Frigoríficos tentam reduzir preços diante do consumo doméstico mais fraco e de escalas relativamente confortáveis; pecuaristas resistem às ofertas e consultorias avaliam que ainda não há boiada suficiente para sustentar uma queda generalizada da arroba
O mercado do boi gordo começou a semana pressionado em São Paulo, principal referência da pecuária nacional, mas o movimento ainda está longe de configurar uma tendência generalizada de baixa. Enquanto frigoríficos aproveitam o consumo doméstico enfraquecido e escalas mais confortáveis para testar preços menores, a oferta relativamente restrita de animais terminados e a resistência dos pecuaristas continuam funcionando como importantes pontos de sustentação para a arroba.
Na segunda-feira (24), segundo levantamento da Scot Consultoria, o boi gordo comum recuou R$ 2 por arroba em São Paulo, passando para R$ 345/@, enquanto o chamado “boi-China” caiu para R$ 348/@, ambos em valores brutos e a prazo. A pressão também atingiu as fêmeas: a vaca terminou cotada em R$ 322/@ e a novilha em R$ 335/@.
Apesar da queda paulista, o comportamento observado nas demais regiões mostra um mercado mais equilibrado do que os números isolados poderiam sugerir.
Frigoríficos pressionam, mas pecuarista resiste
De acordo com a Agrifatto, as cotações permaneceram estáveis na maioria das praças brasileiras neste começo de semana. Nas últimas rodadas de negociação, frigoríficos tentaram adquirir boiadas abaixo das referências correntes, porém encontraram forte resistência dos produtores, dificultando a consolidação de negócios nos preços propostos pela indústria.
Essa queda de braço ajuda a explicar por que a pressão observada em São Paulo ainda não se espalhou de maneira uniforme pelo país. Na avaliação da consultoria, mesmo após as baixas registradas em algumas regiões, a disponibilidade de animais terminados não é suficiente, por enquanto, para sustentar um movimento generalizado de queda da arroba.
Do lado comprador, porém, existe espaço para cautela. Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado, aponta que os frigoríficos de maior porte trabalham atualmente com escalas de abate entre seis e oito dias úteis, em média, condição que reduz a necessidade de disputar agressivamente os lotes disponíveis.
Consumo fraco pesa sobre a carne bovina
Um dos principais obstáculos para uma reação imediata da arroba está depois da porteira. O mercado atacadista de carne bovina permanece fragilizado, justamente em um período de menor estímulo ao consumo doméstico.
Segundo a Safras & Mercado, o quarto traseiro está cotado a R$ 26/kg, o quarto dianteiro a R$ 20/kg e a ponta de agulha a R$ 19/kg. Além da demanda enfraquecida, a carne bovina enfrenta elevada competitividade das proteínas concorrentes, principalmente diante da disponibilidade de carne suína, frango e ovos.
No mercado externo também há um fator relevante. Iglesias aponta que o ritmo diário das exportações caiu para 9,4 mil toneladas, movimento associado, segundo a análise da Safras, à ausência temporária da China após o esgotamento precoce da cota chinesa. O setor também acompanha as discussões envolvendo uma possível cota norte-americana de 300 mil toneladas e suas regras de elegibilidade.
Referências seguem acima de R$ 330/@ em importantes praças
O levantamento da Safras & Mercado mostra diferenças importantes entre as principais regiões produtoras. A média indicada para São Paulo ficou em R$ 341,92/@, enquanto Goiás registrou R$ 334,29/@, Minas Gerais R$ 334,88/@, Mato Grosso do Sul R$ 336,27/@ e Mato Grosso R$ 327,23/@.
Os números ajudam a mostrar um mercado que atravessa uma fase de acomodação, mas sem uma deterioração uniforme das referências.
Na terceira semana de agosto, por exemplo, o Indicador Datagro recuou 0,76%, encerrando a sexta-feira (21) em R$ 343,70/@. Segundo a Agrifatto, o movimento ocorreu em meio a ajustes operacionais das indústrias e férias coletivas, que reduziram o ritmo dos abates, enquanto a oferta restrita de animais terminados continuou oferecendo suporte às cotações.
Setembro pode mudar novamente o equilíbrio da arroba
É justamente a oferta de boiada que deve definir os próximos movimentos.
A Agrifatto avalia que, caso a disponibilidade de animais permaneça enxuta, a dificuldade dos frigoríficos para alongar as escalas poderá ganhar importância na formação dos preços e abrir espaço para uma retomada das cotações em setembro.
Para o pecuarista, portanto, o momento exige atenção para além da cotação diária. A indústria dispõe hoje de condições para testar valores menores, especialmente diante do atacado enfraquecido, mas encontra resistência do lado vendedor. Se a oferta de boi terminado não aumentar nas próximas semanas, essa disputa poderá mudar novamente de direção.
Por enquanto, o boi gordo inicia a semana sob pressão, mas a oferta enxuta impede que a queda paulista seja interpretada automaticamente como uma nova tendência nacional de baixa. Setembro tende a ser o próximo teste importante dessa disputa entre frigoríficos e pecuaristas.
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