Cabra de chifres em forma de saca-rolhas sobrevive com poucos exemplares na Itália

Criada há séculos na Sicília, a Girgentana chama atenção pela aparência incomum, pela aptidão leiteira e por uma origem que ainda intriga pesquisadores

A cabra Girgentana possui uma das aparências mais curiosas da pecuária mundial. Seus chifres crescem para cima, quase paralelos, enquanto se retorcem em espiral como um saca-rolhas. A raça surgiu na Sicília, no sul da Itália, e tornou-se parte da história rural da província de Agrigento.

Apesar da aparência marcante, a Girgentana enfrenta dificuldades para continuar existindo. A redução dos rebanhos, a concentração dos animais em poucas propriedades e as secas recorrentes na Sicília aumentaram a preocupação com sua conservação. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Chifres em espiral crescem quase verticalmente

Os chifres são a característica mais evidente da raça e aparecem tanto nos machos quanto nas fêmeas. Eles nascem próximos um do outro e se desenvolvem quase verticalmente, formando voltas bem definidas ao longo do crescimento.

Embora sejam frequentemente comparados aos chifres do markhor — caprino selvagem encontrado em regiões montanhosas da Ásia —, as espirais dos dois animais apresentam sentidos diferentes. A semelhança visual alimentou teorias sobre um possível parentesco, mas a origem exata da Girgentana ainda não foi comprovada.

A raça também apresenta pelagem predominantemente branca, que pode ter tonalidades amareladas ou acinzentadas na cabeça. As orelhas são eretas, o perfil facial é levemente convexo e machos e fêmeas podem apresentar barba.

Nome da raça guarda a história de Agrigento

“Girgentana” deriva de Girgenti, nome histórico de Agrigento no idioma siciliano. A associação com a província é tão forte que a raça se tornou um símbolo da criação tradicional de caprinos nessa parte da ilha.

Existem diferentes hipóteses sobre sua chegada à Sicília. Uma delas sugere que ancestrais da Girgentana teriam sido levados à ilha por antigos colonizadores gregos. Outra atribui sua introdução a populações árabes durante a Idade Média.

Nenhuma dessas explicações foi confirmada de forma conclusiva. O que se sabe com segurança é que a raça foi criada por gerações na região e desenvolveu uma ligação profunda com a cultura alimentar e pastoril siciliana.

Girgentana foi selecionada para produzir leite

Apesar de ser lembrada principalmente pelos chifres, a Girgentana é uma raça de aptidão leiteira. Seu leite foi tradicionalmente destinado ao consumo e à fabricação de derivados, incluindo queijos e ricota.

Uma curiosidade é que o leite caprino tende a apresentar coloração mais branca que o leite bovino. Isso ocorre porque as cabras convertem grande parte do betacaroteno ingerido em vitamina A, reduzindo a presença do pigmento amarelado na gordura. A diferença entre o leite produzido por diferentes espécies também depende da alimentação e da composição do produto.

Como acontece com outras raças locais, a Girgentana não deve ser comparada apenas pela quantidade de leite produzida. Seu valor também está na adaptação ao território, na identidade dos derivados e na conservação de características genéticas que podem desaparecer caso o rebanho deixe de ser criado.

Raça quase desapareceu após perder espaço comercial

A Girgentana já foi muito mais presente no interior da Sicília. A modernização da pecuária, a substituição por raças de maior produtividade e o abandono de sistemas tradicionais contribuíram para a redução de seus rebanhos.

Quando uma raça passa a ser mantida por poucos criadores, o risco não se resume à diminuição do número de animais. A concentração em poucas linhagens pode aumentar a consanguinidade e reduzir a diversidade genética disponível para as próximas gerações.

A conservação exige registro genealógico, escolha cuidadosa dos acasalamentos e manutenção de machos e fêmeas de origens diferentes. Também depende de mercado: sem remuneração pelo leite e pelos derivados, o custo de preservar os animais recai quase inteiramente sobre os produtores.

Seca trouxe um novo desafio aos criadores

Em julho de 2024, a Reuters acompanhou produtores de Girgentana em San Cataldo, na província de Caltanissetta. A estiagem havia reduzido as pastagens e deixado reservatórios em níveis críticos.

O criador Luca Cammarata contou à agência que seus gastos com água haviam dobrado. Diante da falta de alimento e abastecimento, produtores temiam ser obrigados a enviar parte dos animais ao abate.

A seca não foi responsável pelo início do declínio da Girgentana, mas agravou a situação de uma raça com população limitada. O caso mostra como a perda de diversidade pecuária pode ser acelerada por eventos climáticos extremos e pela elevação dos custos dentro da propriedade.

Preservar essa cabra de aparência singular significa manter uma fonte de leite, um conjunto de características genéticas e parte da cultura rural da Sicília. Sem valorização econômica e planejamento dos acasalamentos, seus impressionantes chifres em espiral podem se tornar apenas um registro do passado.

VEJA MAIS:

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias

Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
RESUMIR COM:
LEIA TAMBÉM
NEWSLETTER COMPRERURAL

Receba as nossas
principais notícias

Conteúdo sobre o agronegócio, direto no seu e-mail.

🔒 Não enviamos spam. Você pode cancelar quando quiser.