Reconhecida por lei federal, Braço do Norte se destaca pela genética leiteira e abriga a maior exposição de gado Jersey da América Latina, com 120 animais na edição de 2026.
No Sul de Santa Catarina, um município de pouco mais de 35 mil habitantes construiu uma identidade que ultrapassa as fronteiras do estado e ganhou reconhecimento nacional pela qualidade de sua pecuária leiteira. Braço do Norte é oficialmente a Capital Nacional do Gado Jersey, título estabelecido pela Lei Federal nº 13.447, de 31 de maio de 2017, em reconhecimento à tradição na criação de uma das principais raças leiteiras do mundo.
A importância da cidade, entretanto, vai além da homenagem. Braço do Norte reúne produtores especializados, investimentos em melhoramento genético e uma cadeia agroindustrial que transforma a produção de leite em atividade estratégica para a economia regional. O município também é sede da Feira e Exposição Agropecuária do Vale de Braço do Norte e Região (Feagro), considerada a maior exposição de gado Jersey da América Latina em número de animais.
Na edição de 2026, realizada entre os dias 9 e 12 de julho, a feira movimentou aproximadamente R$ 180 milhões em negócios, recebeu cerca de 70 mil visitantes e reuniu aproximadamente 200 expositores, segundo balanço divulgado pela organização. Os resultados mostram como um evento originalmente dedicado à valorização da genética bovina evoluiu para uma plataforma comercial que conecta produtores rurais, fornecedores de tecnologia, empresas e investidores.
O exemplo catarinense também ajuda a compreender uma transformação importante na pecuária brasileira: em um mercado pressionado por custos de alimentação, mão de obra e necessidade de eficiência, produzir leite com qualidade e agregar valor à matéria-prima pode ser tão importante quanto aumentar o volume entregue aos laticínios.
Como Braço do Norte conquistou o título de Capital Nacional do Gado Jersey
O reconhecimento oficial veio em 2017, após a aprovação de uma proposta apresentada pelo então deputado federal Ronaldo Benedet. A legislação foi sancionada em 31 de maio daquele ano, consolidando uma tradição de décadas na pecuária leiteira do município.
A escolha não ocorreu por acaso. O Vale de Braço do Norte desenvolveu uma forte atividade leiteira em propriedades familiares, muitas delas instaladas em áreas de relevo irregular, nas quais o manejo de animais de menor porte pode apresentar vantagens operacionais.
Nesse cenário, a raça Jersey encontrou condições favoráveis para sua expansão.
Originária da ilha de Jersey, no Canal da Mancha, a raça ganhou espaço entre os produtores por características como menor tamanho corporal, precocidade reprodutiva, longevidade produtiva e capacidade de produzir leite com elevados teores de gordura e proteína.
Essas particularidades contribuíram para sua utilização em propriedades de diferentes escalas, especialmente naquelas que buscam eficiência alimentar e aproveitamento econômico da produção.
Durante a tramitação da lei, o Congresso Nacional já destacava a força da criação regional e a importância da exposição especializada para projetar a genética desenvolvida pelos produtores catarinenses.
O título, portanto, representa o reconhecimento de uma atividade econômica construída ao longo de gerações, e não apenas uma estratégia de promoção turística.
Feagro movimenta R$ 180 milhões e transforma cidade em vitrine da genética leiteira
Criada em 2004, a Feagro nasceu com uma proposta fortemente ligada à exposição e valorização do gado Jersey. Com o passar dos anos, ampliou sua atuação e passou a reunir segmentos como suinocultura, máquinas agrícolas, equipamentos, serviços e soluções tecnológicas para as propriedades rurais.
A edição de 2026 reforçou essa evolução.
Além do movimento comercial de aproximadamente R$ 180 milhões, a exposição recebeu produtores e visitantes interessados em genética, inovação, modernização das instalações e novas oportunidades de negócios.
Os resultados também demonstram que a importância econômica de uma feira agropecuária não se limita à comercialização de animais.
Uma exposição desse porte movimenta fornecedores de alimentação animal, equipamentos de ordenha, sistemas de resfriamento, implementos, veículos e serviços especializados. Também gera demanda para hotéis, restaurantes e estabelecimentos comerciais do município.
Há, contudo, uma distinção importante: o valor de R$ 180 milhões representa o movimento comercial estimado da feira em diferentes segmentos do agronegócio, e não a receita anual da produção leiteira de Braço do Norte.
Essa diferença permite compreender melhor o alcance do evento e evita confundir o desempenho de uma exposição agropecuária com o valor efetivamente produzido pelas propriedades rurais.
Produção de leite coloca Braço do Norte entre os destaques de Santa Catarina
A força econômica da atividade leiteira ajuda a explicar por que Braço do Norte conquistou tamanha projeção no setor.
De acordo com dados apresentados na segunda edição do Mapa do Agro Catarinense, elaborado pela Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (Facisc), o município aparece como o sexto maior produtor de leite de Santa Catarina e possui um dos maiores rebanhos bovinos do estado.
O levantamento divulgado em 2026 aponta um rebanho municipal próximo de 50 mil bovinos e atribui à produção leiteira um valor de aproximadamente R$ 159,3 milhões. O número deve ser interpretado como valor econômico da atividade, e não como faturamento líquido dos produtores ou contribuição direta equivalente ao PIB municipal.
A posição conquistada por Braço do Norte é relevante porque Santa Catarina está entre os principais estados produtores de leite do país, com forte presença de propriedades familiares e cooperativas.
Segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção brasileira alcançou 36,68 bilhões de litros em 2025, enquanto o valor nacional da produção atingiu aproximadamente R$ 89,49 bilhões.
Em Santa Catarina, o valor da produção leiteira chegou a R$ 8,21 bilhões no mesmo período.
Esses indicadores demonstram que, embora seja um município relativamente pequeno em população e extensão territorial, Braço do Norte participa de uma cadeia produtiva expressiva, na qual a geração de renda depende da combinação entre produtividade animal, qualidade do leite, assistência técnica e capacidade de comercialização.
Por que o gado Jersey se tornou tão importante para a economia local?
A principal característica econômica do gado Jersey está na composição do leite.
Enquanto sistemas especializados em outras raças leiteiras podem priorizar volumes elevados por animal, os rebanhos Jersey são conhecidos pela capacidade de produzir leite com maiores concentrações de gordura e proteína, componentes valorizados pela indústria de derivados lácteos.
Essa diferença tem consequências práticas.
Na fabricação de queijos, manteiga, creme de leite e outros derivados, a quantidade e a qualidade dos sólidos presentes na matéria-prima interferem diretamente no rendimento industrial.
Por isso, uma propriedade não deve avaliar sua eficiência exclusivamente pelo número de litros produzidos.
É necessário considerar quanto de gordura e proteína efetivamente entrega à indústria e qual remuneração recebe por esses componentes.
A relação entre a composição do leite e seu aproveitamento industrial também é reconhecida em estudos técnicos da Epagri, que apontam a importância dos teores de sólidos para o rendimento dos derivados e para a valorização da matéria-prima.
Menor porte pode representar vantagens, mas exige avaliação econômica
Outra característica do Jersey é o tamanho corporal geralmente inferior ao de raças como a Holandesa.
Animais menores tendem a apresentar menores necessidades absolutas de mantença, o que pode favorecer determinados sistemas de produção, especialmente aqueles com restrições de área ou que dependem intensamente do aproveitamento de pastagens.
Isso não significa, entretanto, que uma vaca Jersey necessariamente apresente menor custo por litro produzido.
O resultado depende de fatores como produtividade individual, conversão alimentar, qualidade da dieta, sanidade, reprodução, longevidade e preço recebido pelo leite.
Na prática, o produtor precisa avaliar indicadores como:
- Custo alimentar por litro de leite produzido;
- Quilos de gordura e proteína produzidos por vaca;
- Taxa de prenhez e intervalo entre partos;
- Vida produtiva e necessidade de reposição de matrizes;
- Receita efetiva por litro, considerando bonificações por qualidade.
Esses indicadores ajudam a explicar por que a raça se consolidou em regiões com produção leiteira familiar e presença de indústrias que valorizam a composição da matéria-prima.
Genética Jersey: exposição reúne animais de alto padrão produtivo e funcional
A edição de 2026 da Feagro também teve importância para o melhoramento genético da raça no Brasil.
Segundo a Associação dos Criadores de Gado Jersey do Brasil, a exposição reuniu 120 animais Jersey e recebeu a quinta etapa do Circuito Nacional da Raça Jersey, organizada em parceria com a Associação Catarinense de Criadores de Bovinos (ACCB).
Os julgamentos foram conduzidos por Arthur Patrus Campos Belo, que avaliou características relacionadas à conformação, funcionalidade, sistema mamário e padrão racial dos animais apresentados.
O principal título da exposição ficou com a fêmea Milk Hill 01 Realeza VIP, eleita Grande Campeã da Feagro 2026.
A conquista reforça o papel da feira na valorização dos criatórios e na divulgação do trabalho de seleção genética desenvolvido pelos pecuaristas.
Entretanto, a importância econômica de uma exposição especializada vai além da escolha dos animais campeões.
Para os criadores, esses encontros permitem observar tendências de seleção, comparar características dos rebanhos e estabelecer contatos comerciais para aquisição de animais, sêmen e embriões.
É importante destacar que uma premiação morfológica não substitui avaliações genéticas e dados de desempenho produtivo. A decisão de investimento em genética deve considerar também índices de produção, fertilidade, saúde do úbere, longevidade e características adequadas ao sistema de criação.
A evolução desses critérios tem ampliado o uso de ferramentas como avaliações genômicas e programas de seleção na pecuária leiteira brasileira.
A importância da produção familiar para a pecuária leiteira catarinense
A tradição do Jersey em Braço do Norte também está relacionada à estrutura fundiária da região.
Historicamente, parte importante da atividade leiteira no Sul catarinense foi desenvolvida em propriedades familiares, nas quais a produção de leite representa uma fonte regular de receita ao longo do ano.
Esse modelo apresenta vantagens, mas também enfrenta desafios específicos.
A sucessão familiar, a disponibilidade de mão de obra, o investimento em instalações e a necessidade de modernização tecnológica estão entre os fatores que podem influenciar a permanência dos produtores na atividade.
Nesse contexto, a raça Jersey apresenta características interessantes para sistemas que buscam eficiência produtiva em áreas relativamente pequenas.
Ainda assim, a sustentabilidade econômica exige planejamento.
A genética, isoladamente, não garante rentabilidade. É necessário combinar animais adequados ao sistema com alimentação balanceada, conforto térmico, manejo sanitário, reprodução eficiente e gestão financeira.
A experiência catarinense demonstra que pequenas e médias propriedades podem participar de cadeias produtivas competitivas, desde que tenham acesso a conhecimento, tecnologia, canais de comercialização e remuneração compatível com seus custos.
Produzir mais leite ou produzir mais sólidos: qual estratégia oferece melhor resultado?
Uma das discussões mais importantes da pecuária leiteira moderna envolve a diferença entre produtividade em litros e produtividade econômica.
Para uma indústria que fabrica queijos, por exemplo, o volume de leite recebido é relevante, mas a quantidade de componentes aproveitáveis também influencia os custos e o rendimento do processamento.
Considere uma comparação ilustrativa entre dois lotes hipotéticos, cada um com produção de 1.000 litros de leite:
Indicador Lote A Lote B Volume de leite 1.000 L 1.000 L Gordura 3,5% 4,8% Proteína 3,2% 3,8% Gordura total aproximada 35 kg 48 kg Proteína total aproximada 32 kg 38 kg
Exemplo didático com aproximação de 1 kg por litro, utilizado apenas para demonstrar a diferença de composição. Os resultados reais dependem da densidade e da análise laboratorial do leite; os valores não representam médias oficiais de nenhuma raça.
Nesse cenário, o segundo lote apresenta maior quantidade de gordura e proteína em volume equivalente de leite.
Isso pode representar vantagem industrial, dependendo do produto fabricado e das características do processamento.
Porém, para o produtor, a vantagem econômica somente se materializa quando a indústria remunera adequadamente esses componentes ou quando ele próprio consegue capturar o valor agregado por meio da fabricação e comercialização de derivados.
Esse é um dos pontos centrais para compreender a importância econômica do Jersey: a rentabilidade deve ser medida pelo resultado financeiro do sistema, e não apenas pelo volume produzido por vaca.
Mercado brasileiro do leite enfrenta desafio de transformar produtividade em rentabilidade
A experiência de Braço do Norte ganha relevância em um momento no qual a cadeia leiteira brasileira procura ampliar sua competitividade.
Dados do IBGE mostram que os estabelecimentos industriais submetidos a algum serviço de inspeção captaram 27,51 bilhões de litros de leite em 2025, um crescimento de 8,5% em relação a 2024.
Apesar do avanço no volume adquirido, o preço médio do leite recebido pelas indústrias ficou em aproximadamente R$ 2,56 por litro, abaixo dos R$ 2,61 registrados no ano anterior.
No quarto trimestre de 2025, a média caiu para R$ 2,21 por litro, evidenciando como o aumento da oferta pode pressionar a remuneração da matéria-prima.
O cenário reforça a necessidade de o produtor acompanhar não apenas a produtividade, mas também a eficiência do uso de insumos e o comportamento do mercado consumidor.
Em regiões especializadas na produção de leite com maior concentração de sólidos, contratos com bonificação por qualidade podem representar uma oportunidade de diferenciação.
Por outro lado, quando a indústria remunera principalmente o volume, sem diferenciação suficiente pela composição, as vantagens produtivas de uma raça especializada em sólidos podem não se converter integralmente em maior receita.
A escolha genética, portanto, deve estar alinhada à realidade comercial de cada propriedade.
O que Braço do Norte ensina sobre o futuro da pecuária leiteira brasileira?
O reconhecimento de Braço do Norte como Capital Nacional do Gado Jersey representa mais do que uma homenagem à tradição agropecuária catarinense.
A cidade se consolidou como referência em um modelo de produção que combina especialização genética, propriedades familiares, conhecimento técnico e uma rede de empresas ligadas ao agronegócio.
A Feagro complementa essa estrutura ao aproximar produtores das tecnologias disponíveis no mercado.
Para os pecuaristas de outras regiões do Brasil, a experiência oferece uma lição importante: a competitividade de uma propriedade leiteira não depende necessariamente de ter o maior rebanho, mas de construir um sistema produtivo eficiente e economicamente sustentável.
Isso envolve investimentos em melhoramento genético, gestão de custos, qualidade do leite, nutrição, conforto animal e oportunidades de agregação de valor.
O exemplo também evidencia a importância da articulação regional. Quando produtores, entidades de classe, empresas e instituições de pesquisa trabalham em torno de uma atividade consolidada, surgem condições mais favoráveis ao desenvolvimento de uma cadeia especializada.
Tradição, genética e negócios projetam Braço do Norte para além de Santa Catarina
Quase uma década depois da conquista do reconhecimento oficial, Braço do Norte continua associando sua identidade à pecuária leiteira.
Os números da Feagro 2026, com R$ 180 milhões em negócios e 120 exemplares Jersey apresentados na exposição especializada, evidenciam a capacidade do município de reunir tradição, inovação e atividade comercial em torno do agronegócio.
Mais importante do que os valores movimentados durante os quatro dias de feira é a estrutura produtiva que sustenta essa história ao longo do ano.
O reconhecimento como Capital Nacional do Gado Jersey resulta de décadas de trabalho dos criadores, da adaptação da raça às condições regionais e da consolidação de uma atividade que se tornou parte da identidade econômica e cultural do município.
Para o agronegócio brasileiro, Braço do Norte mostra que especialização, qualidade genética e organização produtiva podem transformar uma cidade de pequeno porte em referência nacional de uma cadeia econômica de grande importância.
E, em um setor no qual os desafios de custos e rentabilidade exigem decisões cada vez mais criteriosas, essa experiência oferece um exemplo relevante de como tradição e tecnologia podem contribuir para o futuro da produção de leite.
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