Brasil perde espaço e Argentina aproveita janela para vender carne mais cara à China

Menor presença brasileira e australiana abre espaço no mercado chinês; cortes argentinos já chegam a US$ 7.700 por tonelada e valorização começa a alcançar o gado

A forte redução dos embarques brasileiros de carne bovina para a China abriu espaço para concorrentes importantes na América do Sul. Argentina e Uruguai passaram a encontrar um mercado com menor oferta, enquanto os preços pagos por determinados cortes argentinos já apresentam valorização.

O movimento ocorre em um momento pouco comum. A Austrália já utilizou sua cota anual para o mercado chinês, enquanto o Brasil reduziu os embarques depois de se aproximar do limite estabelecido pela salvaguarda adotada pela China. Segundo análise da Bolsa de Comércio de Rosário, repercutida pela Reuters, essa combinação pode garantir aos argentinos e uruguaios uma janela de menor concorrência nas próximas semanas.

Carne argentina chega a US$ 7.700 por tonelada

Um dos principais sinais dessa mudança está nos preços.

Cortes argentinos como garrão e dianteiro destinados à China chegaram a US$ 7.700 por tonelada. Há um mês, eram negociados ao redor de US$ 7.200/t e, há um ano, por aproximadamente US$ 5.400/t.

A alta chega, portanto, a cerca de 43% em 12 meses.

A valorização não pode ser explicada apenas pela menor presença brasileira. Oferta argentina, demanda chinesa, câmbio e disponibilidade mundial de carne também interferem nas negociações. Ainda assim, a redução simultânea da participação de Brasil e Austrália diminuiu a concorrência no curto prazo.

Brasil se aproxima do limite chinês

Para 2026, a China estabeleceu uma cota de 1,106 milhão de toneladas para a carne bovina brasileira. A Argentina recebeu 511 mil toneladas e a Austrália, 205 mil toneladas. Acima desses limites, passa a valer uma tarifa adicional de 55%.

O Brasil avançou rapidamente sobre sua cota. Dados divulgados pela Abiec mostram que, entre janeiro e junho, a China comprou 794,7 mil toneladas de carne bovina brasileira, movimentando US$ 4,87 bilhões.

Em agosto, porém, as vendas brasileiras para os chineses caíram aproximadamente 90%, depois da forte concentração dos embarques no primeiro semestre.

Efeito chega ao gado argentino

A melhora das exportações também começa a aparecer dentro da porteira argentina.

Segundo a Bolsa de Rosário, vacas utilizadas pela indústria para produção de carne destinada à exportação passaram a registrar valorização, enquanto outras categorias permanecem relativamente estáveis.

O movimento acontece justamente em um período de menor oferta. Entre janeiro e agosto, cerca de 1,6 milhão de vacas foram abatidas na Argentina, queda de 13% na comparação anual.

A combinação de menor disponibilidade e maior procura da indústria tende a sustentar os preços dessas categorias.

Janela pode durar pouco

Apesar do cenário favorável, a oportunidade para Argentina e Uruguai pode ser curta. A Bolsa de Rosário estima uma janela de aproximadamente 60 dias, antes do retorno mais forte de Brasil e Austrália às negociações.

Para 2027, a cota brasileira será de 1,128 milhão de toneladas. A expectativa é de que frigoríficos brasileiros antecipem negociações ainda em outubro e novembro para que os primeiros carregamentos cheguem à China a partir de janeiro.

Quando isso ocorrer, a concorrência tende a aumentar novamente.

Para o mercado brasileiro, o episódio reforça a importância da regularidade dos embarques. A concentração das vendas no início do ano pode provocar forte demanda pelo chamado boi-China em determinados períodos e uma retração mais intensa posteriormente.

Enquanto o Brasil reduz temporariamente sua presença, Argentina e Uruguai ocupam parte desse espaço — e os preços já começam a refletir essa mudança.

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