Na Reserva Extrativista Lago do Cuniã, em Rondônia, comunidades transformam o manejo regulamentado da fauna silvestre em uma atividade econômica ligada à bioeconomia amazônica
A carne de jacaré apresentada na Agrotec 2026, em Porto Velho, chama atenção por uma característica que vai muito além da gastronomia: os animais vêm de populações que vivem livremente na Amazônia. Na Reserva Extrativista Lago do Cuniã, o aproveitamento ocorre dentro de um sistema de manejo autorizado, no qual a fauna é monitorada e parte dos animais pode ser destinada à produção de carne e couro.
A experiência ganhou visibilidade nesta quarta-feira (26), primeiro dia da feira, realizada no Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O produto integra uma cadeia que envolve moradores da reserva, órgãos ambientais e instituições de apoio à produção.
Carne de jacaré não vem de criação convencional
O modelo do Cuniã é diferente de um criatório comercial. Os jacarés permanecem em seu ambiente natural e o uso econômico está condicionado às regras estabelecidas para uma unidade federal de conservação de uso sustentável.
O ICMBio reconhece que reservas extrativistas podem permitir o aproveitamento dos recursos naturais pelas populações tradicionais, desde que as atividades sejam compatíveis com os objetivos de conservação da área. No Cuniã, o órgão registra entre as possibilidades justamente o manejo de jacarés voltado à obtenção de carne e couro.
Isso significa que a captura não funciona como caça aberta. O número de animais que pode ser retirado depende de acompanhamento técnico, avaliação das populações e autorização dos órgãos competentes.
Uma atividade planejada há mais de duas décadas
A cadeia não surgiu com a feira de 2026. Estudos sobre as populações de crocodilianos no Lago do Cuniã começaram ainda em 2004, segundo o plano de manejo da reserva.
O documento técnico do ICMBio mostra que a gestão da atividade foi planejada envolvendo infraestrutura para processamento, fortalecimento da organização comunitária, busca por mercados e criação de renda complementar para os beneficiários da unidade.
Entre os objetivos definidos estavam também reduzir pressões econômicas sobre outras atividades extrativistas e manter o manejo como uma experiência de referência dentro da reserva.
Abatedouro obtém licença para funcionar em 2026
Um avanço importante ocorreu neste ano. O abatedouro ligado à CoopCuniã recebeu do Ibama a Licença de Operação nº 1692/2026, com validade de seis anos.
A autorização contempla o empreendimento instalado na comunidade Silva Lopes Araújo, na zona rural de Porto Velho, e representa uma etapa necessária para estruturar o processamento dentro das exigências ambientais.
O Sebrae participou do processo por meio de assistência técnica voltada ao atendimento das condicionantes exigidas para o licenciamento.
A regularização da estrutura é estratégica porque permite avançar além da captura do animal. Processar o produto na própria região abre caminho para agregar valor antes que ele chegue ao mercado, aumentando a participação da comunidade nas diferentes etapas da cadeia.
Carne de jacaré passa por etapa antes da comercialização
Em agosto, a comunidade também realizou um abate-teste, acompanhado por instituições como ICMBio, Semagric, Emater e Sebrae.
Esse procedimento ocorre antes de uma nova etapa de captura destinada ao mercado e permite verificar as condições técnicas e sanitárias da operação. O avanço comercial depende do laudo de inspeção veterinária previsto no processo.
Além da carne, o couro pode ampliar as possibilidades econômicas do manejo ao permitir o aproveitamento de outra parte do animal, reduzindo perdas e diversificando os produtos gerados pela atividade.
Produto amazônico busca reconhecimento pela origem
Outro movimento pode aumentar o valor associado ao jacaré do Cuniã. Está em desenvolvimento uma iniciativa para relacionar o produto ao território por meio de uma Indicação Geográfica (IG).
A programação da Agrotec reservou para esta quinta-feira (27) uma apresentação dedicada ao Jacaré-Cuniã. O projeto pretende reunir elementos que comprovem a relação entre o produto, o modo de produção e sua origem territorial.
É importante diferenciar essa etapa de um registro já concedido: o reconhecimento pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) ainda depende do desenvolvimento e da formalização do processo.
Se obtida futuramente, a IG poderá ajudar na diferenciação comercial do produto e associá-lo diretamente ao Lago do Cuniã.
Bioeconomia transforma biodiversidade em oportunidade local
O caso de Rondônia mostra uma possibilidade de bioeconomia que não depende da conversão da floresta para instalar uma nova atividade produtiva.
Nesse modelo, o ativo econômico já está presente no território. O desafio passa a ser definir quanto pode ser utilizado, de que maneira, sob quais controles e como o valor gerado pode beneficiar as populações que vivem na região.
É justamente nesse ponto que a carne de jacaré do Cuniã deixa de ser apenas uma curiosidade gastronômica apresentada em uma feira agropecuária.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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