Suplementação ajuda a corrigir limitações nutricionais das pastagens durante a estiagem, mas o resultado depende da oferta de forragem, da formulação e do controle do consumo
O sal proteinado na alimentação do boi pode ajudar o pecuarista a reduzir os impactos da seca sobre o desempenho do rebanho. Ao fornecer proteína, minerais e fontes de nitrogênio, o suplemento favorece o funcionamento do rúmen e melhora o aproveitamento da forragem disponível no pasto.
Isso não significa, entretanto, que o produto transforme capim velho em alimento de alta qualidade. Seu papel é corrigir parte das deficiências nutricionais que limitam a digestão da fibra, desde que ainda exista quantidade suficiente de pastagem para os animais consumirem.
O que acontece com o capim durante a seca?
Com a redução das chuvas, as forrageiras tropicais diminuem o crescimento e avançam no processo de maturação. A planta passa a concentrar mais colmos e componentes fibrosos, enquanto perde folhas, proteína e digestibilidade.
Nessa situação, o pasto pode até apresentar volume visualmente considerável, mas entregar menos nutrientes ao gado. O animal encontra maior dificuldade para digerir a fibra e pode não consumir matéria seca suficiente para manter o ritmo de ganho de peso.
Documento técnico da Embrapa aponta que, em forragens de baixa qualidade com menos de 7% de proteína bruta, a suplementação proteica tende a aumentar a ingestão de pasto por estimular a digestibilidade da matéria orgânica e o fluxo do alimento pelo trato digestivo.
Como o sal proteinado na alimentação do boi funciona?
A digestão do capim depende, em grande parte, dos microrganismos presentes no rúmen. São eles que fermentam a fibra vegetal e transformam parte do material ingerido em nutrientes aproveitáveis pelo bovino.
Quando o pasto apresenta baixa concentração de proteína, esses microrganismos recebem menos nitrogênio do que precisam para trabalhar adequadamente. O sal proteinado busca corrigir essa deficiência por meio de ingredientes como farelos proteicos, minerais e, em determinadas formulações, ureia pecuária.
Com melhores condições no ambiente ruminal, aumenta a capacidade de degradação da fibra. O benefício prático pode aparecer na forma de maior consumo de forragem, manutenção da condição corporal ou ganho adicional de peso, conforme a qualidade do pasto e a estratégia adotada.
A Embrapa ressalta que esse tipo de suplemento atende primeiro às necessidades das bactérias ruminais. A melhora no desempenho do bovino ocorre como consequência de uma fermentação mais eficiente.
O suplemento realmente aumenta o ganho de peso?
A resposta varia de uma propriedade para outra. Categoria animal, genética, estado corporal, disponibilidade de água, composição do suplemento, qualidade da pastagem e lotação influenciam diretamente o resultado.
Uma meta-análise publicada pela Revista Brasileira de Zootecnia reuniu 132 estudos brasileiros, com dados de 6.275 animais, para avaliar diferentes estratégias de suplementação em pastagens tropicais. Na média geral, o ganho diário foi de 810 gramas no período das águas e 560 gramas na seca.
O mesmo levantamento identificou aumento do ganho por área durante a estiagem quando foram utilizados níveis superiores de suplementação proteica. Esse resultado se refere à suplementação proteica de maneira ampla e não deve ser interpretado como recomendação automática para aumentar o fornecimento de sal proteinado, que normalmente pertence a uma estratégia de baixo consumo.
Em orientações práticas da Embrapa, o objetivo do proteinado na seca pode variar entre reduzir a perda de peso, manter os animais ou proporcionar ganhos moderados. Portanto, o benefício nem sempre estará em acelerar intensamente a engorda. Em alguns sistemas, impedir que o rebanho emagreça já representa retorno econômico importante.
Sal proteinado precisa de capim disponível
O produto complementa a pastagem, mas não substitui o volumoso. Quando a área está rapada ou apresenta pouca massa de forragem, o animal não possui fibra suficiente para aproveitar o estímulo proporcionado pelo suplemento.
Como referência técnica para uma condição específica de recria, a Embrapa descreve o uso de sal proteinado em pastos secos com disponibilidade superior a três toneladas de matéria seca por hectare. Esse número não deve ser aplicado igualmente a todas as fazendas, pois a necessidade muda conforme o tipo de capim, a categoria dos animais, o clima e a pressão de pastejo.
Antes de iniciar a suplementação, o produtor precisa avaliar a quantidade de forragem realmente acessível ao gado. Quando o problema principal é a falta de alimento, pode ser necessário recorrer a feno, silagem, cana, capineira, resíduos agroindustriais ou sistemas de semiconfinamento.
Quanto fornecer aos animais?
Em sistemas de baixo consumo, uma referência utilizada pela Embrapa é de aproximadamente 1 grama de sal proteinado por quilo de peso vivo ao dia. Nessa proporção, um bovino de 400 quilos consumiria em torno de 400 gramas diariamente.
Esse cálculo serve apenas como orientação geral. A quantidade correta deve seguir a formulação do produto, a recomendação do fabricante e, preferencialmente, o planejamento de um nutricionista ou médico-veterinário.
Também é necessário acompanhar as sobras no cocho. Consumo abaixo do planejado pode indicar dificuldade de acesso, baixa aceitação ou excesso de sal comum na composição. Ingestão acima da meta exige atenção, principalmente quando há ureia entre os ingredientes.
Um estudo publicado em 2025 mostrou ainda que o intervalo de abastecimento pode modificar as características físicas das misturas minerais e afetar o desempenho dos animais. No experimento, a entrega semanal apresentou vantagem de 60 gramas no ganho diário em comparação ao fornecimento a cada 21 dias durante a transição das águas para a seca. Embora o trabalho tenha analisado mistura mineral solta, o resultado reforça a importância da rotina de manejo do cocho.
Cuidados com o sal proteinado na alimentação do boi
Produtos que utilizam ureia exigem adaptação e controle rigoroso. A substância pode ser aproveitada pelos microrganismos do rúmen como fonte de nitrogênio, mas o fornecimento inadequado oferece risco de intoxicação.
Os animais não devem receber a mistura depois de longos períodos de jejum ou quando estiverem sem acesso a pasto e água. Também é indispensável impedir o acúmulo de chuva no cocho, pois a água pode dissolver os componentes e favorecer a ingestão concentrada de ureia.
Outro cuidado é introduzir o suplemento gradualmente, observando o consumo nos primeiros dias. A Embrapa recomenda verificar se o rebanho já recebia mistura mineral regularmente antes da mudança para o proteinado.
Resultado depende de planejamento
O sal proteinado é uma ferramenta para melhorar a eficiência do sistema, não uma solução isolada para a estiagem. Seu uso funciona melhor quando está associado ao diferimento de pastagens, ao ajuste da lotação, à oferta permanente de água e ao acompanhamento do desempenho do lote.
A decisão também precisa considerar o custo por animal e o valor do peso adicional produzido. Um suplemento mais caro ou fornecido em quantidade excessiva pode elevar o ganho diário sem necessariamente melhorar a margem da fazenda.
Quando existe capim suficiente e o consumo é bem controlado, o proteinado pode ajudar o rebanho a atravessar a seca com menos perdas. Quando falta planejamento forrageiro, porém, o produto dificilmente compensará sozinho a deficiência de alimento.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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