Brasil ainda tem milhões de hectares para expandir soja sem avançar sobre novas áreas

Levantamento da Embrapa identifica 28 milhões de hectares de pastagens degradadas em regiões com boa aptidão agrícola, abrindo espaço para o avanço da produção em terras já incorporadas à agropecuária

O Brasil possui condições para expandir soja sobre áreas já abertas sem depender exclusivamente da abertura de novas fronteiras agrícolas. Um levantamento da Embrapa identificou aproximadamente 28 milhões de hectares de pastagens degradadas localizadas em áreas classificadas com potencial agrícola bom ou muito bom, indicando uma reserva territorial relevante para a intensificação da produção nacional.

O dado não significa que toda essa superfície poderá ou deverá receber soja. A aptidão identificada considera o potencial agrícola das áreas, enquanto a conversão efetiva depende de fatores como condições do solo, clima, infraestrutura, custos de recuperação, logística e viabilidade econômica.

Ainda assim, o levantamento reforça uma mudança importante no debate sobre o crescimento da agricultura brasileira: parte da expansão futura pode ocorrer por meio de um aproveitamento mais eficiente de terras que já foram incorporadas à produção agropecuária.

Pastagens degradadas abrem nova frente para a agricultura

A recuperação de áreas de baixa produtividade aparece como uma das principais alternativas para ampliar a produção sem concentrar o crescimento em novas fronteiras.

Segundo a Embrapa, os 28 milhões de hectares identificados apresentam características favoráveis à produção agrícola. A dimensão equivale a uma parcela expressiva da atual área cultivada com grãos no país e mostra que há margem para reorganizar o uso do território rural.

Nesse processo, áreas hoje destinadas a pastagens pouco produtivas podem passar por recuperação do solo e integração a sistemas agrícolas mais intensivos.

É importante, porém, diferenciar pastagem degradada com aptidão agrícola de área automaticamente disponível para plantio. Questões ambientais, agronômicas, fundiárias e econômicas precisam ser avaliadas individualmente antes de qualquer conversão.

Produção de soja continua crescendo no Brasil

A discussão ganha peso diante do avanço da principal cultura agrícola brasileira.

No 11º levantamento da safra 2025/26, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou uma área de aproximadamente 48,6 milhões de hectares cultivados com soja, crescimento de 2,7% em relação ao ciclo anterior.

A produção foi projetada em 180,46 milhões de toneladas, resultado 5,2% superior ao registrado na temporada precedente.

A diferença entre a expansão territorial e o crescimento da produção também evidencia o papel da produtividade. A média nacional estimada pela Conab chegou a 3.712 quilos por hectare, permitindo que a oferta avançasse em ritmo maior que a área cultivada.

Brasil pode expandir soja sobre áreas já abertas

A conversão de pastagens já utilizadas pela pecuária oferece uma alternativa para expandir soja sobre áreas já abertas, mas não deve ser apresentada como garantia de ausência de desmatamento.

O ponto central é outro: existe no Brasil uma quantidade significativa de terras antropizadas que pode absorver parte do crescimento agrícola.

Essa distinção é relevante porque a transformação de uma pastagem em lavoura continua sendo uma mudança no uso da terra, porém ocorre em uma superfície anteriormente destinada à agropecuária, e não necessariamente sobre vegetação nativa.

O próprio histórico recente mostra que esse movimento já acontece. Dados do MapBiomas indicam que milhões de hectares anteriormente ocupados por pastagens passaram a receber atividades agrícolas nas últimas décadas, especialmente em regiões do Cerrado e da Mata Atlântica.

Soja multiplicou sua presença no território brasileiro

A expansão da oleaginosa nas últimas quatro décadas foi uma das maiores transformações da agricultura nacional.

Segundo o MapBiomas, a área ocupada pela soja passou de cerca de 4,5 milhões de hectares em 1985 para 44,2 milhões em 2025.

A diferença em relação às estimativas atuais da Conab ocorre porque as instituições utilizam metodologias distintas. Enquanto o MapBiomas analisa o uso e a cobertura da terra por meio de imagens de satélite, a Conab acompanha a área plantada em cada safra.

Apesar das diferenças metodológicas, os levantamentos mostram uma tendência clara: a soja consolidou-se como a principal cultura temporária do país e continua avançando territorialmente.

Recuperação das pastagens entra na estratégia nacional

O aproveitamento de áreas degradadas também passou a integrar as políticas públicas voltadas ao desenvolvimento agropecuário.

O governo federal estabeleceu, por meio do Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas em Sistemas de Produção Agropecuários e Florestais Sustentáveis, uma meta de recuperar e converter até 40 milhões de hectares de pastagens de baixa produtividade em dez anos.

Esse número não deve ser confundido com os 28 milhões de hectares calculados pela Embrapa.

O programa governamental possui uma abrangência maior e contempla diferentes sistemas produtivos, enquanto o estudo da estatal de pesquisa selecionou áreas degradadas que apresentam condições consideradas boas ou muito boas para agricultura.

A combinação entre recuperação do solo, intensificação da pecuária e conversão de áreas adequadas para lavouras pode liberar espaço produtivo sem que o crescimento dependa apenas da incorporação de novas terras.

Expansão agrícola ainda exige cuidados ambientais

A existência de terras já abertas não elimina os desafios relacionados à conservação.

Dados do MapBiomas mostram que o Brasil perdeu grandes extensões de vegetação nativa ao longo das últimas quatro décadas, sobretudo na Amazônia e no Cerrado.

Ao mesmo tempo, o país mantém uma área de pastagens muito superior à ocupada pelas lavouras. Em 2025, aproximadamente 165,6 milhões de hectares eram destinados às pastagens, segundo o levantamento da plataforma.

Esse contraste ajuda a dimensionar a oportunidade existente. Melhorias na produtividade pecuária podem reduzir a quantidade de terra necessária para manter o mesmo rebanho, enquanto uma parcela das áreas liberadas ou atualmente degradadas pode assumir outras funções produtivas.

O próximo salto da soja pode vir de dentro da área agropecuária

O avanço da soja brasileira nos próximos anos dependerá de mais do que disponibilidade de terra.

Preços internacionais, custos dos insumos, crédito rural, logística, infraestrutura de armazenagem e retorno econômico continuarão determinando onde e quando novas lavouras serão implantadas.

Do ponto de vista territorial, porém, o Brasil possui uma vantagem importante: uma extensa área já ocupada pela agropecuária que pode ser utilizada de maneira mais eficiente.

Por isso, o potencial das pastagens degradadas não deve ser interpretado como uma licença automática para aumentar a área cultivada, mas como uma oportunidade de combinar recuperação de terras, produtividade e expansão agrícola.

Se esse movimento avançar de forma planejada, expandir soja sobre áreas já abertas poderá representar uma das principais rotas para o crescimento da produção brasileira nas próximas décadas.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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