Principal sistema de abastecimento da Grande São Paulo recebeu 253,1 mm na primeira metade do mês e armazenamento avançou de 33,1% para 39,1%; recuperação é expressiva, mas Cemaden ressalta que reservatórios ainda dependem da próxima estação chuvosa
A chuva excepcional que vem marcando setembro no Sudeste brasileiro produziu uma mudança importante onde a água era especialmente necessária. O Sistema Cantareira recebeu 253,1 milímetros de chuva apenas nos primeiros 15 dias de setembro, mais de três vezes a média histórica de 78,8 mm prevista para o mês inteiro.
O volume foi suficiente para alterar rapidamente o armazenamento do principal sistema de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. Segundo dados da Sabesp compilados pela Climatempo, o Cantareira estava com 33,1% de seu volume útil em 1º de setembro. Na manhã do dia 15, já havia alcançado 39,1%.
São seis pontos percentuais recuperados em apenas duas semanas.
O resultado chama ainda mais atenção porque setembro normalmente pertence ao fim do período seco. A chuva acumulada na primeira quinzena já representa o maior volume mensal registrado sobre o sistema desde dezembro de 2024, quando foram contabilizados 279,8 mm.
Mas existe um detalhe fundamental: a recuperação foi forte, porém ainda não significa que o problema hídrico esteja resolvido.
Cinco frentes frias ajudaram a mudar o cenário
A quantidade excepcional de água não veio de um único temporal.
Segundo a análise meteorológica da Climatempo, cinco frentes frias passaram pelo Sudeste durante a primeira metade de setembro, favorecendo sucessivos episódios de chuva sobre as bacias que alimentam as principais represas do Cantareira.
A sequência ajuda a explicar por que o acumulado chegou a 253,1 mm tão rapidamente.
É uma diferença importante do ponto de vista hidrológico.
Chuvas extremamente concentradas podem produzir grande escoamento superficial, erosão e enchentes sem necessariamente oferecer a mesma eficiência de recuperação hídrica de uma sequência mais distribuída de precipitações.
Neste caso, além dos transtornos registrados em diversas regiões paulistas, houve resposta perceptível dos reservatórios.
Cantareira entrou em setembro com apenas 32,99%
O tamanho da recuperação fica ainda mais evidente quando se observa a situação anterior.
Em 31 de agosto, o Sistema Cantareira armazenava apenas 32,99% do volume útil, segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico.
Um mês antes, em 31 de julho, eram 36,67%.
A queda levou ANA e SP Águas a manterem o sistema durante setembro na Faixa 3 — Alerta, classificação utilizada quando o armazenamento se encontra entre 30% e 40%. Nessa faixa, a Sabesp está autorizada a retirar até 27 m³/s do sistema, abaixo dos 33 m³/s permitidos em condições normais.
A chuva das últimas semanas, portanto, praticamente devolveu ao Cantareira a água perdida durante parte do inverno.
Cemaden já esperava recuperação em setembro
O movimento também confirma, até agora, uma projeção publicada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais em 10 de setembro.
No boletim hidrológico, o órgão destacou que os elevados volumes de chuva previstos para setembro deveriam favorecer vazões amplamente acima da média e aumentar o armazenamento.
Considerando um cenário de precipitação dentro da média histórica, a projeção apontava 36% de volume útil no encerramento de setembro.
O armazenamento observado no dia 15, de 39,1%, já estava acima dessa referência intermediária — embora a comparação não permita antecipar como o sistema terminará o mês, porque entradas, retiradas e novas chuvas continuarão modificando o volume.
Por que ainda não é possível falar em situação confortável
O histórico recente explica a cautela.
O Cantareira encerrou agosto com 33% do volume útil. No mesmo período de 2025, estava em aproximadamente 35%.
Além disso, o Cemaden identifica persistência de déficits hídricos acumulados: o Índice de Seca Bivariado Precipitação-Vazão indicava seca fraca na escala de seis meses e seca moderada na escala de 12 meses.
O problema vem de trás.
Entre outubro de 2025 e janeiro de 2026, o Cantareira chegou aos menores níveis de armazenamento desde a crise hídrica de 2014/15. As chuvas de fevereiro e março produziram recuperação parcial, mas o sistema entrou novamente no período seco com armazenamento abaixo do considerado ideal.
É por isso que 253 mm em quinze dias representam um alívio importante, mas não encerram a discussão sobre disponibilidade hídrica.
Chuva diminui nos próximos dias
Existe também uma mudança na previsão.
Depois da sequência excepcional da primeira quinzena, a tendência é de bem menos chuva sobre a região do Cantareira até sábado (19).
A precipitação deve voltar a ocorrer a partir de domingo (20), mas a segunda metade do mês tende a apresentar intervalos maiores de sol e temperaturas mais elevadas, aumentando também a evaporação.
Ainda poderão ocorrer pancadas moderadas ou fortes até o final de setembro, mas a expectativa atual não indica a mesma frequência observada nos primeiros quinze dias.
Trata-se de tendência meteorológica, portanto sujeita a ajustes conforme novas rodadas dos modelos forem incorporadas.
O que isso representa para o agro
Embora o Cantareira seja conhecido principalmente pelo abastecimento da Grande São Paulo, a recuperação hídrica possui uma dimensão mais ampla.
A disponibilidade de água nas bacias hidrográficas interessa também à irrigação, produção rural, dessedentação animal, geração de energia e manutenção das vazões dos rios, especialmente depois de um período prolongado de déficit.
Para propriedades rurais, entretanto, o volume total de chuva não deve ser interpretado isoladamente.
Em locais onde os acumulados foram excessivos, solo encharcado pode limitar operações com máquinas, favorecer erosão, aumentar pressão de algumas doenças e comprometer estradas rurais e acessos.
Ou seja: a mesma chuva capaz de melhorar significativamente um reservatório pode produzir impactos negativos em determinadas lavouras e propriedades.
Setembro mudou o quadro, mas outubro será decisivo
O Cemaden considera que a recuperação do Cantareira continuará dependente das chuvas da próxima estação chuvosa.
No cenário de precipitação dentro da média histórica utilizado pelo órgão, o armazenamento poderia chegar a 52% no final de dezembro. A projeção, porém, depende diretamente do comportamento das chuvas e também das retiradas realizadas ao longo do período.
Por isso, os próximos meses serão mais importantes do que o recorde isolado de setembro.
A primeira quinzena já entregou uma mudança expressiva: 253,1 mm de chuva, três vezes a média mensal, e seis pontos percentuais recuperados no armazenamento.
Agora começa outra etapa: descobrir se a estação chuvosa conseguirá transformar esse alívio rápido em uma recuperação sustentada.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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