BrasilAgro corta até 7 mil hectares do plantio por risco do El Niño

Companhia revê o plantio da safra 2026/27, amplia a participação do milho e concentra o algodão em áreas irrigadas para limitar perdas climáticas e financeiras

A BrasilAgro retirou entre 6 mil e 7 mil hectares de áreas consideradas mais vulneráveis de seu planejamento original para a safra 2026/27, em uma estratégia de redução da exposição ao El Niño. Segundo o CEO da companhia, André Guillaumon, parte dessas terras receberá culturas de cobertura, enquanto outra parcela será destinada ao milho de verão.

O ajuste não representa, portanto, o abandono de toda essa extensão. A empresa está redistribuindo o uso das terras conforme o nível de risco produtivo, a fertilidade do solo, o custo de implantação e a capacidade de controlar a oferta de água. A decisão acompanha um movimento mais amplo de cautela no agronegócio diante das incertezas provocadas pelo El Niño na safra 2026/27. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

BrasilAgro reduz risco em áreas agrícolas mais novas

A maior preocupação da companhia está nas áreas de primeiro e segundo anos de produção. Talhões ainda em desenvolvimento geralmente apresentam fertilidade em construção, menor estabilidade produtiva e resposta mais acentuada à irregularidade das chuvas.

De acordo com Guillaumon, uma área consolidada poderia perder entre 15% e 20% de produtividade durante uma seca, enquanto a redução em lavouras recém-abertas ou ainda em fase de correção do solo pode ser substancialmente maior. Os percentuais foram apresentados pelo executivo e não constituem uma projeção válida para todas as propriedades, pois a resposta depende do solo, da cultura, do manejo e da distribuição das precipitações.

Nesse contexto, manter cobertura vegetal pode ser economicamente mais racional do que implantar soja em um talhão com baixa probabilidade de remunerar o investimento. Além de evitar custos de uma lavoura comercial, plantas de cobertura ajudam a proteger o solo, aumentar a matéria orgânica, favorecer a infiltração de água e reduzir perdas por erosão.

A mudança ocorre enquanto a BrasilAgro projeta uma área total de 165,2 mil hectares na safra 2026/27, 1% abaixo dos 167 mil hectares do ciclo anterior. Mesmo com a retração, a estimativa corporativa aponta produção de grãos e algodão de 452,9 mil toneladas, crescimento de 9%.

Milho ganha espaço no planejamento da safra 2026/27

O milho foi escolhido para ocupar parte das áreas retiradas do plano inicial. A companhia estima colher 85,3 mil toneladas do cereal na primeira safra, aumento de 17%, e 96,1 mil toneladas na segunda, avanço de 22%, conforme as projeções divulgadas para o próximo ciclo.

A redistribuição mostra que a gestão do risco climático não depende somente da redução da área. Calendário, ciclo das cultivares, disponibilidade de máquinas, armazenagem, contratos comerciais e capacidade de reagir às previsões meteorológicas também influenciam a escolha.

A estratégia guarda relação com a postura de outras empresas que vêm antecipando decisões comerciais e operacionais para reduzir a exposição de soja e milho às oscilações do El Niño.

Para o produtor, a decisão de trocar culturas exige uma conta individualizada. A redução do risco agronômico não garante margem positiva se o novo cultivo tiver custo elevado, comercialização desfavorável ou estrutura incompatível com a propriedade.

Algodão fica concentrado em áreas irrigadas

No algodão, a BrasilAgro adotou uma posição ainda mais defensiva. A companhia prevê redução de 70% na área de algodão de primeira safra e pretende priorizar talhões irrigados, nos quais pode controlar melhor o fornecimento de água.

A cultura demanda investimento elevado em sementes, defensivos, fertilizantes, mecanização e colheita. Uma quebra de produtividade, portanto, tende a produzir impacto financeiro mais expressivo por hectare do que em atividades de menor desembolso.

Segundo Guillaumon, os preços pressionados da pluma no momento da elaboração do plano agrícola também pesaram na decisão. A combinação entre margem mais estreita e risco climático diminuiu a atratividade do algodão de sequeiro nas áreas mais suscetíveis.

A irrigação reduz a dependência direta da chuva, mas não elimina todos os riscos. Disponibilidade hídrica, custo da energia, capacidade de bombeamento, autorizações de uso da água e ocorrência de calor extremo continuam sendo fatores relevantes.

El Niño forte amplia a incerteza no campo

O El Niño já está configurado e segue em intensificação. O boletim mais recente do Painel El Niño 2026–2027, produzido por sete instituições federais, aponta probabilidade superior a 90% de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre setembro e novembro de 2026. Os modelos indicam permanência pelo menos até o início de 2027.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, calculou ainda uma probabilidade de 69% de o evento superar, entre outubro e dezembro, a intensidade dos episódios registrados desde 1950, segundo o critério RONI utilizado pela instituição.

Intensidade oceânica, entretanto, não permite prever de maneira automática o volume de chuva em cada propriedade. A própria NOAA ressalta que um El Niño mais forte aumenta a confiança em alguns padrões climáticos, mas não garante impactos uniformes ou proporcionais em todas as regiões.

No Brasil, o comportamento esperado é desigual. Áreas do Sul ficam mais expostas a chuva excessiva, enquanto partes do Centro-Norte podem enfrentar calor, precipitações irregulares e períodos de deficiência hídrica. Estudos históricos sobre o comportamento da soja em 25 safras sob influência do El Niño também mostram que os efeitos variam conforme a região e a fase da cultura.

Custos dos fertilizantes reforçam postura defensiva

O clima não é o único componente da revisão. A BrasilAgro antecipou compras de fertilizantes para reduzir a exposição ao encarecimento dos insumos. Guillaumon citou o fosfato monoamônico, conhecido como MAP, afirmando que parte do volume foi adquirida próxima de US$ 580 por tonelada, diante de uma referência posterior ao redor de US$ 840.

Com compras antecipadas e maior utilização de sementes próprias, a empresa calcula que o custo de produção agrícola crescerá entre 2% e 3% na comparação anual. Trata-se de uma estimativa corporativa, sujeita a alterações em câmbio, frete, preços dos insumos e execução do plantio.

A proteção obtida pela antecipação não pode ser reproduzida automaticamente por todos os produtores. Comprar cedo pode reduzir o risco de alta, mas também imobiliza capital e exige capacidade de armazenagem, planejamento financeiro e avaliação da segurança dos fornecedores.

A Embrapa divulgou, em 1º de setembro, uma nota técnica com 163 medidas de gestão de riscos climáticos para a agropecuária. Entre as orientações transversais estão o acompanhamento de previsões, conservação do solo e da água, diversificação produtiva, planejamento de épocas de semeadura e uso de instrumentos como seguro rural e Zoneamento Agrícola de Risco Climático.

Chuva aumenta o volume de cana, mas reduz concentração de açúcar

Na cana-de-açúcar, o efeito observado pela companhia é diferente. As chuvas elevaram o peso da matéria-prima e contribuíram para ampliar a oferta, porém dificultaram a moagem e reduziram a concentração de sacarose. Assim, uma quantidade maior de cana não corresponde necessariamente à mesma expansão na fabricação de açúcar e etanol.

Guillaumon relatou que estimativas de mercado antes situadas entre 620 milhões e 625 milhões de toneladas passaram a considerar cerca de 640 milhões de toneladas no Centro-Sul. O número citado pelo executivo representa uma referência discutida pelo setor, e não uma estimativa oficial consolidada apresentada na divulgação.

A menor renovação dos canaviais também ampliou a quantidade disponível para corte. Diante dos juros elevados e do custo de capital, usinas e fornecedores postergaram reformas, mantendo em produção áreas que, em outras condições, seriam substituídas por novos plantios.

Essa decisão oferece mais cana no curto prazo, mas o envelhecimento dos canaviais pode comprometer a produtividade agrícola nos ciclos seguintes. O desafio será equilibrar o aproveitamento da oferta atual com a necessidade de recompor o potencial produtivo das lavouras.

Ajuste busca preservar margem sem interromper o crescimento

A postura defensiva para 2026/27 ocorre após a BrasilAgro encerrar o exercício de 2026 com prejuízo líquido de R$ 90 milhões, diante de lucro de R$ 138 milhões no período anterior. A principal diferença foi a queda dos ganhos com venda de fazendas, de R$ 180,1 milhões para R$ 2,1 milhões.

Na atividade agrícola, excluídas as vendas de propriedades, o Ebitda ajustado operacional avançou 11%, para R$ 97,3 milhões. A soja terminou a safra 2025/26 aproximadamente 2% abaixo da produtividade orçada, enquanto milho e algodão superaram o planejamento, segundo a administração.

Para o próximo ciclo, o plano reúne diversificação, cobertura do solo, irrigação, compras antecipadas, telemetria e ferramentas de análise de dados. O ponto central não é eliminar a exposição ao clima — algo inviável na agricultura —, mas evitar que áreas com alto custo e baixa estabilidade concentrem uma parcela desproporcional do risco financeiro.

A confirmação desse resultado dependerá da distribuição das chuvas, da execução operacional e dos preços recebidos pelas culturas. Os próximos boletins climáticos e as atualizações de safra da companhia mostrarão se a redução preventiva da exposição conseguirá preservar margens sem limitar o crescimento projetado da produção.

VEJA MAIS:

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias

Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
RESUMIR COM:
LEIA TAMBÉM
NEWSLETTER COMPRERURAL

Receba as nossas
principais notícias

Conteúdo sobre o agronegócio, direto no seu e-mail.

🔒 Não enviamos spam. Você pode cancelar quando quiser.