Capital nacional do gergelim, cidade vira potência de uma cultura que explode no Brasil

Capital nacional da produção de gergelim, município de Mato Grosso está no centro de uma cultura que cresce em ritmo acelerado no país, conquista mercados internacionais e ganha novas tecnologias para elevar produtividade e rentabilidade no campo

De coadjuvante no agronegócio brasileiro a uma das culturas mais promissoras para a segunda safra. O gergelim avança rapidamente pelas lavouras do país, ganha espaço no mercado internacional e encontrou em Mato Grosso um território privilegiado para sua expansão. No centro desse movimento está Canarana, considerada a capital nacional da produção de gergelim e um dos grandes polos produtores do grão no mundo.

O protagonismo do município chama ainda mais atenção diante da dimensão global da cultura. O gergelim é cultivado em mais de 70 países, com forte concentração na Ásia e na África. Índia, Myanmar e China, historicamente, aparecem entre os grandes produtores mundiais.

Durante décadas, o Brasil ocupou uma posição relativamente discreta nesse mercado. Estimativas mais antigas apontavam uma produção brasileira de aproximadamente 16 mil toneladas, cultivadas em cerca de 25 mil hectares. Esse cenário, porém, mudou radicalmente nos últimos anos.

A expansão recente transformou o mapa brasileiro do gergelim. Se nas décadas de 1950 e 1960 São Paulo e Paraná estavam entre os principais produtores nacionais, atualmente é o Centro-Oeste — e especialmente Mato Grosso — que dita o ritmo da cultura.

Na safra 2024/25, Mato Grosso alcançou 288,9 mil toneladas de gergelim, crescimento de 17,3% sobre as 246,1 mil toneladas registradas no ciclo anterior.

Não foi apenas a área que avançou. A produtividade média saltou de 579,06 kg por hectare para 720,09 kg/ha, sinalizando uma mudança importante no nível tecnológico das lavouras.

Segundo dados do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), a área cultivada com gergelim no estado cresceu cerca de 250% em cinco anos.

É nesse mapa que Canarana assume uma posição privilegiada.

Canarana, a capital nacional do gergelim

Localizada no Vale do Araguaia, Canarana consolidou-se como a capital nacional da produção de gergelim, tornando-se referência para produtores, compradores, exportadores e empresas que apostam no futuro da oleaginosa.

A região concentra aproximadamente 18% da área cultivada com gergelim em Mato Grosso, e praticamente toda a produção tem como destino o mercado externo.

A força de Canarana ajuda a mostrar o tamanho da transformação ocorrida no campo brasileiro. Uma cultura que durante muito tempo permaneceu restrita a áreas menores passou a ocupar milhares de hectares e entrou definitivamente no planejamento agrícola de grandes propriedades.

E existe uma explicação agronômica para isso.

Gergelim encontra espaço onde o milho enfrenta maior risco

Em determinadas regiões de Mato Grosso, especialmente no Araguaia, a redução das chuvas ao longo do primeiro semestre pode aumentar consideravelmente o risco para culturas semeadas mais tarde.

O gergelim encontrou justamente nessa janela uma oportunidade.

Com ciclo relativamente curto, rusticidade e boa adaptação a condições de menor disponibilidade hídrica, a oleaginosa tornou-se alternativa interessante para produtores que buscam reduzir a exposição climática da segunda safra.

Ao mesmo tempo, a abertura de mercados internacionais aumentou a demanda pelo produto brasileiro.

Historicamente, o consumo mundial está fortemente ligado à alimentação. Países do Oriente Médio e da Ásia utilizam o gergelim há séculos em receitas tradicionais. Líbano, Síria, Israel, Turquia, Irã, Iraque, Arábia Saudita, Japão, Coreia, Paquistão e Índia estão entre mercados onde a semente possui forte presença cultural e gastronômica.

No Brasil, o mercado interno ainda é relativamente pequeno diante do potencial da produção, movimentando entre 10 mil e 15 mil toneladas por ano, principalmente na panificação, fabricação de doces, produtos alimentícios e tahine.

Isso significa que boa parte do crescimento recente depende justamente da capacidade brasileira de conquistar compradores internacionais.

Uma cultura que começa a ganhar tecnologia própria

O salto de produtividade registrado nas lavouras mostra ainda outro movimento importante: o gergelim começa a receber mais investimento em genética, pesquisa, manejo e desenvolvimento de cultivares adaptadas às condições brasileiras.

E é justamente nesse momento de expansão que uma nova genética chega ao mercado.

A LCS Melgrão (RNC 60195) é a nova cultivar do portfólio da LC Sementes, lançada no segundo semestre de 2026 após mais de sete anos de pesquisa.

O material representa também um marco para a companhia: é a primeira cultivar desenvolvida pelo setor de melhoramento genético da empresa.

A proposta é combinar características importantes para o desempenho da lavoura com atributos que ampliem as possibilidades comerciais do grão.

Segundo o engenheiro agrônomo Leandro Lodea, a cultivar foi desenvolvida justamente para acompanhar essa nova realidade do mercado brasileiro.

“Trata-se de uma variedade com teto produtivo elevado e bom perfil sanitário, desenvolvida para atender o dinâmico mercado de gergelim e para ampliar as opções de culturas do agricultor brasileiro”, explica.

Potencial de até 1.600 kg por hectare

Um dos números que mais chama atenção na nova cultivar é justamente seu potencial produtivo.

Segundo o pesquisador e engenheiro agrônomo Murilo Sampaio, a LCS Melgrão pode atingir teto produtivo de até 1.600 kg por hectare, desde que sejam adotados manejo populacional e fitossanitário adequados.

A recomendação apresentada para o material considera uma janela de plantio entre 10 de fevereiro e 15 de março, aproveitando um período ainda favorável de chuvas para o estabelecimento da cultura.

O ciclo gira em torno de 90 dias, enquanto o custo estimado de implantação fica entre R$ 1.200 e R$ 1.600 por hectare.

“Por se tratar de uma cultura de ciclo curto a médio, de aproximadamente 90 dias, o gergelim se destaca pelo baixo custo operacional e pelo potencial de retorno financeiro”, afirma Sampaio.

Do óleo ao mercado gourmet

A Melgrão também busca atacar outro ponto importante: a diversificação dos mercados compradores.

No comparativo com a K3, cultivar amplamente plantada no país, o novo material mantém características agronômicas importantes, entre elas a retenção placentária, mecanismo que ajuda a reduzir perdas de sementes durante a colheita.

Mas existe uma diferença importante no produto final.

Enquanto materiais de perfil mais amargo possuem forte direcionamento para a extração de óleo, a Melgrão apresenta sabor mais doce e suave.

Na prática, isso permite trabalhar com uma cultivar de dupla aptidão, atendendo tanto mercados industriais quanto segmentos de maior valor agregado ligados ao consumo direto e à indústria alimentícia.

“Essa diferença confere ao novo material dupla aptidão. Além do mercado de óleo, ela atende ao mercado gourmet e de consumo direto, tornando-se uma alternativa para o fornecimento à indústria alimentícia”, destaca Lodea.

Uma nova fronteira agrícola ganha força

A trajetória do gergelim brasileiro mostra como rapidamente uma cultura pode mudar de escala quando mercado, ambiente produtivo e tecnologia começam a caminhar na mesma direção.

Mato Grosso já transformou a oleaginosa em uma alternativa relevante dentro da segunda safra, enquanto Canarana assumiu o posto de capital nacional do gergelim e tornou-se uma das grandes vitrines mundiais da cultura.

Agora, o avanço da genética pode abrir um novo capítulo dessa história.

Com cultivares voltadas especificamente às necessidades do produtor brasileiro, potencial produtivo crescente, custos relativamente baixos, ciclo curto e demanda internacional, o gergelim deixa cada vez mais de ser apenas uma alternativa e passa a disputar espaço como uma cultura estratégica dentro do sistema produtivo nacional.

E, no coração dessa expansão, Canarana mostra que o Brasil começa a construir uma nova potência agrícola justamente a partir de uma das sementes mais antigas cultivadas pela humanidade.

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