o contingente de pessoas na região.

Portanto, é importante diferenciar a população residente oficialmente contabilizada da população flutuante associada às atividades econômicas.

Igreja dentro da cidade subterrânea. Foto: Terry Bell

O desafio da água em uma cidade cercada pelo deserto

Se o subsolo oferece proteção contra o calor, a disponibilidade de água continua sendo um dos maiores desafios para a manutenção da comunidade.

Coober Pedy não dispõe de fontes naturais permanentes de água doce suficientes para atender às necessidades locais. Ao longo de sua história, o município precisou desenvolver alternativas de armazenamento, captação e tratamento.

Atualmente, o abastecimento depende de água subterrânea extraída de poços artesianos e tratada por um sistema de dessalinização por osmose reversa.

A cidade também utiliza um sistema isolado de geração de eletricidade que combina energia solar, eólica e diesel, uma solução importante para uma localidade distante dos grandes centros urbanos.

O que a experiência australiana ensina sobre construções em regiões quentes?

A experiência de Coober Pedy também desperta interesse fora da Austrália, especialmente em países que enfrentam temperaturas elevadas e precisam desenvolver soluções de conforto térmico com menor consumo de energia.

No Brasil, onde propriedades rurais frequentemente enfrentam custos expressivos com climatização de residências, alojamentos e instalações produtivas, o exemplo australiano reforça a importância de considerar as características do ambiente no planejamento das construções.

Isso não significa que escavar residências seja uma alternativa viável para qualquer região brasileira. Tipo de solo, regime de chuvas, presença de lençol freático, drenagem e estabilidade geotécnica podem tornar uma construção subterrânea inadequada ou economicamente inviável.

A principal lição está no aproveitamento das condições naturais para reduzir a necessidade de resfriamento artificial.

Estratégias como isolamento térmico, sombreamento, ventilação adequada, orientação solar e utilização de materiais compatíveis com o clima já representam oportunidades concretas de melhoria nas construções rurais brasileiras.

Foto: Divulgação

Uma cidade que transformou uma dificuldade em identidade

Mais de um século depois da descoberta das primeiras opalas, Coober Pedy permanece como um exemplo singular da capacidade humana de adaptação.

O que começou como uma solução para proteger mineradores do calor transformou-se em uma forma de ocupação urbana que combina arquitetura, mineração, turismo e conhecimento das condições naturais.

Em vez de tentar reproduzir na superfície os padrões de construção encontrados em outras cidades, parte da população encontrou no próprio terreno uma maneira de tornar o deserto habitável.

Coober Pedy demonstra que as características mais difíceis de um território também podem orientar soluções inovadoras, desde que sejam compreendidas e incorporadas ao planejamento.

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