Calor durante a noite matou mais de 2 mil bovinos nos EUA; saiba por que isso aconteceu

Mesmo com sombra, aspersores e manejo preventivo, combinação de noites quentes, alta umidade e ausência de vento provocou perdas históricas em confinamentos e levantou um alerta importante para sistemas de produção em todo o mundo. Caso foi relatado pela revista norte-americana Drovers.

Uma onda de calor que atingiu as Planícies Centrais e o norte do Meio-Oeste dos Estados Unidos revelou um fenômeno que preocupa técnicos e pecuaristas: não foi apenas a temperatura máxima durante o dia que matou os animais, mas principalmente a falta de resfriamento durante a noite.

Segundo reportagem publicada pela revista especializada norte-americana Drovers, mais de 2 mil bovinos morreram apenas no estado de Dakota do Sul, enquanto produtores também registraram perdas no Kansas, Nebraska e Iowa. O episódio chamou a atenção porque diversos pecuaristas já utilizavam práticas tradicionais de mitigação do estresse térmico, como sombra e aspersão de água, mas elas não foram suficientes diante das condições climáticas extremas.

O problema não foi apenas o calor

De acordo com a reportagem original da Drovers, um domo de calor manteve as temperaturas noturnas acima de 21°C, com umidade superior a 80% e praticamente nenhuma circulação de ar.

Essa combinação impediu que os animais eliminassem o calor corporal acumulado durante o dia. Como os bovinos dissipam calor principalmente pela respiração, noites abafadas reduzem drasticamente sua capacidade de recuperação antes do novo período de altas temperaturas.

Mais de 2 mil mortes em poucos dias

O especialista em confinamentos da South Dakota State University (SDSU), Warren Rusche, afirmou à Drovers que a região já havia enfrentado outros períodos de calor naquele verão.

O diferencial desta vez, porém, foi a temperatura mínima durante a madrugada.

“Se conseguimos baixar de 70°F (aproximadamente 21°C), normalmente o gado consegue eliminar parte da carga térmica e se preparar para o dia seguinte. Desta vez isso não aconteceu.”

Segundo Rusche, o conjunto formado por calor intenso, elevada umidade, noites quentes e ar praticamente parado acabou anulando qualquer estratégia de mitigação já adotada pelos produtores.

Nem sombra e aspersores impediram as perdas

Um dos casos relatados foi o do pecuarista Tucker Frederick, em Hayti, Dakota do Sul.

Ele perdeu sete animais terminados e dois bezerros, apesar de manter sombra, aspersores de água e experiência no manejo de estresse térmico.

Sua fazenda possui aproximadamente 150 matrizes e um confinamento com 1.300 bovinos. Segundo o produtor, os animais mais pesados — próximos ao abate — foram justamente os mais afetados.

Frederick explica que bovinos mais gordos acumulam maior quantidade de calor corporal.

Além disso, ressalta que boa parte do rebanho da região foi geneticamente selecionada para suportar invernos rigorosos, e não verões extremamente quentes. A predominância de pelagem preta também aumenta a absorção da radiação solar.

Os prejuízos vão além da mortalidade

A reportagem da Drovers destaca que, nos sistemas de cria, os impactos costumam ser ainda mais difíceis de mensurar.

Segundo o produtor Warren Symens, o estresse térmico pode provocar:

  • redução do ganho de peso;
  • maior incidência de doenças;
  • problemas de casco;
  • vacas que deixam de pastejar;
  • maior permanência em áreas alagadas;
  • alterações no desenvolvimento dos bezerros da próxima safra.

O produtor afirma ainda que vacas prenhes submetidas ao calor intenso podem gerar bezerros com menor desempenho, menor fertilidade e maior suscetibilidade a doenças.

Quais práticas ajudaram a reduzir perdas

Embora nenhuma estratégia tenha eliminado totalmente os prejuízos, a Drovers reuniu algumas práticas que apresentaram melhores resultados entre produtores norte-americanos:

  • monitorar as temperaturas mínimas, e não apenas as máximas;
  • ampliar áreas de sombra;
  • aumentar a oferta de água limpa;
  • melhorar a circulação de ar;
  • reduzir a lotação dos currais;
  • realizar alimentação durante a noite;
  • utilizar eletrólitos em períodos críticos;
  • revisar o posicionamento de árvores e barreiras que bloqueiam o vento.

Um alerta para a pecuária mundial

Embora o episódio tenha ocorrido nos Estados Unidos, especialistas consideram que eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes em diversas regiões produtoras.

Para sistemas intensivos, como confinamentos, a principal lição deixada pelo caso é que o risco não depende apenas da temperatura máxima registrada durante o dia. Quando noites permanecem excessivamente quentes, úmidas e sem vento, os animais deixam de dissipar o calor acumulado, aumentando significativamente o risco de estresse térmico severo e de mortalidade.

A experiência relatada pela Drovers reforça a importância de monitorar não apenas o calor diurno, mas também as condições climáticas noturnas como parte das estratégias de bem-estar animal e gestão de risco na pecuária moderna.

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