Carne pode ganhar selo de baixo carbono; veja o que uma fazenda precisa provar

Certificação desenvolvida pela Embrapa exige muito mais do que boa aparência no campo: propriedades precisam comprovar manejo adequado, rastreabilidade, eficiência produtiva e menor intensidade de emissões

Uma fazenda com pasto verde, gado bem tratado e boa produtividade pode até transmitir uma imagem de sustentabilidade. Mas isso, sozinho, não basta para conquistar um selo de baixo carbono. Para chegar à certificação, o produtor precisa transformar práticas de manejo em evidências mensuráveis e passíveis de auditoria.

É justamente essa lógica que está por trás do protocolo Carne Baixo Carbono (CBC), desenvolvido pela Embrapa. A proposta é criar uma referência verificável para propriedades capazes de produzir carne bovina com menor intensidade de emissões de gases de efeito estufa.

Nesta quinta-feira, 6 de agosto, a Embrapa Gado de Corte encerra uma capacitação voltada a profissionais de empresas certificadoras. O treinamento detalha os critérios e os procedimentos que serão utilizados nas auditorias das propriedades interessadas em participar do protocolo.

Selo de baixo carbono começa muito antes do frigorífico

A certificação não analisa apenas o animal pronto para o abate. O processo acompanha uma série de fatores que começam ainda na propriedade rural e envolvem solo, pastagem, origem dos animais, desempenho produtivo, manejo e terminação.

O protocolo reúne dezenas de critérios distribuídos em diferentes áreas da produção. Parte deles precisa ser cumprida já na entrada do sistema, enquanto outros são incorporados progressivamente ao longo do processo de melhoria da propriedade.

Isso significa que o produtor não recebe o reconhecimento apenas por declarar que adota boas práticas. É necessário demonstrar, por meio de registros e avaliações técnicas, que essas práticas realmente estão presentes na rotina da fazenda.

A análise começa debaixo do pasto

Uma das etapas mais importantes está escondida dos olhos de quem observa a propriedade.

O solo precisa ser analisado para estabelecer uma referência de quanto carbono está armazenado naquela área. As amostras são coletadas em pontos georreferenciados e em diferentes profundidades, permitindo que novas medições sejam comparadas ao longo do tempo.

O objetivo é verificar se o sistema produtivo consegue manter ou aumentar os estoques de carbono no solo, um indicador diretamente relacionado à qualidade da pastagem e ao manejo adotado.

Segundo a documentação técnica da Embrapa, pastagens bem conduzidas podem contribuir para o acúmulo de carbono no solo, embora o resultado varie conforme clima, tipo de solo, espécie forrageira e histórico de uso da área.

Mais do que simplesmente manter o terreno coberto, o desafio está em preservar a produtividade da pastagem sem levar o solo à degradação.

Pasto produtivo também entra na conta

A condição da forragem é outro ponto central.

O protocolo observa aspectos como cobertura do solo, disponibilidade de matéria seca, escolha das espécies forrageiras e compatibilidade entre a quantidade de alimento disponível e o número de animais presentes na área.

Quando a lotação supera a capacidade do pasto, o problema vai além da queda no desempenho do rebanho. A vegetação perde vigor, aumenta a exposição do solo e cresce o risco de degradação.

Por outro lado, a recuperação e o manejo adequado de pastagens podem elevar a produtividade sem exigir a abertura de novas áreas. Essa estratégia também está entre as tecnologias priorizadas pelo Plano ABC+, política brasileira voltada à produção agropecuária de baixa emissão de carbono.

O tempo de vida do boi influencia a emissão

Outro fator importante é a eficiência do próprio animal.

Bovinos produzem metano durante a digestão. Por isso, o impacto climático não depende apenas de quanto cada animal emite diariamente, mas também de quanto tempo ele permanece no sistema para produzir determinado volume de carne.

Animais que apresentam bom ganho de peso e chegam ao abate mais cedo podem reduzir a intensidade de emissões por quilo produzido, desde que essa maior eficiência esteja associada a práticas adequadas de alimentação, sanidade e manejo.

Por esse motivo, idade, desempenho e rastreabilidade fazem parte da avaliação.

Os animais precisam ser identificados individualmente, permitindo acompanhar sua origem e trajetória dentro do sistema produtivo. A rastreabilidade também ajuda a comprovar que a produção atende aos requisitos ambientais estabelecidos pelo protocolo.

Integração entre lavoura e pecuária pode favorecer o sistema

A Integração Lavoura-Pecuária (ILP) aparece como uma das estratégias capazes de melhorar o aproveitamento da área.

Nesse modelo, lavouras e animais ocupam o mesmo espaço em diferentes períodos, permitindo alternar produção de grãos e pastagens. Além de diversificar a atividade, o sistema pode melhorar a cobertura do solo e oferecer alimento ao rebanho em épocas mais críticas do ano.

O protocolo também considera práticas relacionadas à correção do solo, adubação e uso eficiente de insumos.

Isso é importante porque a avaliação de baixo carbono não olha apenas para o metano produzido pelo gado. Fertilizantes, manejo do solo, transporte e outras etapas da produção também fazem parte da conta.

Confinamento também precisa demonstrar eficiência

Propriedades que utilizam confinamento ou semiconfinamento não ficam fora do sistema, mas precisam atender a exigências específicas.

O protocolo considera questões relacionadas à dieta, sanidade, bem-estar animal, mortalidade, instalações e destinação dos dejetos.

A lógica é evitar que a intensificação seja confundida automaticamente com sustentabilidade. Produzir mais em uma área menor só representa vantagem ambiental quando o sistema mantém bons indicadores produtivos e sanitários sem gerar novos problemas.

Ao mesmo tempo, o modelo preserva uma característica importante da pecuária brasileira: boa parte do desenvolvimento do animal precisa ocorrer em sistema de pastejo.

Selo de baixo carbono depende de cálculo, não de impressão

No fim da avaliação, todos esses dados precisam responder a uma pergunta objetiva: aquela carne foi produzida com uma intensidade de emissões menor do que a referência adotada?

Para isso, são utilizadas ferramentas de cálculo desenvolvidas pela Embrapa, capazes de estimar as emissões associadas ao sistema produtivo.

Entre os componentes considerados estão o metano gerado pelos bovinos, o uso de insumos, o manejo das áreas e outros fatores ligados à produção.

A própria Embrapa destaca que a fermentação entérica representa uma parcela relevante das emissões da pecuária bovina. Melhorias em nutrição, manejo e desempenho animal podem reduzir essa intensidade por unidade de carne produzida.

O resultado, portanto, não depende de uma única tecnologia. É consequência do conjunto de decisões adotadas dentro da propriedade.

Auditoria independente confirma os resultados

A última palavra não fica com o produtor.

Para receber o selo de baixo carbono, a fazenda precisa passar por auditoria realizada por uma empresa independente habilitada para verificar o cumprimento dos critérios do protocolo.

Os profissionais analisam documentos, registros produtivos, rastreabilidade, condições das áreas e demais evidências exigidas.

É justamente para ampliar essa estrutura de verificação que a Embrapa Gado de Corte realiza a capacitação encerrada nesta quinta-feira.

Na prática, o sistema busca substituir declarações genéricas de sustentabilidade por indicadores que possam ser conferidos.

Sustentabilidade passa a precisar de prova

A principal mudança trazida pelo protocolo Carne Baixo Carbono está justamente na necessidade de demonstrar resultados.

Não basta dizer que uma fazenda preserva o solo, possui bom pasto ou produz animais mais eficientes. Cada uma dessas características precisa aparecer em medições, documentos ou indicadores capazes de resistir a uma auditoria.

Para o consumidor, todo esse processo pode acabar resumido em uma identificação presente na carne. Para quem está dentro da porteira, entretanto, a certificação envolve uma cadeia muito mais complexa.

Antes de chegar ao frigorífico, o selo de baixo carbono começa no manejo do pasto, passa pelo desempenho do animal e chega até o carbono armazenado sob os primeiros centímetros do solo.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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