Proposta do Ministério da Agricultura pretende substituir a tradicional contagem de defeitos por uma avaliação baseada no peso dos grãos, reconhecer oficialmente os cafés especiais e modernizar critérios que influenciam a comercialização do produto.
O Brasil está preparando uma das mais importantes alterações nas regras de classificação do café das últimas duas décadas. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) trabalha na modernização da Classificação Oficial Brasileira (COB), sistema utilizado para estabelecer padrões de identidade e qualidade dos grãos comercializados no país. A proposta poderá modificar desde a maneira como os defeitos são avaliados até o reconhecimento oficial dos atributos sensoriais da bebida, com consequências para produtores, cooperativas, indústrias e exportadores.
No centro da mudança está a substituição do modelo tradicional de contagem de defeitos, regulamentado pela Instrução Normativa nº 8, de 11 de junho de 2003, por uma metodologia baseada no percentual em massa dos grãos defeituosos. Na prática, a revisão pretende aproximar os parâmetros oficiais das avaliações utilizadas nas negociações comerciais, além de incorporar critérios relacionados à qualidade sensorial, rastreabilidade e diferenciação dos cafés.
O assunto ganhou novos desdobramentos após um workshop realizado em 21 de outubro de 2026, em Vitória (ES), que reuniu representantes da cadeia produtiva, pesquisadores e técnicos do Mapa. As discussões fazem parte de uma etapa de preparação para a consulta pública da futura regulamentação.
A nova classificação ainda não está valendo. O Ministério pretende disponibilizar a minuta para contribuições públicas até o fim de 2026, e os critérios poderão ser ajustados antes da publicação da norma definitiva.
O que muda na classificação do café brasileiro?
Atualmente, a classificação física do café beneficiado em grão cru utiliza uma tabela que considera a quantidade e a equivalência dos defeitos identificados em determinada amostra.
Grãos pretos, ardidos, verdes, quebrados e outras irregularidades recebem tratamentos específicos, influenciando o enquadramento do produto. O modelo tradicional organiza o café em tipos que vão do tipo 2 ao tipo 8, conforme a quantidade de defeitos equivalentes.
A proposta apresentada pelo Mapa altera essa lógica. Em vez de contar individualmente os defeitos e convertê-los por equivalências, a metodologia passaria a considerar quanto os grãos defeituosos representam em peso dentro da amostra analisada.
Para compreender a diferença, basta considerar um exemplo ilustrativo: em uma amostra de 100 gramas, caso a massa dos grãos enquadrados como defeituosos seja de 3 gramas, o resultado corresponderá a 3% de defeitos em peso. O enquadramento definitivo dependeria dos limites e critérios definidos na futura regulamentação.
A mudança é relevante porque dois lotes com quantidades semelhantes de defeitos podem apresentar proporções diferentes em massa, dependendo do tamanho e das características dos grãos.
O objetivo do Ministério é simplificar procedimentos, melhorar a objetividade da avaliação e tornar os resultados mais próximos das práticas comerciais já conhecidas pelo setor.
Amostras menores e cinco tipos de café estão entre as propostas
Outra alteração apresentada nas discussões técnicas envolve o tamanho da amostra utilizada para a classificação física.
O projeto prevê a redução da amostra de trabalho de 300 gramas para 100 gramas, acompanhada da reorganização da tipagem em cinco tipos, numerados de 1 a 5, além das condições específicas de fora de tipo e escória.
A redução da quantidade analisada poderá facilitar determinados procedimentos, especialmente em operações que exigem a avaliação de muitos lotes durante o período de comercialização da safra.
Entretanto, a representatividade das amostras continuará sendo fundamental. Uma análise feita com menor quantidade de grãos precisa refletir adequadamente a qualidade de todo o lote, evitando distorções que prejudiquem produtores ou compradores.
A revisão também diferencia defeitos de maior gravidade daqueles que comprometem características comerciais, mas não tornam necessariamente o produto impróprio ao consumo.
Essa distinção é particularmente relevante para cafés com grãos quebrados, verdes ou malformados. Dependendo dos limites estabelecidos, determinados lotes poderão receber enquadramentos diferentes dos previstos na regulamentação atual.
Isso não significa flexibilizar indiscriminadamente a segurança do alimento. A proposta preserva a necessidade de identificar problemas graves e materiais incompatíveis com os padrões sanitários.
Cafés especiais poderão ganhar reconhecimento oficial por pontuação
A modernização não se limita à aparência física dos grãos. Uma das novidades mais significativas é a proposta de reconhecer formalmente os cafés especiais como categoria na regulamentação federal.
Conforme a estrutura apresentada em junho pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), os cafés que alcançarem 82 pontos ou mais na avaliação sensorial poderão integrar a categoria denominada Especial.
O projeto prevê cinco categorias sensoriais:
- Especial
- Fino
- Superior
- Comercial
- Inferior
A metodologia proposta utiliza uma escala de 0 a 100 pontos, contemplando características como aroma, sabor, acidez, corpo e finalização, além da identificação de desvios sensoriais relevantes.
A intenção é estabelecer uma linguagem técnica mais uniforme para os cafés arábica e canéfora, grupo que inclui conilon e robusta.
Esse ponto merece atenção porque o mercado brasileiro de cafés diferenciados já utiliza avaliações sensoriais para orientar a compra e a venda de lotes de maior qualidade. O reconhecimento oficial poderá ampliar a padronização dessas informações, embora a metodologia e seus limites ainda dependam da conclusão do processo regulatório.
Receber uma classificação superior, entretanto, não significa obter automaticamente um preço maior. A valorização comercial dependerá da qualidade efetiva da bebida, das exigências do comprador, da demanda e das condições de negociação.
O que a mudança poderá representar no bolso do cafeicultor?
Para o produtor, a questão mais importante não está apenas na alteração das tabelas, mas na maneira como o café será avaliado no momento da venda.
A classificação é uma das referências utilizadas para caracterizar a qualidade dos lotes e pode influenciar descontos, bonificações, formação de preços e condições contratuais.
Com a nova metodologia, poderão surgir diferenças entre o enquadramento obtido pelo sistema atual e aquele determinado pelo percentual de defeitos em massa.
Isso exige atenção principalmente dos produtores que comercializam grandes volumes ou trabalham com compradores que utilizam padrões específicos de qualidade.
A possibilidade de maior reconhecimento dos atributos positivos também poderá favorecer a identificação de lotes diferenciados, especialmente quando a qualidade sensorial estiver associada a processos cuidadosos de colheita, secagem, armazenamento e beneficiamento.
Mas existe outro lado dessa transformação: mudanças de classificação podem alterar referências comerciais já consolidadas.
Um café negociado tradicionalmente sob determinado padrão de tipo poderá precisar de novos parâmetros de comparação. Por isso, será importante entender como contratos, tabelas de descontos e exigências de qualidade serão adaptados.
O efeito econômico real da revisão dependerá da equivalência entre os sistemas, da aplicação prática da nova norma e do comportamento dos compradores. Ainda não há base para afirmar que a mudança elevará ou reduzirá, de maneira generalizada, os valores pagos aos cafeicultores.
Cooperativas defendem atenção aos custos e à renda dos produtores
O Conselho Nacional do Café (CNC) acompanha as discussões da nova classificação desde 2020 e defende que a modernização considere a realidade produtiva e comercial brasileira.
Entre as preocupações estão os possíveis impactos sobre a renda do cafeicultor, os custos operacionais das cooperativas, o tempo necessário para classificar os lotes e a adaptação dos sistemas de comercialização.
O CNC também destaca a importância de estabelecer correspondência clara entre os enquadramentos atuais e os futuros, evitando dificuldades na interpretação dos resultados e na precificação.
Esse aspecto ganha dimensão durante o pico da safra, quando cooperativas e empresas precisam receber, amostrar, analisar e armazenar volumes expressivos de café em períodos relativamente curtos.
A adoção de novos procedimentos poderá exigir atualização de equipamentos, ajustes operacionais e capacitação de profissionais responsáveis pela classificação.
Para pequenos e médios produtores, o desafio será garantir que a mudança produza benefícios concretos sem ampliar desproporcionalmente os custos de acesso à classificação.
Pesquisa brasileira analisou 461 amostras para fundamentar o novo sistema
A revisão vem sendo construída com participação científica e técnica de instituições ligadas à cafeicultura brasileira.
A Universidade Federal de Lavras (UFLA) participa do processo por meio do professor Flávio Meira Borém, do Departamento de Engenharia Agrícola, integrante do grupo técnico responsável pelos estudos.
Segundo a universidade, a proposta considera uma base de 461 amostras de café de diferentes regiões produtoras, com análises estatísticas destinadas a fundamentar os parâmetros de classificação.
O Conselho Nacional do Café detalha que 149 amostras vieram de diferentes estados produtores de arábica e canéfora, enquanto 312 foram classificadas pela Cooxupé.
O trabalho envolve a avaliação de critérios físicos e sensoriais, buscando contemplar a diversidade da produção brasileira.
A iniciativa também prevê etapas adicionais de validação científica, treinamento e aperfeiçoamento dos protocolos de avaliação.
A preocupação técnica é importante diante da diversidade de cafés produzidos no país. Condições de clima, altitude, genética, manejo e pós-colheita podem influenciar significativamente o perfil final dos grãos.
A própria evolução das práticas produtivas tem ampliado as possibilidades de diferenciação. Recentemente, pesquisas brasileiras sobre o aproveitamento de café colhido verde demonstraram como o desenvolvimento de novos processos pode abrir caminhos para preservar atributos da bebida.
A modernização dos critérios oficiais procura acompanhar essa evolução sem abandonar a necessidade de identificar defeitos e preservar os padrões de segurança.
Nova classificação chega em um momento de produção recorde no Brasil
O debate ocorre em um período de grande relevância para o setor cafeeiro nacional.
Segundo o terceiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em setembro, a produção brasileira de café na safra de 2026 foi estimada em 67,6 milhões de sacas de 60 quilos, crescimento de 19,6% em relação a 2025.
O volume representa o maior resultado da série histórica da companhia e reforça a importância econômica de critérios transparentes para a caracterização e comercialização dos grãos.
Do total previsto, 48,2 milhões de sacas correspondem ao arábica, enquanto 19,4 milhões de sacas são de conilon.
Nesse cenário, atualizar os padrões de classificação pode contribuir para melhorar a comunicação comercial entre os diferentes elos da cadeia, especialmente nas transações que exigem descrições precisas de qualidade.
O avanço tecnológico também abre possibilidades para o aperfeiçoamento das análises. Como já mostrou o Compre Rural em reportagem sobre os avanços da inteligência artificial na classificação do café, ferramentas computacionais vêm sendo estudadas para identificar características e defeitos dos grãos com maior padronização.
Essas tecnologias não substituem automaticamente os procedimentos oficiais, mas demonstram como a avaliação da qualidade tende a incorporar novas ferramentas e metodologias.
Quando a nova classificação do café entrará em vigor?
Apesar do avanço das discussões, a nova Classificação Oficial Brasileira do Café ainda não possui uma data definitiva de entrada em vigor.
De acordo com o diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal (Dipov) do Mapa, Hugo Caruso, o Ministério está avaliando a receptividade do setor e os impactos da alteração antes da abertura do processo regulatório formal.
A expectativa anunciada é que a minuta seja submetida à consulta pública ainda em 2026.
Nessa etapa, produtores, cooperativas, classificadores, exportadores, pesquisadores e outras instituições poderão encaminhar contribuições para o aperfeiçoamento da proposta.
Depois, o governo deverá avaliar as manifestações recebidas, definir a redação final e estabelecer as condições de implantação da norma, incluindo eventuais prazos de adaptação.
Até que uma nova regulamentação seja oficialmente publicada e entre em vigor, continuam valendo os critérios atuais da Instrução Normativa nº 8/2003.
Para os produtores, vale acompanhar especialmente a definição dos limites de defeitos, as condições de enquadramento dos diferentes tipos de café e as consequências da mudança sobre os contratos de comercialização.
Uma mudança que poderá ir além da tabela de defeitos
A proposta representa uma tentativa de aproximar a classificação oficial da realidade de uma cafeicultura que se transformou nas últimas décadas.
O Brasil deixou de ser reconhecido apenas pelo grande volume produzido e consolidou uma cadeia diversificada, com cafés comerciais, lotes de qualidade diferenciada, novas tecnologias de processamento e mercados consumidores cada vez mais atentos à origem e às características da bebida.
Nesse contexto, a revisão poderá estabelecer uma forma mais abrangente de descrever a qualidade do café brasileiro.
Entretanto, o sucesso da mudança não dependerá somente da modernização técnica da norma. Será necessário garantir critérios compreensíveis, procedimentos viáveis, segurança nas relações comerciais e condições equilibradas para produtores e compradores.
Se conseguir reunir esses elementos, a nova classificação poderá representar um avanço importante para a competitividade do café nacional. O principal desafio será transformar a atualização regulatória em um instrumento efetivo de transparência e valorização da qualidade, sem criar insegurança nas negociações ou custos desnecessários para quem produz.
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