Com a restrição entrando em vigor no dia 3 de setembro devido às regras sobre antimicrobianos, o Ministério da Agricultura afirma que cabe aos pecuaristas e frigoríficos criar sistemas privados de controle sanitário para retomar as vendas ao bloco
Com a carne brasileira vetada na Europa a partir do dia 3 de setembro, o cenário para as exportações do agronegócio nacional exige respostas rápidas e estruturais. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) foi categórico ao afirmar que a responsabilidade de criar mecanismos de adequação às rígidas normas da União Europeia (UE) recai, majoritariamente, sobre o próprio setor produtivo privado.
A drástica restrição comercial está diretamente ligada às exigências do bloco contra o uso de antimicrobianos na pecuária.
O impacto comercial da carne brasileira vetada na Europa
No início de junho, a União Europeia formalizou a exclusão do Brasil da lista de nações consideradas aptas a cumprir suas diretrizes sanitárias para o controle de medicamentos veterinários.
Anteriormente, segundo a lista divulgada em 2024, o mercado brasileiro estava autorizado a enviar carne bovina, de frango, equina, além de pescados, mel e tripas. Com a atualização mais recente, o país foi sumariamente excluído de todas essas categorias. Na prática, a carne brasileira vetada na Europa representa um desafio logístico e financeiro imediato para os frigoríficos e pecuaristas, que perdem temporariamente um dos mercados mais exigentes e rentáveis do mundo.
A responsabilidade é do setor privado, afirma o Ministério
Em documento oficial encaminhado à Câmara dos Deputados, o governo brasileiro argumentou que a viabilização do retorno das exportações dependerá da capacidade tecnológica e gerencial das empresas. O Mapa esclarece que parte dos antimicrobianos proibidos pelo bloco europeu continua legalizada e em uso rotineiro na bovinocultura, suinocultura e avicultura nacionais, pois possuem “relevante finalidade veterinária” para a manutenção dos rebanhos.
Como o governo federal não tem a intenção de proibir o uso dessas substâncias em âmbito nacional, a solução apontada é a criação de sistemas de controle privados. O setor produtivo precisará garantir a segregação absoluta da produção, assegurando, de ponta a ponta, que os animais destinados à Europa não sejam tratados com os compostos vetados.
Histórico do impasse: como chegamos à carne brasileira vetada na Europa?
O alerta governamental não é recente. O Ministério da Agricultura afirma que, desde junho de 2023, a Secretaria de Defesa Agropecuária tem se reunido com representantes do agronegócio para alertar sobre o iminente risco.
Apesar das tratativas recentes, as propostas brasileiras esbarraram no rigor europeu:
- 28 de abril de 2026: O Brasil enviou à Direção-Geral de Saúde e Segurança Alimentar da Comissão Europeia (DG SANTE) um protocolo de rastreabilidade para a cadeia de bovinos.
- 20 de maio de 2026: A DG SANTE informou ao embaixador brasileiro que não aceitaria a proposta de um período de transição, reiterando suas preocupações com o controle nacional.
- 29 de maio de 2026: A Comissão Europeia exigiu detalhamentos mais profundos sobre a regulação brasileira. No mesmo dia, o Mapa homologou o Protocolo de Exportação de Bovinos Livres de Medicamentos Antimicrobianos.
- 29 de junho de 2026: Uma nova reunião técnica ocorreu, com o Brasil se comprometendo a enviar versões atualizadas de sua documentação.
Mesmo com a carne brasileira vetada na Europa no curto prazo, o governo afirma que as negociações diplomáticas seguem abertas. Procurada pela imprensa, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) não se manifestou.
O perigo da resistência aos antimicrobianos e o projeto “One Health”
O cerne do bloqueio europeu baseia-se na defesa da saúde pública global. Antimicrobianos são utilizados para tratar infecções, mas, historicamente, também foram empregados como promotores de crescimento animal para aumentar a produtividade. O grande temor internacional é que esse uso em larga escala favoreça o surgimento de bactérias resistentes a antibióticos, tornando infecções humanas intratáveis.
A União Europeia proíbe o uso de antibióticos na ração animal para fins de crescimento desde 2006. Em 2019, as regras apertaram: ficou proibida a importação de produtos de origem animal de países que utilizem antimicrobianos classificados como de uso reservado a humanos. Em 2022, a UE classificou a Resistência aos Antimicrobianos (RAM) como uma ameaça central. Toda essa política de veto sanitário faz parte da campanha europeia One Health (Uma só saúde), lançada em 2023, que prega a conexão indissociável entre a saúde humana, animal e ambiental.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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