Reprodutores de alto valor genético haviam sido adquiridos recentemente para melhorar o rebanho em Mato Grosso do Sul; produtor cobra esclarecimentos sobre o rompimento da rede elétrica e pretende buscar indenização.
Um investimento em melhoramento genético terminou em prejuízo para um pecuarista de Mato Grosso do Sul. Sete touros PO (Puro de Origem) morreram eletrocutados após o rompimento de um cabo de alta tensão que caiu sobre uma pastagem, em uma propriedade rural na região de Ribas do Rio Pardo. Os animais integravam um lote de 15 reprodutores adquirido recentemente, e as perdas financeiras podem chegar a R$ 160 mil, conforme estimativas divulgadas após o acidente.
O episódio, registrado em meados de outubro, ocorreu na Fazenda Nanes, em uma área arrendada às margens da rodovia MS-338, entre Ribas do Rio Pardo e Camapuã. Além do impacto financeiro imediato, o caso expõe um risco que preocupa produtores rurais em diferentes regiões do Brasil: a presença de redes elétricas sobre áreas de pastagem, instalações pecuárias e locais de circulação de trabalhadores e animais, especialmente quando ocorrem falhas estruturais ou rompimentos da fiação.
A perda ganha uma dimensão ainda maior porque não se tratava de animais destinados simplesmente ao abate. Os sete bovinos eram reprodutores selecionados para contribuir com a evolução genética do plantel, um investimento cujo retorno normalmente é construído ao longo de várias estações de monta.
Cabo se rompeu e atingiu os animais no pasto
De acordo com as informações divulgadas sobre a ocorrência, os touros pertenciam ao empresário e pecuarista Geraldo Herance, que mantém atividades comerciais em Água Clara (MS).
Os 15 reprodutores haviam sido comprados aproximadamente dois a três meses antes do acidente, como parte de uma estratégia de investimento na atividade pecuária.
O rompimento da rede elétrica fez com que um dos cabos caísse na área onde os animais estavam.
Oito touros conseguiram se afastar da região atingida, enquanto outros sete morreram após a descarga elétrica.
A propriedade fica a aproximadamente 25 quilômetros de Ribas do Rio Pardo. Os relatos publicados apresentam divergência quanto ao dia exato do acidente, apontando 14 ou 15 de outubro, mas coincidem sobre o local, a quantidade de animais mortos e as circunstâncias gerais da ocorrência.
Segundo o proprietário, a perda foi especialmente difícil porque os animais haviam sido adquiridos havia pouco tempo e representavam um investimento importante na melhoria do rebanho.
Prejuízo envolve animais avaliados em milhares de reais
As informações sobre os valores envolvidos indicam duas dimensões do prejuízo.
O pecuarista relatou que cada touro havia custado aproximadamente R$ 16 mil, o que representa uma perda direta de R$ 112 mil com os sete reprodutores mortos.
Outras estimativas divulgadas sobre o episódio apontam que o impacto financeiro poderia alcançar R$ 160 mil. A diferença pode envolver avaliações e despesas adicionais, mas não há detalhamento documental público suficiente para confirmar a composição desse valor mais elevado.
Os animais teriam sido adquiridos em leilão, e, conforme relato do produtor, ainda existiam parcelas da compra a serem quitadas.
Esse aspecto agrava o impacto econômico: o pecuarista perde os reprodutores antes de obter o retorno produtivo esperado, mas continua sujeito aos compromissos financeiros assumidos na aquisição.
Perda de touros PO compromete o planejamento genético
Na pecuária de corte, a compra de touros PO representa uma decisão estratégica. Esses animais possuem genealogia registrada e podem ser utilizados para transmitir características de interesse econômico, conforme sua avaliação genética e desempenho individual.
Entre os principais objetivos do investimento em reprodutores selecionados estão o aumento da eficiência produtiva, a melhoria da fertilidade, a precocidade sexual e a obtenção de animais com características mais adequadas ao sistema de produção.
Um touro utilizado em monta natural pode atender dezenas de matrizes durante uma estação reprodutiva, dependendo da idade, condição corporal, capacidade reprodutiva, manejo e relação touro-vaca adotada.
Por isso, a morte de sete reprodutores pode representar muito mais do que a perda de seu valor de aquisição.
Dependendo do planejamento da fazenda, o acidente pode exigir a compra emergencial de novos animais, reorganização dos lotes de reprodução e alterações no calendário de cobertura das matrizes.
No caso ocorrido em Mato Grosso do Sul, não foram divulgadas informações suficientes sobre a raça dos touros, suas avaliações genéticas ou o número de fêmeas que seriam atendidas. Portanto, não é possível quantificar eventuais perdas reprodutivas futuras.
Ainda assim, a ocorrência evidencia como um problema externo ao manejo do rebanho pode comprometer investimentos realizados em genética e produtividade.
Produtor questiona manutenção da rede elétrica e busca indenização
Outro ponto que ganhou destaque foi o relato de Geraldo Herance sobre a manutenção da infraestrutura elétrica.
Segundo o pecuarista, equipes que prestavam serviços à concessionária teriam realizado intervenções na rede aproximadamente 15 dias antes do acidente.
A informação, entretanto, não comprova que os serviços tenham provocado o rompimento. A causa da queda do cabo ainda depende de apuração técnica.
Diante das perdas, o produtor informou que procurou assistência jurídica para buscar ressarcimento dos danos.
A Energisa, concessionária responsável pela distribuição de energia elétrica na região, informou, conforme relatos publicados sobre o caso, que tomou conhecimento da ocorrência e encaminhou equipes para verificar as circunstâncias.
A empresa também mencionou procedimentos de análise técnica para pedidos de ressarcimento.
Até as informações consultadas para esta reportagem, não havia conclusão técnica pública que permitisse estabelecer definitivamente a causa do rompimento ou atribuir responsabilidade pelo acidente.
Queda de fios energizados representa risco também para trabalhadores rurais
A ocorrência chama atenção para um perigo que nem sempre é percebido imediatamente.
Quando um cabo energizado toca o solo, a corrente elétrica pode se espalhar pela superfície, criando diferenças de potencial entre pontos próximos. Esse fenômeno, conhecido como tensão de passo, pode provocar descargas mesmo sem contato direto com a fiação.
Nos bovinos, a distância entre as patas dianteiras e traseiras pode aumentar a exposição a essas diferenças de potencial.
Isso significa que um animal pode ser eletrocutado ao caminhar ou permanecer em uma área energizada, mesmo sem encostar diretamente no cabo.
A situação também representa risco extremo para funcionários que tentem retirar animais mortos ou socorrer outros bovinos.
Diante de uma ocorrência semelhante, as principais medidas de segurança são:
- Não se aproximar de fios caídos, mesmo quando aparentemente não há energia.
- Impedir a entrada de pessoas, animais e máquinas na área afetada, sem se expor ao risco.
- Acionar imediatamente a distribuidora de energia e, quando necessário, o Corpo de Bombeiros.
- Não tentar movimentar a fiação com madeira, cordas, ferramentas ou equipamentos agrícolas.
- Aguardar a confirmação técnica de que a rede foi desenergizada e o local está seguro.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) alerta que cabos rompidos podem permanecer energizados e provocar acidentes graves.
Como o pecuarista pode comprovar os prejuízos?
Além da segurança, a documentação adequada é fundamental quando a ocorrência provoca a morte de animais.
Em situações desse tipo, o produtor pode reunir registros fotográficos feitos a distância segura, boletim de ocorrência, notas fiscais de aquisição, documentos de registro genealógico e laudos veterinários que identifiquem a provável causa das mortes.
Também é importante preservar os protocolos de atendimento da concessionária e os documentos que comprovem o valor comercial dos animais.
No caso de touros PO, informações sobre genealogia, avaliações genéticas, desempenho e histórico de comercialização podem ajudar a demonstrar seu valor econômico.
A possibilidade de indenização depende da análise das circunstâncias, da comprovação dos danos e da relação entre a falha no serviço e as perdas registradas. A responsabilidade da concessionária não deve ser presumida como conclusão definitiva antes da apuração.
O tema já apareceu em outras ocorrências envolvendo a pecuária brasileira. O próprio Compre Rural noticiou anteriormente um acidente em Goiás no qual 13 bovinos morreram após o rompimento de uma rede elétrica em uma fazenda de Ceres.
A repetição de episódios semelhantes reforça a importância da manutenção preventiva das redes rurais e da comunicação imediata de qualquer sinal de risco.
Acidente reforça preocupação com a infraestrutura elétrica no campo
A eletrificação rural é indispensável para a modernização da pecuária brasileira. Sistemas de bombeamento de água, ordenha, resfriamento de leite, cercas elétricas, equipamentos de alimentação e instalações produtivas dependem de um fornecimento de energia confiável.
Entretanto, a infraestrutura também precisa acompanhar as exigências de segurança das propriedades.
Redes que atravessam piquetes e áreas de manejo exigem atenção especial, principalmente quando apresentam postes danificados, cabos excessivamente baixos, vegetação em contato com a fiação ou outros sinais de deterioração.
A identificação desses problemas deve ser comunicada à distribuidora, responsável pela avaliação e pelas intervenções cabíveis na rede sob sua responsabilidade.
O caso dos sete touros mortos em Mato Grosso do Sul demonstra como uma falha elétrica pode transformar, em poucos instantes, um investimento planejado para vários anos em uma perda expressiva.
Para o pecuarista, além do prejuízo financeiro, fica a necessidade de reorganizar parte do planejamento genético do rebanho. Para o setor, o episódio reforça uma questão essencial: a segurança da infraestrutura elétrica rural também faz parte da proteção do patrimônio produtivo brasileiro.
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