Encontro previsto para o fim de setembro, nos Estados Unidos, será o primeiro presencial desde a retomada do diálogo comercial; equipes técnicas já trocam documentos, mas governo brasileiro afirma que ainda não há acordo previamente construído.
Brasil e Estados Unidos deram mais um passo na tentativa de destravar as negociações comerciais após a imposição de novas tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros. Representantes dos dois governos devem se reunir presencialmente entre 30 de setembro e 1º de outubro, em Milwaukee, nos Estados Unidos, aproveitando a agenda de ministros de Comércio do G20.
Pelo lado brasileiro, a expectativa é de participação do ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Do lado norte-americano, o principal interlocutor será Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos (USTR).
A informação avança sobre o que já havia sido estabelecido oficialmente no fim de agosto. Em nota conjunta, MDIC e Itamaraty confirmaram que Brasil e Estados Unidos haviam retomado o diálogo comercial e concordado em realizar uma nova reunião ministerial, que poderia ocorrer de forma virtual ou presencial.
Primeiro encontro presencial após retomada do diálogo
A reunião em Milwaukee ganha importância porque será a primeira conversa presencial de alto nível desde a reabertura das negociações. As equipes técnicas dos dois países vêm mantendo contato e trocando documentos para preparar a próxima etapa, embora não exista, até agora, um acordo previamente fechado para ser simplesmente formalizado durante o encontro.
A retomada ocorreu depois de contatos entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Em 31 de agosto, Mauro Vieira e Márcio Elias Rosa conversaram virtualmente com Jamieson Greer. Na ocasião, o governo brasileiro reafirmou que estava disposto a negociar, mas voltou a contestar as medidas adotadas pelos Estados Unidos, classificando-as como incompatíveis com as regras multilaterais de comércio.
Agora, o encontro presencial poderá representar uma etapa mais concreta das tratativas. A flexibilização das tarifas aplicadas às exportações brasileiras deve ocupar posição central na agenda brasileira nos Estados Unidos.
O que está por trás das tarifas dos EUA
O impasse comercial é mais amplo do que uma discussão exclusivamente tarifária. Em julho, o USTR concluiu uma investigação conduzida pela Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e determinou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros.
Segundo o governo norte-americano, a investigação identificou problemas relacionados a comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tratamento tarifário, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro e desmatamento ilegal. O USTR afirma que essas práticas prejudicam ou restringem o comércio dos Estados Unidos.
O Brasil contesta essa interpretação. Antes mesmo da aplicação da medida, o governo brasileiro sustentava que as razões apresentadas pela investigação norte-americana não justificavam as sobretaxas e defendia uma solução negociada.
Há ainda uma segunda frente tarifária. Em julho, os Estados Unidos anunciaram tarifas de 10% ou 12,5% contra 60 parceiros comerciais, dependendo do enquadramento de cada economia, dentro de outra investigação da Seção 301 relacionada à adoção e aplicação de regras contra importações produzidas com trabalho forçado.
Reunião pode definir o ritmo das próximas negociações
A ida dos ministros brasileiros a Milwaukee não significa que a disputa esteja perto do fim. Pelo contrário: o encontro deve funcionar como uma tentativa de aproximar posições e identificar quais pontos efetivamente podem entrar em uma negociação bilateral.
O próprio histórico recente mostra a distância entre os dois lados. Enquanto Washington sustenta que as tarifas são uma resposta a práticas consideradas prejudiciais ao comércio norte-americano, Brasília rejeita as acusações e considera injusto o tratamento dado ao Brasil.
Mesmo assim, existe um elemento importante: os dois governos mantiveram aberto o canal de negociação. Ao anunciar a tarifa de 25% em julho, o próprio USTR declarou que continuava disposto a negociar com o Brasil uma solução para as questões levantadas na investigação.
Para os exportadores brasileiros, portanto, 30 de setembro e 1º de outubro passam a ser datas importantes no calendário comercial. Ainda não há garantia de redução ou retirada das tarifas, mas a passagem das conversas virtuais para uma reunião presencial coloca a disputa em uma nova etapa.
Fontes: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Ministério das Relações Exteriores (MRE) e Office of the United States Trade Representative (USTR). A matéria enviada serviu para identificar a pauta e os elementos que precisavam ser checados; a apuração acima foi reconstruída a partir das fontes governamentais originais, sem utilizar o Canal Rural como fonte editorial.
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