Após uma década de pesquisas, CNA, Embrapa e Instituto CNA lançam um “cardápio forrageiro” que orienta produtores na escolha das espécies mais adaptadas às condições locais, reduz custos de alimentação e fortalece a produção de carne e leite em uma das regiões mais desafiadoras do país.
Produzir carne e leite em regiões onde a chuva pode desaparecer por até nove meses por ano sempre foi um dos maiores desafios da pecuária brasileira. No Semiárido, a escassez de água compromete a oferta de pastagens, eleva os custos de alimentação e limita o desempenho de bovinos, ovinos e caprinos.
Agora, um trabalho desenvolvido ao longo de dez anos de pesquisas promete mudar essa realidade. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com a Embrapa e o Instituto CNA, lançou um “cardápio forrageiro”, ferramenta que orienta os pecuaristas sobre quais espécies utilizar de acordo com as características de clima, solo e disponibilidade hídrica de cada região do Semiárido.
Mais do que indicar plantas resistentes à seca, o projeto reúne informações técnicas para que o produtor monte um sistema forrageiro mais eficiente, capaz de fornecer alimento ao rebanho durante todo o ano, reduzindo a dependência de compras externas de ração e aumentando a rentabilidade da atividade.
Não existe uma única forrageira ideal
Uma das principais conclusões do estudo é que não há uma solução única para todo o Semiárido brasileiro.
Segundo a coordenadora do Projeto Forrageiras para o Semiárido, Alenilda Carvalho, cada região apresenta características próprias e exige combinações específicas de espécies.
Durante a primeira fase do projeto, pesquisadores avaliaram 30 espécies forrageiras, incluindo:
- 12 gramíneas perenes;
- 8 gramíneas anuais;
- 7 variedades de palma forrageira;
- 3 leguminosas arbóreas.
A partir desses estudos foi elaborado o chamado cardápio forrageiro, que orienta o produtor na escolha das espécies considerando fatores como:
- tolerância à seca;
- exigência de fertilidade do solo;
- produtividade;
- resistência a pragas;
- manejo adequado do pastejo.
“Poupança forrageira” para enfrentar períodos de estiagem
Outro conceito apresentado pelo projeto é a chamada “poupança forrageira”.
A estratégia consiste em manter áreas com espécies altamente produtivas — especialmente variedades de palma resistentes a pragas e doenças — para garantir alimento ao rebanho durante os períodos mais críticos de seca.
Esse planejamento reduz riscos produtivos e oferece maior segurança alimentar aos animais mesmo em anos de estiagem severa.
Dez anos de pesquisa até chegar ao campo
O Projeto Forrageiras para o Semiárido foi iniciado em 2017, a partir da necessidade de recuperar áreas degradadas e aumentar a produtividade sem abertura de novas áreas.
Ao longo desse período foram implantadas 12 Unidades de Referência Tecnológica (URTs) distribuídas pelo Semiárido brasileiro, onde as espécies foram testadas em condições reais de produção antes de serem recomendadas aos produtores.
Somente na Bahia, cerca de 14 milhões de hectares apresentam algum grau de degradação, reforçando a importância de tecnologias que permitam produzir mais utilizando melhor as áreas já existentes.
Conhecimento aliado à assistência técnica
Além do material técnico, o projeto será levado diretamente aos produtores por meio do Rally Forrageiras, que promoverá dias de campo entre agosto e novembro em municípios de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Minas Gerais, Piauí, Maranhão, Paraíba e Ceará.
Durante os encontros, os participantes receberão gratuitamente o Guia de Bolso Forrageiras para o Semiárido, que também ficará disponível na plataforma Senar Play. Produtores interessados poderão buscar orientação técnica junto aos sindicatos rurais da região.
Palma, capim e silagem formam a base da estratégia
Os estudos também reforçam que a alimentação animal no Semiárido deve ser baseada em um conjunto de soluções, e não apenas em uma única cultura.
Entre as recomendações estão:
- diferentes variedades de palma forrageira;
- capins adaptados;
- sorgo;
- milheto;
- produção de silagem;
- recuperação de áreas degradadas;
- rotação de pastagens;
- análise de solo;
- planejamento alimentar do rebanho.
A palma forrageira continua sendo uma das principais alternativas para enfrentar longos períodos de estiagem. Segundo o projeto, o investimento varia entre R$ 11 mil e R$ 13 mil por hectare, mas a produtividade pode alcançar aproximadamente 180 toneladas de matéria verde por hectare já no primeiro ano, garantindo elevada oferta de alimento aos animais.
Tecnologia para aumentar a rentabilidade
O lançamento do cardápio forrageiro representa um avanço importante para uma região onde produzir depende diretamente da capacidade de planejar a alimentação dos rebanhos.
Ao substituir decisões baseadas apenas na tradição por recomendações técnicas adaptadas à realidade de cada propriedade, a expectativa é aumentar a eficiência dos sistemas pecuários, reduzir custos com alimentação, melhorar o aproveitamento das áreas disponíveis e ampliar a rentabilidade da produção de carne e leite no Semiárido brasileiro.
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