Pressão dos frigoríficos, cota chinesa praticamente esgotada e oferta de animais derrubam os preços no mercado físico. Apesar disso, Safras & Mercado, Scot Consultoria e Agrifatto veem fundamentos que podem impulsionar uma recuperação consistente da arroba no último trimestre.
O mercado do boi gordo segue atravessando um momento de pressão sobre os preços, refletindo um cenário de negociações lentas, frigoríficos cautelosos e menor ritmo das exportações para a China após o praticamente completo esgotamento da cota de 1,1 milhão de toneladas de carne bovina destinada ao mercado chinês em 2026.
Apesar da queda registrada nas principais praças pecuárias do país ao longo desta semana, a avaliação das principais consultorias é de que o movimento tem caráter conjuntural. Os fundamentos para o segundo semestre permanecem positivos, especialmente para o último trimestre, quando a combinação entre menor oferta de animais terminados, retomada da demanda internacional e aquecimento do consumo doméstico tende a favorecer uma recuperação da arroba.
Mercado segue travado
Segundo o analista Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, os pecuaristas continuam resistindo em negociar nas atuais condições de preço, enquanto os frigoríficos mantêm pressão baixista mesmo operando com escalas relativamente curtas.
O problema, porém, é que boa parte dos produtores enfrenta limitações para segurar os animais, principalmente devido à qualidade das pastagens nesta época do ano e à necessidade de giro dos confinamentos. Isso acaba aumentando a oferta disponível e reduzindo o poder de barganha do vendedor.
Outro fator que pesa sobre o mercado é o virtual esgotamento da cota chinesa de importação de carne bovina brasileira, o que reduziu o ritmo das compras destinadas ao principal cliente externo do Brasil.
Com isso, diversas indústrias passaram a operar com maior capacidade ociosa enquanto ajustam suas programações de abate.
Agrifatto aponta disputa intensa entre pecuaristas e frigoríficos
A Agrifatto também observa um ambiente de forte disputa entre vendedores e compradores.
De acordo com a consultoria, os frigoríficos continuam pressionados por um consumo doméstico mais fraco e pela desaceleração dos embarques para a China após o limite da cota brasileira.
Mesmo assim, os produtores seguem evitando grandes volumes de venda e, em muitos casos, fracionam os lotes para minimizar perdas diante das ofertas mais baixas das indústrias.
A consultoria destaca ainda que, embora tenham ocorrido negociações pontuais acima da referência em algumas regiões, o volume foi insuficiente para alterar o atual patamar de preços.
Cotações da arroba seguem pressionadas
Na sexta-feira (10), o Indicador Datagro mostrou estabilidade com viés de baixa nas principais regiões pecuárias do país.
Entre os preços observados estavam:
- São Paulo: R$ 326,30/@
- Mato Grosso do Sul: R$ 332,42/@
- Pará: R$ 319,10/@
- Mato Grosso: R$ 316,67/@
- Goiás: R$ 313,71/@
- Minas Gerais: R$ 312,28/@
- Rondônia: R$ 312,36/@
- Tocantins: R$ 313,63/@
- Bahia: R$ 308,92/@
Já no levantamento semanal da Safras & Mercado, São Paulo encerrou a semana com referência de R$ 330/@, enquanto Goiás ficou em R$ 315/@, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul em R$ 320/@ e Minas Gerais em R$ 310/@.
Mercado futuro indica confiança na recuperação
Embora o físico permaneça pressionado, o comportamento da B3 mostra um cenário diferente.
Segundo a Agrifatto, os contratos futuros seguem negociando com ágio em relação ao mercado disponível, indicando que investidores e agentes do setor continuam apostando em valorização da arroba no segundo semestre.
O contrato para agosto, por exemplo, avançou para R$ 338,90/@, refletindo essa expectativa positiva.
Por que as consultorias esperam alta no fim do ano?
Para Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, e Felipe Fabbri, coordenador de Inteligência de Mercado da Scot Consultoria, diversos fatores devem mudar o cenário a partir dos próximos meses.
Entre eles estão:
- retomada das compras chinesas visando a cota de exportação de 2027;
- forte demanda dos Estados Unidos;
- menor participação de fêmeas nos abates;
- retenção de matrizes durante a estação de monta;
- geração de empregos temporários no fim do ano;
- maior circulação de renda no mercado interno;
- aumento sazonal do consumo de carne bovina nas festas de fim de ano.
Na avaliação de Felipe Fabbri, a arroba poderá inclusive superar a máxima registrada neste ano, de R$ 360/@ na praça paulista, caso esse conjunto de fatores se confirme.
Exportações continuam sustentando o setor
Mesmo com a desaceleração provocada pela limitação da cota chinesa, os embarques brasileiros seguem em ritmo elevado.
Nos três primeiros dias úteis de julho, o Brasil exportou 45,17 mil toneladas de carne bovina, com receita de US$ 288,3 milhões.
Na comparação com julho do ano passado, houve:
- 43,9% de aumento na receita média diária;
- 25,1% de crescimento no volume embarcado por dia;
- 15% de alta no preço médio da tonelada exportada.
Perspectiva
O mercado do boi gordo vive um momento de ajuste, pressionado pela menor demanda chinesa de curto prazo e pela necessidade de escoamento dos animais confinados. No entanto, a leitura predominante entre as consultorias é de que esse movimento não altera os fundamentos estruturais do setor.
Se a oferta continuar mais restrita no segundo semestre e a demanda internacional voltar a ganhar força, especialmente com a abertura da nova cota chinesa em 2027, o mercado poderá voltar a registrar valorização consistente da arroba nos últimos meses deste ano, favorecendo produtores que conseguirem alongar a comercialização de seus animais.
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