Calor extremo muda rotina no campo e agricultores passam a trabalhar de madrugada

Da colheita de canola às 2h à vindima às 3h, produtores europeus alteram horários para preservar lavouras, proteger trabalhadores e reduzir os impactos das ondas de calor

O calor extremo está alterando uma das rotinas mais tradicionais do campo europeu. Para fugir das temperaturas mais severas do dia, agricultores passam a trabalhar de madrugada, antecipando colheitas e reorganizando atividades que antes eram realizadas sob a luz do sol. A mudança já aparece em lavouras de grãos, batata, uva e hortaliças e também começa a influenciar o manejo pecuário.

A adaptação ganhou força durante o verão de 2026, marcado por sucessivos episódios de calor e escassez de chuva em diferentes regiões da Europa. Mais do que buscar conforto, produtores tentam preservar a qualidade da produção e evitar que trabalhadores e animais permaneçam expostos durante as horas mais críticas.

Agricultores passam a trabalhar de madrugada para proteger a colheita

No condado de Berkshire, no Reino Unido, uma propriedade agrícola passou a realizar a colheita de canola por volta das 2h da manhã. O horário permite aproveitar a umidade formada durante a madrugada, condição que pode facilitar a operação e evitar que a cultura esteja excessivamente seca no momento da colheita.

O caso foi relatado pelo Financial Times, que identificou mudanças semelhantes em diferentes pontos da Europa.

Na Espanha, produtores de batata também transferiram parte da atividade para o período posterior ao pôr do sol. A decisão reduz a exposição das equipes às temperaturas máximas e permite realizar o serviço em condições menos severas.

Não se trata, portanto, apenas de começar o expediente algumas horas mais cedo. Em determinados cultivos, o próprio planejamento operacional da fazenda está sendo reorganizado em função da temperatura.

Vindima começa às 3h após termômetros atingirem 45°C

Calor extremo muda rotina no campo e agricultores passam a trabalhar de madrugada
Foto: Nacho Doce / Reuters

A mudança também chegou aos vinhedos espanhóis.

Na Catalunha, a vinícola Gramona colocou equipes no campo a partir das 3h da manhã, utilizando lanternas presas à cabeça para realizar a colheita antes do amanhecer.

Segundo a Reuters, a decisão ocorreu após a região enfrentar temperaturas próximas dos 45°C.

Além de diminuir a exposição dos trabalhadores ao calor, a estratégia tem uma função importante para a própria produção: uvas colhidas em temperaturas mais baixas chegam à vinícola em melhores condições para o processamento.

O calor também acelerou o desenvolvimento dos frutos. A propriedade iniciou a vindima em 22 de julho, no começo de colheita mais antecipado já registrado pela empresa.

Estufas obrigam produtores a trocar o dia pela noite

Nas produções de hortaliças, o problema assume outra dimensão.

Em Strumica, na Macedônia do Norte, agricultores começaram a realizar parte do manejo de tomates e outras culturas durante a noite para evitar o ambiente extremamente quente das estufas.

Registros divulgados pela Reuters em julho mostraram trabalhadores cuidando das plantas e dos sistemas de irrigação fora dos horários de maior temperatura.

Dentro de estruturas protegidas, o desconforto térmico pode ser ainda mais intenso, principalmente em atividades manuais e prolongadas. Com isso, deslocar o expediente se tornou uma alternativa imediata para manter as operações.

Pecuária também adapta horários por causa do calor

A reorganização não ocorre apenas nas lavouras.

Criadores na França e na Itália passaram a alterar horários de alimentação e manejo para reduzir o impacto das temperaturas elevadas sobre os animais.

Na região italiana ligada à produção do Parmigiano Reggiano, pecuaristas relataram perdas de produtividade durante períodos com temperaturas superiores a 40°C. Segundo informações divulgadas pela Reuters, algumas propriedades registraram queda de até 10% na produção de leite.

Ventiladores, sistemas de nebulização e mudanças na rotina passaram a integrar as estratégias utilizadas nas fazendas.

O motivo é fisiológico: sob forte estresse térmico, bovinos tendem a reduzir o consumo de alimento e gastar mais energia tentando controlar a temperatura corporal, situação que pode afetar diretamente o desempenho produtivo.

Calor extremo já pesa no caixa do campo europeu

Calor extremo muda rotina no campo e agricultores passam a trabalhar de madrugada
Foto: Divulgação / Gramona

Os impactos ultrapassam a mudança de horário.

Estimativas apresentadas pela rede da Política Agrícola Comum da União Europeia apontam que eventos climáticos adversos provocam mais de € 28 bilhões em perdas agrícolas por ano no continente, aproximadamente 6% do valor da produção agropecuária europeia.

A Comissão Europeia também aponta que as perdas relacionadas a secas e ondas de calor triplicaram ao longo dos últimos 50 anos.

No campo, isso significa aumento da necessidade de irrigação, maior consumo de energia, investimentos em resfriamento e risco de redução da produtividade.

Com temperaturas cada vez mais difíceis de enfrentar durante o dia, produtores estão recorrendo a uma solução simples, mas que muda profundamente a rotina rural: usar as horas mais frescas da noite para manter a produção em funcionamento.

O que hoje aparece como resposta emergencial em várias regiões europeias pode se tornar parte permanente do calendário de determinadas culturas caso os episódios de calor intenso continuem avançando.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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