Ciclone destrói estruturas da Embrapa, arrasta cobertura por 150 metros e deixa prejuízo milionário

Ciclone danificou três das quatro bases da Embrapa Clima Temperado em Pelotas e Capão do Leão; estruturas de pesquisa, rede elétrica, cercas e instalações ligadas à pecuária leiteira estão entre as áreas atingidas

O ciclone que atingiu o Rio Grande do Sul na madrugada de 21 de setembro provocou danos em três das quatro bases físicas da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas e Capão do Leão. Na Estação Experimental Terras Baixas, uma das áreas mais atingidas, os instrumentos registraram rajadas de até 137,5 km/h. O primeiro levantamento realizado pela instituição estima mais de R$ 1,5 milhão em perdas estruturais, mas o valor ainda é preliminar.

Além dos danos físicos, a tempestade afetou acessos, fornecimento de energia e conexão de dados, exigindo uma mobilização de pesquisadores, técnicos e outros trabalhadores para recuperar as atividades consideradas essenciais e proteger experimentos que poderiam ser prejudicados pela exposição ao tempo. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Rajadas chegaram a 137,5 km/h em Capão do Leão

A maior velocidade foi registrada na Estação Agroclimatológica de Pelotas, localizada dentro da Estação Experimental Terras Baixas (ETB), em Capão do Leão. O ponto de monitoramento, mantido em parceria entre Embrapa, Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), registrou 137,5 km/h.

No Campo Experimental de Melhoramento de Arroz e Bioclimático, também na ETB, a velocidade máxima chegou a 120,7 km/h. Na sede da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas, os equipamentos marcaram 96,6 km/h.

Segundo informações divulgadas pela própria instituição, os equipamentos utilizados nessas medições ficam a dois metros de altura. O pesquisador José Reinaldo Moraes, responsável pelo Laboratório de Agrometeorologia da unidade, explicou que a velocidade do vento pode aumentar conforme a altura, o que ajuda a dimensionar a pressão sofrida por telhados, árvores e outras estruturas elevadas.

Quase 200 eucaliptos bloquearam acesso à estação experimental

A Estação Experimental Terras Baixas concentrou parte expressiva dos danos. O vento derrubou quase 200 eucaliptos ao longo da estrada interna, interrompendo inicialmente a circulação de veículos. Em determinados pontos, o acesso precisou ser feito a pé até que as equipes conseguissem liberar o caminho.

Segundo a Embrapa, foram necessários dois dias de trabalho para restabelecer a passagem. A retirada das árvores continuou posteriormente com apoio de motosserras, tratores e retroescavadeiras.

Outro problema ocorreu nas áreas destinadas ao gado. Mais de 20 quilômetros de cercas e arames foram arrancados ou danificados, permitindo a dispersão dos animais mantidos na estação.

O temporal do dia 21 também teve forte impacto sobre propriedades rurais do Sul gaúcho. Levantamento atribuído à Emater/RS e consolidado em 28 de setembro estimou R$ 42,568 milhões em prejuízos agropecuários em dez municípios, incluindo Pelotas e Capão do Leão. As perdas atingiram pêssego, morango, canola, hortaliças e outras atividades rurais.

Sispel esteve entre as áreas mais atingidas

Dentro da ETB, o Sistema de Pesquisa e Desenvolvimento em Pecuária Leiteira (Sispel) sofreu danos expressivos. O espaço é utilizado em trabalhos experimentais ligados à produção leiteira e concentra animais e estruturas necessárias ao desenvolvimento das pesquisas.

Imagens divulgadas pela Embrapa mostram partes da cobertura deslocadas pela força dos ventos. De acordo com a legenda oficial publicada pela instituição, uma cobertura do Sispel foi levada por cerca de 150 metros.

Os efeitos chegaram também aos animais. Pelo menos dois terneiros precisaram passar por procedimentos veterinários e foram encaminhados à clínica veterinária da Universidade Federal de Pelotas.

O galpão utilizado para armazenar ração do gado leiteiro também teve sua infraestrutura atingida, conforme registro fotográfico divulgado pela Embrapa.

Após o temporal, equipes de pesquisadores, analistas e técnicos foram mobilizadas para avaliar as áreas afetadas, remover escombros e adotar medidas para preservar experimentos considerados mais vulneráveis.

Rede elétrica e internet também sofreram danos

A passagem do ciclone não atingiu apenas prédios e áreas externas. A infraestrutura utilizada para manter as unidades em funcionamento também foi comprometida.

O balanço divulgado pela Embrapa aponta a queda de cerca de 30 postes e pelo menos 20 pontos de rompimento na rede de fibra óptica que atende à unidade.

Até mesmo geradores destinados a manter o funcionamento dos sistemas durante interrupções de energia precisaram passar por manutenção por causa de cabos rompidos.

Como medida temporária, a sede passou a utilizar conexão de internet via rádio. Geradores também foram empregados para manter os sistemas considerados essenciais enquanto os reparos avançavam.

Na atualização publicada em 29 de setembro, a Embrapa informou que os empregados lotados na sede estavam retomando o trabalho presencial. Já nas estações experimentais Cascata e Terras Baixas, o fornecimento de energia ainda passava por normalização gradual e os serviços de dados permaneciam temporariamente interrompidos.

Prejuízo supera R$ 1,5 milhão, mas balanço ainda não terminou

O primeiro levantamento econômico realizado pela Embrapa estima mais de R$ 1,5 milhão em perdas. O número, entretanto, não deve ser tratado como balanço definitivo.

A própria instituição informa que equipes e comissões continuam catalogando as avarias e avaliando os danos estruturais. O valor inicial deverá ser complementado quando essa análise for concluída.

A Chefia-Geral da Embrapa Clima Temperado enviou à Diretoria-Executiva um relatório preliminar com os danos identificados e as necessidades emergenciais, incluindo solicitação de recursos para apoiar a recuperação das estruturas.

O impacto sobre a Embrapa ocorre paralelamente às perdas enfrentadas pelo setor produtivo da região. Em Capão do Leão, onde está localizada a Estação Experimental Terras Baixas, o levantamento regional divulgado nesta semana aponta aproximadamente R$ 8,44 milhões em prejuízos nas propriedades rurais. Em Pelotas, o valor estimado supera R$ 20,1 milhões. Somados os dez municípios analisados, os danos chegam a R$ 42,568 milhões.

São contas diferentes: o levantamento da Embrapa trata das estruturas da instituição, enquanto os R$ 42,568 milhões correspondem aos prejuízos contabilizados em atividades agropecuárias dos municípios avaliados.

Recuperação busca evitar perdas adicionais nas pesquisas

Com a retirada dos obstáculos e a retomada gradual dos serviços básicos, o trabalho passa agora pela recuperação das áreas danificadas e pela proteção de experimentos em andamento.

A prioridade indicada pela Embrapa inclui desobstruir acessos, reparar coberturas, restabelecer energia e conectividade e evitar que materiais experimentais mais sensíveis sejam comprometidos depois da passagem do ciclone.

O valor final necessário para reconstrução ainda dependerá das avaliações técnicas em andamento. Até que esse levantamento seja concluído, os mais de R$ 1,5 milhão divulgados pela instituição devem ser tratados como uma estimativa inicial, e não como a conta definitiva dos prejuízos.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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