Seca, custos elevados e falta de animais criaram uma combinação que pressiona toda a cadeia americana. Com apenas 28,5 milhões de vacas de corte, os Estados Unidos ampliam importações enquanto pecuaristas alertam para os riscos de uma recuperação ainda mais lenta do rebanho.
Os Estados Unidos vivem uma situação que parecia improvável para a maior economia do mundo: a carne bovina chegou a níveis históricos de preço justamente quando o país enfrenta uma das menores disponibilidades de gado em décadas. A crise já ultrapassou as porteiras, chegou aos supermercados, pressiona grandes frigoríficos e obrigou Washington a adotar medidas para tentar aumentar a oferta.
O problema, porém, não nasceu agora e tampouco deverá desaparecer rapidamente.
Anos de seca, incêndios, custos elevados de produção e redução de matrizes levaram produtores americanos a diminuir seus rebanhos. Agora, mesmo diante de preços elevados do gado, reconstruir essa oferta tornou-se um desafio — e uma nova disputa envolvendo importação de carne bovina colocou consumidores, governo e pecuaristas em lados diferentes da discussão.
Apenas 28,5 milhões de vacas de corte
O tamanho da redução aparece nos números oficiais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Em 1º de julho de 2026, havia 94,2 milhões de bovinos e bezerros nas propriedades americanas. O número total apresentou pequena recuperação, mas esconde uma informação importante para compreender o futuro da oferta de carne.
O país possuía somente 28,5 milhões de vacas de corte, redução de 1% em relação ao ano anterior. A produção de bezerros em 2026 foi estimada em 32,5 milhões de cabeças, 2% menor que em 2025.
Em perspectiva histórica mais ampla, o cenário é ainda mais impressionante: análises recentes apontam que o rebanho bovino americano está próximo do menor nível em cerca de 75 anos.
Isso significa que os Estados Unidos possuem uma base menor de matrizes justamente quando precisam produzir mais bezerros para reconstruir sua oferta.
Carne cara virou problema para o consumidor americano
A consequência já chegou diretamente ao bolso.
A carne bovina no varejo americano alcançou preços recordes em 2026. Em julho, por exemplo, o preço médio da carne moída magra e extramagra chegou a aproximadamente US$ 8,41 por libra, segundo dados oficiais citados pela Reuters — valor mais de 38% superior ao observado cinco anos antes.
O problema é que a escassez não afeta apenas quem compra carne.
Os frigoríficos também disputam um número menor de animais disponíveis para abate, elevando o custo da matéria-prima. A Tyson Foods, uma das maiores companhias de proteína animal do mundo, reduziu recentemente sua projeção anual de lucro e classificou o momento como uma das mais severas faltas de gado da história dos Estados Unidos.
A empresa já havia fechado uma grande unidade de processamento de carne bovina em Nebraska e reduzido operações no Texas.
Ou seja: o consumidor paga caro pela carne, enquanto frigoríficos também enfrentam dificuldade para comprar gado a preços que permitam margens confortáveis.
Por que os Estados Unidos chegaram a esse ponto?
A resposta passa principalmente pelo ciclo pecuário.
Durante períodos prolongados de seca, produtores encontram menos pastagem disponível e precisam gastar mais com alimentação. Quando os custos se tornam elevados demais, parte das matrizes acaba sendo enviada ao abate.
Foi exatamente esse processo que reduziu gradualmente o rebanho americano.
Além disso, incêndios florestais, valorização da terra, custos com diesel, fertilizantes, alimentação e demais insumos aumentaram a pressão sobre propriedades pecuárias.
Agora ocorre o movimento contrário: os Estados Unidos precisam novamente de vacas e novilhas.
Só que reconstruir um rebanho bovino demora anos.
O paradoxo da reconstrução do rebanho
Existe ainda uma característica biológica que pode tornar a situação mais complicada antes de melhorar.
Para aumentar o rebanho, o pecuarista precisa reter novilhas que normalmente poderiam seguir para engorda ou abate. Essas fêmeas precisam entrar em reprodução, produzir seus primeiros bezerros e somente depois esses animais percorrerão todo o ciclo produtivo.
Portanto, quando uma reconstrução efetivamente começa, ela pode inicialmente reduzir ainda mais a disponibilidade de carne.
É uma diferença fundamental em relação às cadeias de aves e suínos, nas quais a produção pode responder muito mais rapidamente às mudanças de mercado.
No Wyoming, produtores já vendem animais que pretendiam manter
Uma reportagem publicada pela CBS News nesta segunda-feira, 7 de setembro, mostrou como essa situação está chegando às propriedades.
No Wyoming, pecuaristas enfrentam simultaneamente seca, custos crescentes, terra escassa e incertezas sobre os preços futuros do gado.
Lander Nicodemus, proprietário do Torrington Livestock Markets, que comercializa cerca de 450 mil bovinos anualmente, relatou que produtores foram obrigados neste ano a tomar decisões difíceis e vender animais que pretendiam manter.
Mark Eisele, que cria aproximadamente 1.500 bovinos próximo a Cheyenne, relatou outra preocupação que surgiu recentemente: a política americana para aumentar as importações.
Trump abriu espaço para mais 300 mil toneladas de carne
Diante da pressão sobre os preços dos alimentos, o governo Donald Trump decidiu agir pelo lado da oferta.
Washington autorizou temporariamente a entrada de até 300 mil toneladas métricas adicionais de carne bovina, com alívio tarifário, distribuídas ao longo de aproximadamente três meses.
A intenção é relativamente simples: colocar mais carne no mercado e tentar aliviar os preços pagos pelos consumidores.
A medida, entretanto, provocou forte reação entre pecuaristas.
Após o anúncio, contratos futuros de gado chegaram a cair fortemente. Segundo Eisele, produtor entrevistado pela CBS, o valor do gado chegou a recuar cerca de 10% praticamente de um dia para o outro, embora posteriormente o mercado tenha recuperado boa parte das perdas.
E aí surge outro paradoxo.
Importar carne pode baratear o produto, mas também atrasar a recuperação?
Esse é atualmente um dos grandes debates dentro da pecuária americana.
O governo argumenta que a importação adicional ajuda o consumidor enquanto cria tempo para que o rebanho doméstico seja reconstruído.
Parte dos pecuaristas argumenta justamente o contrário.
Se a entrada de carne estrangeira pressionar demasiadamente os preços do gado, o produtor poderá ter menos incentivo econômico para reter novilhas e investir na expansão do rebanho.
Chris Bastian, economista agrícola da Universidade de Wyoming ouvido pela CBS, estima que as 300 mil toneladas adicionais correspondam a aproximadamente 2% do consumo americano de carne bovina.
Assim, o efeito sobre o preço no supermercado poderia ser limitado, enquanto a incerteza provocada sobre a remuneração futura do produtor poderia ter consequências mais duradouras.
Trump anuncia novas medidas para a pecuária
A gravidade da situação ficou ainda mais evidente na última sexta-feira, 4 de setembro.
Donald Trump assinou novas ordens destinadas ao setor pecuário americano, incluindo medidas para facilitar o processamento local de carne, permitir maior proteção dos rebanhos contra lobos-cinzentos em determinadas circunstâncias e avançar na discussão sobre identificação da origem da carne comercializada no país.
O governo tenta resolver uma equação complicada: reduzir o preço da carne para milhões de consumidores sem derrubar a remuneração necessária para que milhares de pecuaristas reconstruam seus rebanhos.
Não existe solução rápida.
A crise já chegou aos grandes frigoríficos
Outro sinal importante veio da indústria.
A Tyson Foods reduziu sua projeção de lucro anual pela segunda vez em aproximadamente um mês. Segundo a companhia, a escassez de bovinos e a volatilidade dos preços continuam pressionando seu negócio de carne bovina.
O problema é simples de visualizar.
Com poucos animais disponíveis, frigoríficos disputam matéria-prima e pagam mais pelo gado. Entretanto, existe um limite para quanto desse aumento pode ser repassado ao consumidor antes que ele reduza compras ou substitua a carne bovina por proteínas mais baratas.
A crise, portanto, atinge pecuaristas, frigoríficos e consumidores ao mesmo tempo, embora de maneiras diferentes.
E onde o Brasil entra nessa história?
É justamente aqui que o cenário americano ganha importância para a pecuária brasileira.
Os Estados Unidos continuam entre os maiores produtores e consumidores de carne bovina do planeta. Quando sua produção doméstica não consegue acompanhar a demanda, a necessidade de carne importada aumenta.
O país utiliza especialmente carne bovina magra importada na fabricação de hambúrgueres e carne moída, misturando-a frequentemente com matéria-prima doméstica de maior teor de gordura.
Para grandes exportadores mundiais, portanto, a escassez americana cria uma disputa internacional por proteína.
E o Brasil entra nessa equação como maior exportador mundial de carne bovina, com capacidade de fornecer volumes que poucos concorrentes conseguem igualar.
Isso não significa que toda a demanda adicional americana será automaticamente direcionada à carne brasileira. Tarifas, cotas, regras sanitárias e decisões comerciais continuam determinando a competitividade de cada origem.
Mas a mensagem enviada pelo mercado americano é importante: um dos maiores consumidores de carne bovina do mundo precisa de oferta externa justamente porque reconstruir seu próprio rebanho levará tempo.
O que acontece agora?
O ponto central está nas matrizes.
Enquanto o número de vacas de corte permanecer reduzido e os pecuaristas americanos não iniciarem uma retenção consistente de novilhas, será difícil imaginar uma expansão rápida da produção.
E mesmo quando essa retenção começar, os resultados não aparecerão imediatamente.
Por isso, o atual recorde nos preços da carne não parece ser simplesmente consequência de uma oscilação momentânea.
Os Estados Unidos estão diante de um problema estrutural de oferta criado ao longo de vários anos.
O país precisa aumentar o número de matrizes, produzir mais bezerros e reconstruir o rebanho. Ao mesmo tempo, precisa impedir que a carne fique ainda mais cara para o consumidor.
É essa contradição que ajuda a explicar a situação aparentemente incomum vista hoje nos Estados Unidos: carne bovina em preços históricos, consumidores pressionados e, ao mesmo tempo, gado insuficiente para que a cadeia consiga responder rapidamente à demanda.
E enquanto essa conta não fechar dentro das fazendas americanas, a necessidade dos Estados Unidos de buscar carne no mercado internacional tende a continuar sendo um dos fatores mais importantes para o comércio mundial da proteína — inclusive para o Brasil.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.