Indústrias trabalham com compras para poucos dias e testam preços menores nas principais praças; escalas próximas de sete abates e retenção dos pecuaristas, porém, dificultam uma queda mais forte do boi gordo
O mercado do boi gordo chega à reta final de agosto sob pressão, com frigoríficos adotando uma estratégia de compras mais curtas e tentando aproveitar o enfraquecimento da demanda para reduzir o preço pago pela arroba. Apesar do viés baixista observado em algumas regiões, a disponibilidade limitada de animais terminados continua funcionando como uma barreira para uma queda mais generalizada das cotações.
Em São Paulo, referência para a pecuária nacional, as escalas de abate permanecem relativamente curtas. Segundo levantamento da Scot Consultoria, os frigoríficos estão adquirindo praticamente apenas o necessário para atender às necessidades imediatas, com programações que giram, em média, em torno de sete dias.
Esse comportamento coloca pecuaristas e indústrias em uma disputa importante para definir o rumo da arroba nas próximas semanas: os frigoríficos tentam comprar mais barato, enquanto a oferta enxuta dificulta o alongamento das escalas.
Boi gordo recua em São Paulo
Na quarta-feira, 26 de agosto, dados da Scot Consultoria apontaram recuo de R$ 1/@ para o boi gordo comum, R$ 2/@ para o boi-China e R$ 3/@ para a novilha terminada no interior paulista.
Com isso, as referências brutas ficaram em:
- Boi gordo: R$ 342/@;
- Boi-China: R$ 344/@;
- Novilha terminada: R$ 332/@.
Já a Agrifatto apontou a arroba paulista em R$ 345, tanto para o animal comum quanto para o padrão exportação, enquanto a média das outras 16 praças acompanhadas pela consultoria ficou em R$ 341/@.
As diferenças entre os levantamentos refletem metodologias e referências comerciais distintas, mas o sinal predominante é semelhante: o mercado perdeu força no curto prazo, embora ainda encontre resistência por parte dos vendedores.
Frigoríficos tentam comprar abaixo das referências
A pressão não está restrita a São Paulo. Segundo a Agrifatto, seis das 17 praças monitoradas haviam registrado desvalorização na terça-feira (25): São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Paraná e Santa Catarina.
O movimento está relacionado principalmente ao escoamento mais fraco da carne bovina no mercado doméstico e à desaceleração das exportações, cenário que abriu espaço para as indústrias testarem preços menores. As propostas mais baixas, entretanto, encontram resistência.
A oferta limitada de animais terminados e a administração das vendas pelos pecuaristas mantêm as escalas próximas de sete abates na média nacional, segundo a consultoria.
É justamente esse ponto que pode limitar uma sequência mais intensa de quedas. A avaliação da Agrifatto é que, caso a disponibilidade de boiadas continue enxuta, a dificuldade para alongar as escalas poderá restringir novos recuos e aumentar a sustentação das cotações na entrada de setembro.
Atacado também aumenta pressão sobre a arroba
Do lado da carne, o cenário ainda não oferece grande sustentação.
Segundo Safras & Mercado, o atacado apresenta preços enfraquecidos e possibilidade de novas quedas no curtíssimo prazo. O analista Fernando Henrique Iglesias destaca que a demanda permanece fragilizada, enquanto proteínas concorrentes — especialmente suínos, frango e ovos — seguem bastante competitivas.
As referências apresentadas pela consultoria ficaram em R$ 26/kg para o quarto traseiro, R$ 20/kg para o quarto dianteiro e R$ 18,80/kg para a ponta de agulha.
Esse desempenho é relevante porque um atacado sem força reduz a disposição dos frigoríficos para elevar ofertas pela matéria-prima.
China adiciona incerteza ao mercado
Outro componente importante é o mercado externo. As especulações envolvendo a China continuam influenciando as negociações, embora Safras & Mercado considere pouco provável, neste momento, uma retomada das compras brasileiras por meio de rotas comerciais mais longas.
A Agrifatto aponta ainda que o mercado exportador já trabalha com a hipótese de esgotamento da cota chinesa de 2026, apesar de não haver, segundo o material consultado, confirmação oficial do governo de Pequim. Isso contribuiu para reduzir o ritmo dos embarques e aumentar a cautela das indústrias.
Ao mesmo tempo, começa a entrar no radar uma possível antecipação das compras destinadas ao abastecimento chinês de 2027, movimento que, caso se confirme, poderia voltar a aumentar a procura por bovinos habilitados para exportação.
Até onde o boi gordo pode cair?
O ponto central para o pecuarista agora é observar até onde os frigoríficos conseguirão manter a estratégia de compras curtas sem precisar elevar novamente as ofertas.
Por enquanto, existem forças opostas. De um lado, demanda doméstica enfraquecida, exportações menos aquecidas e frigoríficos testando valores menores. Do outro, oferta restrita de animais terminados, escalas curtas e produtores administrando as vendas.
O mercado futuro também sugere que a pressão atual pode não representar necessariamente uma tendência prolongada. Os contratos permanecem negociados acima das referências do físico, indicando expectativa de maior sustentação da arroba durante a entressafra.
Assim, o fim de agosto deve continuar marcado pela disputa entre frigoríficos e pecuaristas. Se as escalas não avançarem e a oferta continuar controlada, o espaço para novas quedas tende a ficar limitado. Se o consumo e as exportações perderem ainda mais força, porém, a indústria poderá manter a pressão sobre as cotações.
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