Com exportações em alta, novas autorizações comerciais e maior presença em eventos no exterior, Brasil tenta transformar a credibilidade do agronegócio em vantagem competitiva
O mercado internacional ganhou importância ainda maior na estratégia brasileira para o agronegócio. Em vez de concentrar esforços apenas na abertura formal de destinos, o país passou a combinar negociações sanitárias, promoção comercial, presença em feiras e ações de aproximação com compradores para ampliar a participação dos produtos nacionais no exterior.
O movimento acontece em um momento favorável para as exportações. Entre janeiro e julho de 2026, o agronegócio brasileiro movimentou US$ 103,4 bilhões em vendas externas, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O valor é recorde para o período e representa crescimento de 6% em relação aos mesmos sete meses de 2025.
]Mais do que sustentar os embarques das grandes commodities, porém, o desafio agora é abrir espaço para novos produtos, empresas e regiões produtoras.
Brasil acelera presença no mercado internacional
Desde 2023, o país vem acumulando autorizações para exportar diferentes produtos agropecuários a novos destinos.
Até o fim de julho de 2026, o governo contabilizava 660 novas aberturas comerciais e projetava ultrapassar a marca de 700. O número não corresponde a 700 países diferentes. Cada autorização pode representar a entrada de um produto específico em determinado destino.
Isso significa, por exemplo, que um mesmo país pode liberar separadamente a compra de carne bovina, frutas, pescados, lácteos ou outros itens brasileiros.
A estratégia amplia as alternativas para os exportadores e reduz a dependência de poucos compradores, ponto especialmente relevante em períodos de instabilidade econômica, disputas comerciais ou mudanças nas regras de importação.
Exportações mostram tamanho da oportunidade
O avanço das negociações ocorre sobre uma base já robusta.
Somente em julho, as exportações do agronegócio atingiram US$ 16,34 bilhões, também um recorde para o mês. Nos primeiros sete meses de 2026, o setor respondeu por aproximadamente 47% de tudo o que o Brasil exportou.
O complexo soja permaneceu como principal grupo exportador, seguido pelas carnes, produtos florestais, café e complexo sucroalcooleiro.
Entre as proteínas, a carne bovina teve desempenho expressivo: as vendas externas de carne in natura chegaram a US$ 10,5 bilhões entre janeiro e julho, alta superior a 30% na comparação anual.
Os números mostram que a abertura de novos acessos comerciais não parte de um setor em busca de espaço inicial, mas de uma potência exportadora que tenta distribuir melhor suas vendas pelo mundo.
Reputação passa a pesar no mercado internacional
Conseguir autorização para exportar é apenas uma parte do processo.
Para produtos agropecuários, a confiança no sistema de fiscalização e controle sanitário brasileiro influencia diretamente as negociações. Países importadores analisam desde protocolos de inspeção até práticas adotadas na produção animal e vegetal.
Esse fator ganhou ainda mais importância diante das exigências de mercados como a União Europeia, que vem endurecendo regras relacionadas à segurança dos alimentos e ao uso de determinadas substâncias na produção pecuária.
Em 2026, o Brasil adotou novas restrições ao uso de antimicrobianos como promotores de desempenho na alimentação animal. O objetivo é adequar normas internas às exigências internacionais e reduzir riscos de questionamentos sanitários.
A questão tem impacto comercial porque uma restrição adotada por grandes mercados pode acabar servindo de referência para outros compradores.
Por isso, a reputação sanitária passou a ser tratada como parte da competitividade do agro brasileiro.
Feiras internacionais aproximam empresas dos compradores
Outra frente da estratégia está na promoção dos produtos brasileiros fora do país.
Neste ano, o Ministério da Agricultura programou participação em 28 feiras internacionais, incluindo eventos direcionados a segmentos específicos do setor.
A proposta é permitir que empresas brasileiras apresentem seus produtos diretamente a importadores, distribuidores e compradores estrangeiros.
Em alguns eventos, o governo disponibiliza estruturas coletivas para exposição, reuniões comerciais e apresentação de marcas nacionais.
A iniciativa tende a beneficiar principalmente companhias de menor porte, que normalmente enfrentam mais dificuldades para arcar com custos de prospecção internacional.
Ao colocar essas empresas diante de potenciais compradores, o governo tenta encurtar uma etapa importante do processo exportador: transformar oportunidades diplomáticas em contratos comerciais.
Novos produtos ampliam alcance do agro brasileiro
A diversificação não acontece apenas pelo aumento do número de destinos.
Parte das novas autorizações envolve produtos que tradicionalmente têm participação menor na pauta exportadora, como castanhas, especiarias, frutas, alimentos processados e itens de nicho.
Segundo balanço do Mapa referente às aberturas acumuladas até o fim de 2025, aproximadamente 20% dos novos acessos comerciais envolviam produtos considerados não tradicionais.
Esse movimento é importante porque abre oportunidades para cadeias produtivas que não possuem a mesma escala da soja, do milho ou das carnes.
Também cria espaço para cooperativas e pequenas empresas que atuam com produtos de maior valor agregado e podem competir em mercados especializados.
Pequenos exportadores entram na estratégia
O esforço para ampliar o mercado internacional também ocorre dentro do país.
Uma das iniciativas é a Caravana do AgroExportador, voltada à orientação de produtores, cooperativas e empresas que ainda não possuem experiência com vendas externas.
O programa busca apresentar exigências, oportunidades e caminhos para quem pretende começar a exportar.
Uma das ações previstas em 2026 ocorre no Acre, com foco na cadeia da mandioca e da farinha.
A lógica é aumentar a quantidade de empresas capazes de aproveitar as oportunidades criadas pelos acordos comerciais.
Em muitos casos, a abertura de um mercado não gera resultado imediato justamente porque faltam empresas preparadas para atender às exigências do país comprador.
Desafio agora é transformar acesso em vendas
O número de mercados abertos ajuda a medir o avanço diplomático do Brasil, mas não mostra sozinho o impacto econômico da estratégia.
Estudo desenvolvido pela ApexBrasil em parceria com o Mapa estimou que as mais de 500 autorizações acumuladas até determinado momento haviam gerado cerca de US$ 3,4 bilhões em exportações adicionais.
O levantamento também apontou potencial para novos ganhos caso as empresas brasileiras ampliem sua participação nesses destinos.
É justamente nessa etapa que o trabalho passa da negociação governamental para a atividade empresarial.
Depois que um produto recebe autorização, produtores e exportadores ainda precisam encontrar compradores, atender padrões específicos, organizar logística, definir preços e manter regularidade no fornecimento.
Por isso, o próximo passo da estratégia brasileira não será apenas alcançar novas marcas de abertura comercial.
O desempenho no mercado internacional dependerá cada vez mais da capacidade de transformar essas autorizações em negócios recorrentes, ampliar a diversidade da pauta exportadora e manter a confiança dos países compradores.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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