Avanço da seleção genética tornou a pecuária mais eficiente, mas estudos mostram que a concentração de determinadas linhagens exige cuidado para não reduzir variantes valiosas para adaptação e reprodução no futuro
A busca pelo gado perfeito ajudou a acelerar alguns dos maiores avanços da pecuária moderna. Touros e matrizes passaram a ser selecionados com precisão crescente para ganho de peso, fertilidade, qualidade de carcaça, produção de leite e outras características econômicas. O mesmo processo, porém, trouxe um novo desafio: evitar que o sucesso de poucas linhagens diminua a variedade genética disponível dentro dos rebanhos.
O alerta ganhou força com pesquisas recentes que analisam não apenas quanto uma população bovina evolui geneticamente, mas também o que pode ser perdido nesse caminho. Os resultados não colocam o melhoramento animal em xeque. Pelo contrário: mostram que a genética precisa ser usada também para preservar diversidade, e não somente para multiplicar os animais com maiores índices produtivos.
Seleção acelerou a evolução dos rebanhos
A incorporação da genômica mudou profundamente a forma de escolher reprodutores.
Antes, boa parte do valor genético de um animal dependia do desempenho de seus descendentes e de informações acumuladas ao longo dos anos. Hoje, milhares de marcadores espalhados pelo DNA permitem estimar seu potencial muito mais cedo.
Uma pesquisa publicada em 2026 no Journal of Dairy Science acompanhou aproximadamente 227,5 mil bovinos de cinco raças europeias e avaliou mudanças ocorridas após a adoção da seleção genômica.
Entre os efeitos observados estava uma redução de até quatro anos no intervalo entre gerações de touros em determinadas populações. Isso significa que novos reprodutores geneticamente superiores podem substituir gerações anteriores em uma velocidade muito maior.
O ganho é relevante para a produção. Mas também torna as decisões dos programas de seleção mais influentes sobre a composição genética das próximas gerações.
A busca pelo gado perfeito tem um ponto de atenção
O estudo europeu encontrou um resultado especialmente importante: a seleção genômica não provocou o mesmo efeito sobre a diversidade em todas as raças analisadas.
Indicadores relacionados à endogamia e ao parentesco aumentaram em algumas populações e diminuíram em outras.
Essa diferença derruba a ideia de que a tecnologia, por si só, seja responsável pela perda de diversidade. O impacto depende de fatores como número de reprodutores utilizados, estratégia de acasalamento e controle da contribuição genética de cada linhagem.
Na prática, o risco cresce quando poucos indivíduos considerados excepcionais passam a gerar uma parcela muito grande da população.
Um touro superior pode produzir milhares de descendentes por meio de inseminação artificial. Se filhos e netos dessas mesmas linhagens continuarem sendo amplamente escolhidos, aumenta a dificuldade de encontrar animais geneticamente distantes para os cruzamentos seguintes.
É aí que produtividade imediata e planejamento de longo prazo precisam caminhar juntos.
Nem todo gene valioso aparece na balança
Grande parte dos programas de melhoramento é direcionada para características economicamente mensuráveis. Entretanto, o patrimônio genético de uma raça inclui muito mais do que aquilo que aparece diretamente nos índices de seleção.
Populações adaptadas durante dezenas ou centenas de gerações podem carregar variantes relacionadas à tolerância ao calor, aproveitamento de alimentos, resistência a doenças, reprodução ou sobrevivência em ambientes específicos.
Pesquisa publicada em 2025 na Nature Communications, ao estudar bovinos tradicionais da Indonésia, revelou uma diversidade muito maior do que aquela já catalogada em bancos genéticos internacionais.
Na raça Madura, os pesquisadores identificaram forte contribuição genética histórica do banteng, bovino selvagem asiático, além de milhões de variantes genéticas que ampliaram o conhecimento disponível sobre essas populações.
O resultado ilustra por que raças menos utilizadas nos sistemas intensivos também interessam à ciência: elas podem guardar combinações genéticas raras que adquiram importância diante de novos desafios sanitários ou ambientais.
O que significa “apagar genes” do rebanho
A expressão não significa que genes começam simplesmente a desaparecer de um animal.
O fenômeno é mais gradual.
Quando determinada linhagem passa a representar uma parcela dominante da população, algumas variantes genéticas presentes em animais menos utilizados podem se tornar cada vez mais raras. Se deixarem de ser transmitidas ao longo das gerações, podem desaparecer daquela população.
Ao mesmo tempo, cresce a chance de animais geneticamente próximos serem acasalados.
Essa maior concentração de ancestralidade comum favorece a endogamia e pode aumentar a expressão de variantes recessivas desfavoráveis.
Por isso, diversidade genética funciona como uma espécie de reserva biológica: quanto maior o conjunto de alternativas disponível, maior tende a ser a capacidade de realizar novos cruzamentos e responder a mudanças futuras.
Endogamia também está sendo investigada no Brasil
O tema já aparece em estudos diretamente relacionados à pecuária nacional.
Trabalho publicado em 2025 na Frontiers in Genetics, com participação de pesquisadores brasileiros, analisou informações genéticas da raça Angus criada no país.
A pesquisa reuniu 13.777 animais genotipados e uma base de pedigree superior a 530 mil bovinos, permitindo comparar diferentes formas de medir endogamia.
Os resultados indicaram efeitos predominantemente desfavoráveis sobre determinadas características produtivas, embora a intensidade variasse conforme o método utilizado e o atributo avaliado.
Um dos pontos relevantes foi justamente a diferença entre informações obtidas pelo pedigree tradicional e aquelas identificadas diretamente pelo DNA.
Com a genômica, tornou-se possível enxergar regiões herdadas de ancestrais comuns que nem sempre ficam evidentes apenas pela árvore genealógica do animal.
O Brasil guarda genética que não existe em qualquer lugar
O debate ganha outra dimensão em um país com condições produtivas tão distintas quanto o Brasil.
Raças localmente adaptadas, como Curraleiro Pé-Duro, Pantaneiro, Crioulo Lageano, Caracu e Mocho Nacional, carregam uma história genética construída sob diferentes ambientes brasileiros.
Esses animais não precisam competir diretamente com raças comerciais em produtividade para justificar sua importância.
Seu valor também está na possibilidade de preservar características relacionadas à rusticidade e à adaptação.
A Embrapa mantém trabalhos voltados à caracterização e conservação desses recursos genéticos e utiliza ferramentas de DNA para orientar acasalamentos em núcleos de conservação.
O objetivo é impedir que populações pequenas percam variabilidade simplesmente porque determinados indivíduos acabam sendo excessivamente representados nas gerações seguintes.
O gado perfeito do futuro pode ser diferente do atual
A grande questão está no horizonte de tempo considerado pelo melhoramento.
O bovino ideal para determinado sistema produtivo em 2026 não necessariamente será aquele mais preparado para as condições enfrentadas daqui a algumas décadas.
Mudanças de temperatura, disponibilidade hídrica, custos de alimentação, doenças e exigências de mercado podem alterar as características mais desejáveis.
Por isso, descartar diversidade genética apenas porque determinada variante não possui grande valor econômico hoje pode limitar opções futuras.
A própria FAO trata os recursos genéticos animais como parte estratégica da segurança alimentar e da capacidade de adaptação dos sistemas pecuários.
Melhoramento e diversidade não são objetivos opostos
A saída apontada pelos pesquisadores não está em abandonar a seleção de animais superiores.
Está em aperfeiçoá-la.
Programas modernos já podem utilizar informações genômicas para limitar o parentesco entre acasalamentos, diversificar o uso de reprodutores e acompanhar regiões do genoma que estejam se tornando excessivamente homogêneas.
Bancos de germoplasma também permitem conservar sêmen, embriões e outros materiais biológicos de populações consideradas estratégicas.
Assim, a mesma tecnologia capaz de identificar rapidamente um reprodutor excepcional também pode mostrar quando sua genética está começando a aparecer demais dentro da população.
A busca pelo gado perfeito, portanto, entra em uma nova fase. O melhor animal não é necessariamente aquele que reúne o maior número de características desejáveis isoladamente, mas aquele que contribui para um programa produtivo capaz de evoluir sem comprometer o patrimônio genético que sustentará as próximas gerações.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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