Chifre de vaca nascida em 1837 atravessa países e gerações e acaba nas mãos de veterinário argentino

Peça atribuída à histórica Shorthorn Bracelet teria saído da Inglaterra no início do século XX, passado por famílias ligadas à pecuária na Argentina e no Brasil e retornado ao país vizinho quase dois séculos depois do nascimento do animal

Um objeto guardado pelo veterinário argentino Juan Martín Narbaitz chamou a atenção durante uma visita de criadores e especialistas em Shorthorn à Argentina: um chifre atribuído a Bracelet, vaca nascida em 1837 na Inglaterra e considerada uma das fêmeas históricas da raça. A peça está atualmente em Carhué, na província de Buenos Aires, onde Narbaitz atua com reprodução e genética bovina.

A história foi relatada pela Heritage Shorthorn Society após uma viagem realizada à Argentina em novembro de 2025 e publicada em janeiro de 2026. Segundo a entidade, o chifre teria atravessado gerações e diferentes famílias ligadas à pecuária, passando pela Inglaterra, Argentina e Brasil antes de chegar às mãos do veterinário. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Quem foi Bracelet, a vaca Shorthorn nascida em 1837

Bracelet nasceu em 1837, em Killerby, na Inglaterra. Os registros históricos da Heritage Shorthorn Society informam que ela e sua irmã gêmea, Necklace, foram criadas por John Booth, integrante de uma família que teve papel relevante no desenvolvimento do Shorthorn britânico.

O registro genealógico aponta Priam como pai das duas fêmeas e Toy como mãe. Bracelet e Necklace ganharam destaque nas exposições britânicas do século XIX e, juntas, acumularam 33 premiações em eventos como Royal, Yorkshire e Smithfield Club.

Bracelet viveu apenas cerca de oito anos. De acordo com o levantamento histórico da entidade, a vaca foi sacrificada em 1845 devido a uma grave infecção no joelho.

Quase dois séculos depois de seu nascimento, parte da história do animal reapareceria a milhares de quilômetros da propriedade inglesa onde foi criada.

Como o chifre teria saído da Inglaterra e chegado à América do Sul

A Heritage Shorthorn Society atribui o início da trajetória do chifre a Reginald Booth, descrito pela entidade como descendente de John Booth.

Segundo o relato, Reginald viajou para a Argentina no início dos anos 1900 para trabalhar para a família Lahusen e teria levado consigo o chifre de Bracelet.

Posteriormente, por meio de conexões familiares não detalhadas no relato, a peça teria chegado à família Mailhos, no Brasil.

A mesma fonte afirma que os Mailhos criaram animais Shorthorn anteriormente, mas deixaram a raça na década de 1990 e passaram a trabalhar com Angus e Hereford.

Não foram encontrados registros públicos independentes que indiquem as datas exatas dessas transferências ou documentos que acompanhem continuamente a peça desde a Inglaterra. Dessa forma, a sequência Inglaterra, Argentina e Brasil corresponde à procedência narrada pela Heritage Shorthorn Society.

Chifre de vaca nascida em 1837 atravessa países e gerações e acaba nas mãos de veterinário argentino
Crédito: Heritage Shorthorn Society / The Breeder’s Gazette / A. M. Gaunt / Necklace, irmã gêmea de Bracelet, ambas Shorthorn nascidas em 1837 na criação de John Booth, em Killerby, Inglaterra. Imagem histórica usada de forma ilustrativa.

O retorno do chifre à Argentina

A etapa mais recente teria ocorrido poucos anos antes da publicação do relato.

Segundo os autores, Narbaitz foi convidado para realizar uma apresentação em uma propriedade da família Mailhos no Brasil. Sabendo do interesse do veterinário pela história e pelas linhagens antigas do Shorthorn, a família teria decidido presenteá-lo com o chifre.

O objeto voltou então à Argentina e passou a ser preservado pelo veterinário em Carhué.

Se a procedência relatada pela entidade estiver correta, o chifre completou uma trajetória incomum: saiu da Inglaterra, foi levado à Argentina, chegou posteriormente ao Brasil e retornou ao território argentino várias décadas depois.

Veterinário mantém rebanho Shorthorn e trabalha com reprodução bovina

Juan Martín Narbaitz atua no CABA, Centro Argentino de Biotecnología Animal, estrutura de reprodução bovina localizada em Carhué.

Durante a visita realizada pelos autores do relato em novembro de 2025, havia 90 touros diferentes em coleta de sêmen no centro. O número descreve a situação encontrada naquele momento e não deve ser interpretado como capacidade permanente da instalação.

Além do trabalho realizado com diferentes raças, Narbaitz mantém um rebanho próprio de aproximadamente 90 animais Shorthorn, segundo a Heritage Shorthorn Society. A entidade relata ainda que ele utiliza inseminação artificial em tempo fixo e vem incorporando linhagens antigas ao plantel.

O veterinário comercializa ainda entre 40 e 50 touros Shorthorn e Angus por ano, conforme as informações publicadas pelos visitantes.

Nesse contexto, a presença do chifre de Bracelet ganha significado principalmente histórico, ao colocar um objeto atribuído a uma vaca do século XIX dentro de uma operação atual dedicada à reprodução e ao melhoramento animal.

Shorthorn ajudou a moldar diferentes linhagens bovinas

O Shorthorn surgiu no Reino Unido e ganhou importância internacional tanto como raça pura quanto como base genética para a formação de outros grupos bovinos.

Um dos exemplos mais conhecidos é o Santa Gertrudis, desenvolvido nos Estados Unidos a partir de cruzamentos entre animais Shorthorn e Brahman. A raça foi estruturada com composição aproximada de 5/8 Shorthorn e 3/8 Brahman.

A presença dessa genética também está ligada à história do King Ranch, propriedade norte-americana que teve participação decisiva na formação e consolidação do Santa Gertrudis.

No Brasil, a raça sintética continuou sendo utilizada em programas de seleção e cruzamento industrial, com avanços recentes registrados inclusive no uso de genética em centrais de inseminação. Em 2025, o número de touros Santa Gertrudis contratados por centrais cresceu 20%, segundo dados publicados sobre o desenvolvimento da raça.

A influência do Shorthorn mostra como famílias genéticas selecionadas há mais de um século ainda aparecem na pecuária contemporânea.

O que um chifre de quase dois séculos representa

Do ponto de vista produtivo, a peça não possui função na reprodução atual. Seu valor está na preservação da memória do melhoramento bovino.

Antes da existência de avaliações genômicas, bancos digitais de pedigree, sêmen congelado ou produção comercial de embriões, criadores utilizavam genealogias, observação fenotípica e resultados de exposições para selecionar os animais considerados superiores.

Bracelet pertence justamente a esse período.

O registro de seu pedigree, juntamente com o histórico de premiações dela e de Necklace, oferece uma janela para o modelo de seleção praticado por criadores britânicos durante o século XIX.

Esse processo de preservação de linhagens também permanece importante atualmente. Programas de conservação genética tentam evitar que famílias ou raças com populações reduzidas desapareçam à medida que o mercado concentra a produção em grupos genéticos mais utilizados.

A preocupação com a manutenção de raças tradicionais também aparece em iniciativas envolvendo bovinos raros e antigos, cuja conservação depende da manutenção de rebanhos, registros genealógicos e material genético.

História depende da procedência relatada pela entidade

Há uma distinção necessária entre a história de Bracelet e a história do objeto atribuído a ela.

O nascimento da vaca em 1837, seu pedigree, o criador John Booth e as premiações conquistadas por Bracelet e Necklace possuem registros históricos disponibilizados pela Heritage Shorthorn Society.

Já a identificação do chifre depende principalmente do relato preservado pelas famílias que tiveram posse da peça e posteriormente registrado pela entidade.

Até o momento, não foi encontrada análise científica ou documentação histórica contínua capaz de autenticar independentemente que o objeto preservado por Narbaitz pertenceu de fato a Bracelet.

Isso não invalida o valor histórico da narrativa, mas exige cautela jornalística.

O que pode ser comprovado é que a Heritage Shorthorn Society registrou a existência do objeto em 2026, identificou-o como o chifre original da vaca e documentou sua presença com Narbaitz durante a visita realizada à Argentina. A entidade também publicou fotografias da peça junto ao material sobre a viagem.

Quase 190 anos depois do nascimento de Bracelet, o chifre atribuído à histórica Shorthorn permanece guardado justamente por um profissional ligado à reprodução bovina.

A seleção animal evoluiu de registros em papel e exposições para genômica, inseminação e produção de embriões. A peça preservada na Argentina, porém, funciona como um elo físico com uma fase muito anterior dessa história.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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