Brasil já empata com os EUA na disputa pela liderança agrícola mundial, aponta análise

Avanço das exportações, tecnologia no campo e demanda chinesa aproximam as duas potências; agronegócio brasileiro soma US$ 133,6 bilhões em vendas externas nos nove primeiros meses de 2026.

O Brasil já está em situação de empate com os Estados Unidos na disputa pelo protagonismo agrícola mundial, segundo avaliação de Larissa Wachholz, ex-assessora do Ministério da Agricultura e especialista em relações entre Brasil e China. A análise foi publicada pelo colunista Nelson de Sá, do UOL, em 12 de outubro, a partir de uma projeção do jornal britânico Financial Times sobre a possibilidade de o país ultrapassar os norte-americanos como principal potência agrícola global.

O avanço brasileiro é resultado de décadas de desenvolvimento tecnológico, expansão da produção, ganho de produtividade e fortalecimento das relações comerciais com grandes compradores internacionais. A China, em particular, tornou-se um dos principais fatores dessa transformação, ampliando sua demanda por soja, carnes e outras commodities produzidas no Brasil.

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Os números recentes ajudam a dimensionar essa trajetória. Entre janeiro e setembro de 2026, as exportações do agronegócio brasileiro alcançaram US$ 133,6 bilhões, crescimento de 5,5% na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) divulgados pela imprensa econômica.

Apesar da avaliação de empate na disputa pelo protagonismo agrícola, é importante diferenciar a dimensão produtiva e estratégica do setor de um ranking baseado exclusivamente no valor das exportações. Os dados oficiais referentes a 2025 ainda apontam os Estados Unidos à frente nesse último indicador, embora a distância tenha diminuído.

Exportações brasileiras se aproximam das norte-americanas

A diferença entre os dois países ficou relativamente pequena em 2025. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), as exportações agrícolas norte-americanas atingiram US$ 171,5 bilhões. No Brasil, o Mapa contabilizou US$ 169,2 bilhões em exportações do agronegócio no mesmo ano.

A diferença nominal foi de aproximadamente US$ 2,3 bilhões. Como os órgãos utilizam classificações próprias para definir os produtos incluídos em suas estatísticas, esses valores devem ser interpretados com cautela em uma comparação direta.

Ainda assim, a proximidade dos resultados reforça a dimensão da transformação ocorrida no comércio agrícola internacional. O Brasil ampliou sua participação no abastecimento global, enquanto os Estados Unidos enfrentaram dificuldades em determinados mercados e registraram redução no valor de algumas exportações.

Em 2026, o desempenho brasileiro continua positivo. A média mensal de exportações do agronegócio passou de aproximadamente US$ 14,1 bilhões em 2025 para US$ 15,2 bilhões entre janeiro e setembro deste ano, segundo levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo.

Se o ritmo for mantido, o país terá condições de encerrar 2026 com um novo recorde de vendas externas. O resultado definitivo, entretanto, dependerá do comportamento das commodities, dos embarques nos últimos meses do ano e da demanda dos principais compradores.

China impulsiona a expansão do agronegócio brasileiro

China pretende iniciar plantio de soja e milho no Brasil
Imagem gerada por IA

A relação comercial com a China está entre os fatores que mais contribuíram para a ascensão brasileira. O país asiático consolidou-se como principal parceiro comercial do Brasil e ampliou a participação de produtos nacionais em seu abastecimento de alimentos e matérias-primas.

A soja é um dos exemplos mais evidentes. A demanda chinesa por grãos destinados à produção de ração animal favoreceu a expansão da cultura brasileira, especialmente nas regiões de Cerrado, onde a combinação de tecnologia, mecanização e escala produtiva permitiu ampliar a oferta.

As tensões comerciais entre China e Estados Unidos também influenciaram essa dinâmica. A guerra comercial iniciada em 2018 alterou os fluxos de compra de commodities e incentivou os chineses a diversificar fornecedores. Nesse cenário, o Brasil ganhou espaço como uma alternativa capaz de oferecer grandes volumes de soja e outros produtos agrícolas.

Em 2025, de acordo com o USDA, as exportações agrícolas dos Estados Unidos para a China caíram 66% em relação ao ano anterior, totalizando US$ 8,4 bilhões. O órgão relacionou o recuo às tarifas comerciais e à redução da demanda chinesa por soja norte-americana.

O movimento favoreceu a posição relativa brasileira, mas não significa que os ganhos estejam garantidos. A China também procura diversificar seus fornecedores e reduzir a dependência de determinados produtos, seja por meio do aumento da produtividade interna, seja pela mudança na composição das rações utilizadas na produção animal.

Para o Brasil, o desafio é aproveitar a demanda atual sem depender excessivamente de um único mercado. A ampliação das relações comerciais com outros países e a abertura de novos destinos podem ajudar a diminuir os riscos associados a mudanças na política comercial chinesa.

Tecnologia e pesquisa transformaram a agricultura brasileira

A expansão do agronegócio brasileiro não começou nos últimos anos. Ela é resultado de um processo de modernização que se desenvolveu ao longo de décadas, com participação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de universidades, de empresas privadas e dos próprios produtores rurais.

Um dos avanços mais importantes foi a adaptação de culturas às condições tropicais. A pesquisa permitiu desenvolver variedades mais produtivas e adaptadas ao Cerrado, região que passou a ocupar posição central na produção nacional de grãos.

A correção dos solos, o melhoramento genético, a mecanização e o desenvolvimento de técnicas de manejo ampliaram a capacidade produtiva das propriedades. Além disso, em diversas regiões, o cultivo de soja seguido pelo milho de segunda safra possibilita aproveitar melhor a área disponível durante o ano agrícola.

Esse modelo aumentou a oferta de commodities e fortaleceu a posição brasileira no mercado internacional. A capacidade de produzir em grande escala, combinada a custos competitivos em determinadas cadeias, tornou o país um fornecedor estratégico para mercados que precisam garantir o abastecimento de alimentos e insumos.

A competitividade, porém, não depende apenas do que acontece dentro da propriedade. Armazenagem, transporte, disponibilidade de crédito, custo dos fertilizantes e eficiência dos portos influenciam a rentabilidade e a capacidade de disputar mercados externos.

Por isso, manter o avanço exigirá investimentos contínuos em infraestrutura, pesquisa, inovação e logística, além de condições econômicas que permitam ao produtor planejar seus investimentos e ampliar a produtividade.

Brasil lidera em importantes commodities agrícolas

O protagonismo brasileiro pode ser observado em diferentes cadeias do agronegócio. O país ocupa posições de liderança no comércio internacional de soja, café, açúcar, algodão, carne bovina, carne de frango e suco de laranja.

Na soja, a escala de produção e a demanda chinesa sustentam parte importante das receitas de exportação. Nas carnes, o Brasil atende mercados da Ásia, do Oriente Médio e de outras regiões, enquanto o café mantém forte presença na pauta exportadora e o açúcar se beneficia da capacidade produtiva da cana-de-açúcar.

Os resultados de 2026 reforçam essa diversidade, embora algumas cadeias enfrentem dificuldades específicas. Entre janeiro e setembro, o complexo soja gerou US$ 52,2 bilhões em receitas externas, enquanto as carnes somaram aproximadamente US$ 26 bilhões, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo com base nos dados do comércio exterior.

A concentração das receitas nesses segmentos também revela um desafio: uma parcela significativa das exportações depende de um grupo relativamente pequeno de produtos. Mudanças nos preços internacionais, problemas climáticos ou alterações nas políticas comerciais de grandes compradores podem afetar o desempenho do setor.

Nesse contexto, agregar valor à produção, ampliar a venda de produtos processados e diversificar os destinos comerciais são estratégias importantes para sustentar a competitividade do agronegócio brasileiro.

Estados Unidos enfrentam mudanças no comércio internacional

Embora continuem sendo uma das maiores potências agrícolas do planeta, os Estados Unidos enfrentam um cenário mais desafiador em parte de suas exportações.

As disputas comerciais com a China reduziram o espaço de determinados produtos agrícolas norte-americanos no mercado asiático. Ao mesmo tempo, a valorização relativa do dólar em determinados períodos e a queda dos preços internacionais de algumas commodities pressionaram o valor das vendas externas.

O USDA apontou que o valor das exportações agrícolas dos Estados Unidos recuou em 2025 em comparação com o pico registrado em 2022. Entre os fatores relacionados a essa redução estão os preços mais baixos de commodities, a força do dólar e as mudanças na demanda internacional.

Esse contexto contribuiu para estreitar a diferença em relação ao Brasil. Entretanto, os Estados Unidos continuam contando com uma estrutura agrícola altamente desenvolvida, elevada produtividade em diversas culturas e presença consolidada em mercados importantes, como México, Canadá, União Europeia, Japão e Coreia do Sul.

A disputa pela liderança não depende, portanto, apenas do desempenho de um único ano. Ela envolve capacidade produtiva, diversificação comercial, competitividade, infraestrutura e adaptação às mudanças no consumo mundial.

Novo desafio é sustentar o crescimento

A aproximação entre Brasil e Estados Unidos representa uma mudança relevante no equilíbrio do comércio agrícola internacional. Para o Brasil, a possibilidade de alcançar a liderança reforça a importância econômica do setor e a necessidade de manter investimentos em produtividade, logística e acesso a mercados.

O desempenho das exportações nos primeiros nove meses de 2026 indica que o país segue em trajetória favorável. Ainda assim, o resultado do ano dependerá das condições internacionais, da evolução dos preços das commodities e do comportamento da demanda chinesa e dos demais parceiros comerciais.

A sustentabilidade desse crescimento também exigirá atenção aos impactos climáticos, à conservação dos recursos naturais e às exigências sanitárias e ambientais dos mercados importadores. Esses fatores influenciam cada vez mais as condições de acesso e a competitividade dos produtos brasileiros.

A avaliação de que o Brasil já empata com os Estados Unidos como potência agrícola resume a dimensão alcançada pelo setor, mas a consolidação dessa posição dependerá da capacidade de transformar vantagens produtivas em ganhos duradouros.

Mais do que alcançar o topo de um ranking, o desafio brasileiro será manter a eficiência do campo, ampliar a diversificação das exportações e garantir que a força do comércio exterior se traduza em competitividade e renda para os produtores rurais.

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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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