BTG Pactual lança maior fundo de investimento da história voltado ao agronegócio brasileiro

Com oferta inicial de R$ 10 bilhões, MegaFiagro supera sozinho todos os demais fundos do setor anunciados em 2026; cotas prometem retorno de até 97% do CDI

O BTG Pactual acaba de colocar no mercado uma das maiores estruturas privadas de financiamento já destinadas ao agronegócio brasileiro. Batizado de Fiagro BTG Pactual I Responsabilidade Limitada, o novo fundo poderá captar inicialmente até R$ 10 bilhões, valor que o posiciona como o maior Fiagro já lançado no País.

A dimensão da operação chama a atenção: sozinho, o fundo do BTG é maior que todos os outros Fiagros anunciados ao longo de 2026 somados. Segundo levantamento divulgado pelo AgFeed, que revelou os detalhes da operação, os demais fundos apresentados neste ano alcançam conjuntamente cerca de R$ 8,3 bilhões.

E o MegaFiagro ainda poderá dobrar de tamanho. O prospecto prevê uma segunda emissão de até R$ 10 bilhões, o que elevaria o potencial total de captação para impressionantes R$ 20 bilhões.

O lançamento ocorre justamente em um momento de forte restrição no crédito rural, avanço da inadimplência e aumento das recuperações judiciais no campo. Ao mesmo tempo, mudanças regulatórias promovidas pelo Conselho Monetário Nacional apertaram as regras para instrumentos tradicionais, como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio — CRAs — e os Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio — CDCAs.

Com isso, parte do dinheiro que financiava o setor por essas estruturas começou a procurar outro caminho. E os Fiagros ganharam protagonismo.

BTG fica com a primeira camada de risco

Um dos principais diferenciais da operação está no mecanismo criado para reduzir a exposição dos investidores à inadimplência dos recebíveis que integrarão a carteira.

De acordo com o AgFeed, o BTG ficará com todas as cotas subordinadas do fundo, equivalentes a 1% da emissão — ou até R$ 100 milhões na primeira oferta.

As cotas subordinadas funcionam como uma espécie de “colchão” de proteção. Em caso de atraso ou perda nos ativos do fundo, são elas que absorvem os primeiros prejuízos. Somente depois de consumida essa camada é que eventuais perdas alcançariam as cotas seniores adquiridas pelos investidores.

Na prática, o banco coloca capital próprio na parcela mais arriscada da estrutura, alinhando seus interesses aos dos demais participantes. Isso não significa, porém, que o investimento seja totalmente imune a perdas. A proteção cobre os prejuízos até o limite da subordinação, equivalente a 1% do patrimônio.

Quanto o investidor poderá receber?

O MegaFiagro será destinado exclusivamente a investidores profissionais, categoria que inclui pessoas com mais de R$ 10 milhões aplicados, além de bancos, seguradoras, empresas e investidores estrangeiros.

O BTG oferecerá duas modalidades de cotas seniores:

  • A primeira terá retorno-alvo de 92% do CDI, vencimento em 11 anos e liquidez diária a partir de 9 de dezembro, permitindo solicitações de resgate após essa data.
  • A segunda terá retorno-alvo de 97% do CDI e prazo fechado de dez anos. Nesse caso, não haverá resgate antecipado, e a saída dependerá de negociação das cotas no mercado secundário.

O retorno efetivo em reais acompanhará o comportamento do CDI. Como essa taxa tende a andar próxima da Selic, o rendimento nominal será maior quando os juros permanecerem elevados e diminuirá caso o Banco Central avance no ciclo de cortes.

Por exemplo, em um cenário hipotético de CDI a 14% ao ano, uma remuneração equivalente a 92% do indicador corresponderia a aproximadamente 12,88% ao ano. Já 97% do CDI representaria cerca de 13,58% ao ano, antes de impostos, taxas e demais condições previstas na oferta.

Não se trata, portanto, de uma promessa de ganhar 92% ou 97% sobre o capital aplicado, mas de receber essas proporções da variação do CDI.

Fundo supera toda a safra de lançamentos de 2026

A oferta inicial de R$ 10 bilhões ultrapassa em aproximadamente 20% o volume combinado de R$ 8,3 bilhões dos demais Fiagros anunciados em 2026.

Até então, a maior operação do gênero havia sido lançada pelo Itaú. O Itaúba Fiagro prevê captar até R$ 4,85 bilhões e também utiliza cotas subordinadas mantidas pelo próprio banco para proteger os investidores seniores.

O MegaFiagro do BTG poderá ter, portanto, mais que o dobro do tamanho dessa operação na primeira emissão. Caso a oferta adicional seja realizada, a diferença poderá superar quatro vezes o volume pretendido pelo concorrente.

É importante observar que os R$ 10 bilhões representam o limite da oferta, e não dinheiro já captado. A confirmação do fundo como o maior do mercado dependerá da adesão dos investidores.

Por que os Fiagros ganharam força agora?

A ascensão dos Fiagros está diretamente ligada à transformação das fontes de financiamento do agronegócio. Durante muitos anos, grande parte dos recursos privados chegou ao campo por meio de CRAs e CDCAs, instrumentos que permitiam às empresas antecipar recebíveis e captar dinheiro no mercado.

O Conselho Monetário Nacional, no entanto, passou a restringir os tipos de ativos que podem servir de lastro para essas emissões. As mudanças buscaram reforçar a conexão dos recursos com atividades efetivamente ligadas ao agronegócio e impedir operações nas quais o benefício financeiro acabava alcançando empresas ou dívidas sem vínculo suficientemente direto com a cadeia produtiva.

As restrições começaram a ser ampliadas em 2024 e ganharam novo aperto em 2025. A Resolução CMN nº 5.212, por exemplo, aumentou as vedações para emissões de CRAs e CDCAs lastreadas em determinados títulos de dívida, inclusive quando devidos ou garantidos por instituições financeiras e entidades não autorizadas pela regulamentação.

Com menos possibilidades para estruturar CRAs e CDCAs, bancos e gestores passaram a buscar veículos mais flexíveis. É nesse espaço que os Fiagros avançam.

O fundo pode reunir diferentes ativos ligados à cadeia agropecuária, como direitos creditórios, CPRs, títulos de empresas, participações societárias e outros recebíveis. Também permite montar carteiras diversificadas, criar classes de cotas com riscos distintos e captar recursos de grandes investidores.

Em outras palavras, o dinheiro não deixou necessariamente de procurar o agro. Ele está migrando para estruturas que oferecem maior liberdade de composição, diversificação e gestão dos riscos.

Capital privado ganha espaço no financiamento do campo

O lançamento também revela uma mudança estrutural no crédito rural brasileiro. Com os bancos mais seletivos, juros ainda elevados e recursos oficiais insuficientes diante das necessidades do setor, o mercado de capitais assume uma parcela cada vez maior do financiamento de produtores, cooperativas, revendas e empresas agroindustriais.

Os Fiagros completaram cinco anos com aproximadamente R$ 65,8 bilhões em patrimônio, segundo dados repercutidos pelo AgFeed. A chegada de uma única estrutura com capacidade inicial de R$ 10 bilhões mostra que o instrumento deixou de ser uma alternativa secundária para ocupar posição estratégica no financiamento do setor.

O desafio será transformar essa nova abundância de capital em crédito efetivamente acessível às empresas e aos produtores. Para o investidor, a estrutura oferece exposição ao agro com retorno atrelado ao CDI e uma camada inicial de proteção contra perdas. Para o campo, representa a chegada de uma fonte bilionária de recursos em um momento no qual o crédito tradicional se tornou mais escasso, caro e seletivo.

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