Brasil terá primeira fábrica do mundo de pele de tilápia para tratar queimaduras com investimento de R$ 52 milhões no Ceará

Projeto em Jaguaribara pretende transformar um subproduto da piscicultura em curativos biológicos para queimaduras e feridas; unidade será a primeira fábrica do mundo de pele de tilápia para tratar queimaduras e terá tecnologia desenvolvida pela UFC, produção em escala industrial e possibilidade de atender também o mercado internacional

Uma matéria-prima que normalmente teria pouco valor depois do processamento do pescado pode ganhar um destino completamente diferente no Ceará. A pele da tilápia produzida na região do Açude Castanhão deverá abastecer uma nova indústria dedicada à fabricação, em larga escala, de curativos biológicos, conectando piscicultura, pesquisa científica, indústria farmacêutica e saúde em uma mesma cadeia.

A unidade será instalada em Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, com investimento previsto superior a R$ 52 milhões. O projeto utiliza uma tecnologia desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pretende levar para escala industrial uma aplicação que transforma a pele do peixe em material destinado ao tratamento de queimaduras e feridas de difícil cicatrização.

Para o agronegócio, a iniciativa chama atenção por outro motivo: o que antes poderia ser tratado como subproduto da indústria do pescado passa a integrar uma cadeia de alto valor agregado. As peles deverão vir justamente da piscicultura instalada no entorno do Castanhão, aproximando a produção de tilápia de uma indústria voltada à área médica.

Da piscicultura para um produto médico

O princípio por trás da tecnologia está nas características da pele da tilápia e na possibilidade de processá-la para utilização como curativo biológico. Depois de preparada e esterilizada, ela pode ser colocada sobre a região lesionada, aderindo à superfície da ferida.

A aplicação é estudada especialmente para queimaduras de segundo e terceiro graus. Entre os benefícios apontados pelos responsáveis pelo projeto está a possibilidade de reduzir a frequência das trocas de curativos, uma etapa particularmente delicada no tratamento de pacientes queimados.

O projeto ganha dimensão justamente porque pretende superar uma das limitações existentes até agora: a escala.

Segundo as informações apresentadas sobre o empreendimento, o laboratório da UFC consegue atualmente preparar até cerca de 600 peles por mês. Com a industrialização, a previsão divulgada é chegar a aproximadamente 4,3 mil unidades por dia no primeiro ano, podendo alcançar 12 mil peles diariamente em uma etapa posterior.

É uma mudança significativa. A inovação deixa de estar concentrada essencialmente no ambiente de pesquisa e avança em direção a uma cadeia industrial capaz de consumir regularmente matéria-prima originada na produção aquícola.

Por que a pele de tilápia poderá ser armazenada sem geladeira?

Uma das etapas importantes do projeto será a liofilização. Nesse processo, a umidade é retirada da pele, enquanto o material também passa por esterilização por radiação gama.

A proposta permite conservar o curativo em temperatura ambiente. Antes de ser utilizado, o material precisa ser reidratado com solução fisiológica.

A expectativa apresentada para a tecnologia é de validade de até três anos sem necessidade de refrigeração. Na prática, essa característica pode ser decisiva para armazenamento, logística e distribuição, principalmente em locais distantes dos centros produtores. Também facilita uma eventual operação voltada ao mercado externo.

O elo com o agro está no Açude Castanhão

A escolha de Jaguaribara não acontece por acaso.

O município está próximo ao Açude Castanhão, importante polo da produção de tilápia cearense. É dessa atividade que deverá sair parte da matéria-prima utilizada pela nova fábrica.

Isso acrescenta uma camada particularmente interessante ao projeto: a valorização de uma parte do pescado que normalmente não representa o principal produto comercial da piscicultura.

Em vez de terminar como um resíduo ou subproduto de baixo valor, a pele pode seguir para processamento tecnológico e tornar-se insumo de uma cadeia farmacêutica.

É um exemplo concreto de bioeconomia aplicada ao agronegócio. A produção não necessariamente precisa aumentar para que seja criado mais valor: é possível encontrar novas utilizações para aquilo que já sai da cadeia produtiva.

Fábrica poderá movimentar milhões e gerar centenas de empregos

As projeções apresentadas para a unidade mostram que o empreendimento vai muito além de um laboratório experimental.

Segundo dados da Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará reproduzidos nos materiais do projeto, a capacidade projetada parte de 180 mil peles processadas mensalmente, podendo chegar a 400 mil unidades por mês no terceiro ano.

O faturamento anual projetado poderia avançar de aproximadamente R$ 58 milhões para R$ 130 milhões, enquanto metade da produção poderá ser destinada ao mercado internacional.

Há diferentes projeções divulgadas sobre empregos conforme a fase considerada. Uma delas aponta 120 empregos diretos no primeiro ano, 204 no segundo e 300 no terceiro ano de funcionamento. Outro material sobre o empreendimento menciona estimativa inicial de cerca de 200 postos diretos e capacitação de trabalhadores com participação da UFC e instituições parceiras.

A diferença reforça que os números de contratação ainda devem acompanhar a implantação e a expansão efetiva da indústria.

Tecnologia nasceu dentro da universidade

Um ponto fundamental para compreender o projeto é a origem brasileira da tecnologia.

As pesquisas foram conduzidas pela Universidade Federal do Ceará, por meio do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos, com participação de instituições parceiras.

A propriedade intelectual não foi simplesmente transferida para a empresa responsável pela produção. Conforme esclarecimento citado no material, a patente permanece pertencendo à UFC e aos demais cotitulares, enquanto a empresa recebeu licença para produzir e comercializar a tecnologia.

Esse modelo permite que uma pesquisa desenvolvida no ambiente acadêmico atravesse a chamada “travessia” entre laboratório e mercado — etapa em que muitas tecnologias promissoras encontram dificuldade para ganhar escala.

Construção deve começar em 2026

O cronograma divulgado prevê o início da construção a partir de outubro de 2026, seguido por um período estimado entre 15 e 18 meses para obras, instalação de equipamentos e validação dos lotes-piloto.

Caso o planejamento seja cumprido, a operação poderá começar em janeiro de 2028.

Há, porém, uma etapa indispensável antes da utilização comercial em grande escala. O produto terá de cumprir as exigências regulatórias e sanitárias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Portanto, as projeções industriais não devem ser confundidas com uma autorização automática para comercialização médica.

De um peixe criado no campo para uma tecnologia de saúde

Talvez seja justamente essa conexão que torne o projeto tão relevante para além da medicina.

A tilápia já ocupa posição importante na piscicultura brasileira, mas iniciativas como a do Ceará mostram que o valor econômico de um peixe não precisa terminar no filé. Pele, resíduos e outros componentes podem ganhar aplicações industriais completamente diferentes quando pesquisa, produção e investimento trabalham de forma integrada.

Nesse caso, o caminho é especialmente simbólico: uma pele originada de peixes produzidos no interior do Ceará poderá deixar de ser um subproduto da piscicultura para se transformar em um curativo biológico de alto valor agregado.

Se a produção industrial avançar conforme o planejado e superar as etapas regulatórias necessárias, o projeto poderá abrir uma nova frente para a cadeia da tilápia brasileira — aproximando uma atividade essencialmente agropecuária de setores como biotecnologia, indústria farmacêutica e saúde.

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