Exportações recordes, oferta controlada de animais e expectativa de maior consumo interno sustentam os preços; porém, avanço da cota chinesa pode limitar novas altas da arroba do boi gordo nas próximas semanas
O mercado do boi gordo começou a semana mantendo o viés positivo observado desde o fim de maio. Em diversas regiões produtoras, a arroba segue sustentada por uma combinação de oferta mais ajustada, forte ritmo das exportações e expectativa de aquecimento do consumo doméstico durante a primeira quinzena de junho.
No entanto, embora o cenário ainda seja favorável para o pecuarista, surgem novos fatores que exigem atenção. O principal deles está relacionado à China, maior compradora da carne bovina brasileira, que se aproxima rapidamente do limite de sua cota anual de importação. O movimento já começa a provocar discussões dentro da indústria frigorífica e pode influenciar o comportamento dos preços nas próximas semanas.
Oferta restrita continua sustentando a arroba
A firmeza do mercado está diretamente ligada à menor disponibilidade de animais terminados em importantes regiões produtoras do país.
Segundo avaliação da Scot Consultoria, a combinação entre demanda consistente e maior cautela dos pecuaristas na comercialização contribuiu para manter os preços firmes nos últimos dias.
De acordo com o zootecnista Felipe Fabbri, analista da Scot Consultoria, o mercado entrou em junho com fundamentos mais favoráveis.
“A demanda mais consistente entre a virada do mês e o começo de junho, com um pecuarista mais relutante na venda, colaborou para preços firmes do boi gordo registrados na última semana”, destacou Fabbri.
No interior paulista, referência nacional para a pecuária de corte, o boi gordo comum segue cotado em R$ 349/@, enquanto o chamado “boi-China” alcança R$ 355/@, segundo levantamento da Scot Consultoria.
Exportações seguem como principal motor do mercado do boi gordo
O desempenho das exportações continua sendo um dos principais fatores de sustentação da arroba em 2026.
Dados destacados pela Scot Consultoria mostram que o Brasil embarcou cerca de 261,9 mil toneladas de carne bovina in natura em maio, estabelecendo um novo recorde para o período. A China permaneceu como principal destino da proteína brasileira, seguida pelos Estados Unidos.
As compras chinesas somaram aproximadamente 153,8 mil toneladas, volume quase seis vezes superior ao adquirido pelos norte-americanos, que importaram cerca de 25,6 mil toneladas.
Esse desempenho reforça a importância do mercado externo para a formação dos preços pagos ao produtor brasileiro.
China acende sinal de atenção para frigoríficos
Apesar dos números expressivos, o mercado acompanha de perto o avanço da utilização da cota chinesa destinada à carne bovina brasileira.
O analista Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, alerta que algumas indústrias já começam a revisar suas estratégias de compra para exportação.
“Nos próximos dias, tende a sair o alerta por parte do governo chinês de que 80% da cota brasileira foi preenchida, o que pode levar outras indústrias a adotarem a mesma postura”, afirmou Iglesias.
A preocupação está relacionada à cota de 1,1 milhão de toneladas destinada ao Brasil. Caso o limite seja atingido, os embarques passam a sofrer incidência de tarifa adicional, reduzindo significativamente a competitividade da proteína brasileira naquele mercado.
Segundo a Agrifatto, a expectativa é que esse volume seja preenchido ainda em junho, cenário que pode levar algumas plantas exportadoras a rever programas de bonificação pagos aos animais destinados ao mercado chinês.
Copa do Mundo pode impulsionar o consumo doméstico
Enquanto o mercado externo gera atenção, a demanda interna surge como um fator de suporte importante para os preços.
De acordo com Felipe Fabbri, o recebimento dos salários e os encontros familiares e confraternizações relacionados aos jogos da Copa do Mundo devem estimular as vendas de cortes tradicionais para churrasco.
“Há uma expectativa de aumento da demanda doméstica pela carne bovina, refletindo o recebimento dos salários neste começo de mês e os encontros comemorativos durante os jogos da Copa do Mundo”, observou o analista da Scot Consultoria.
Esse comportamento já começa a ser percebido no atacado.
Segundo a Safras & Mercado, a reposição entre atacado e varejo tem ocorrido de forma satisfatória durante a primeira quinzena do mês, contribuindo para manter os preços firmes da carne bovina.
União Europeia e questão sanitária nos EUA também entram no radar
Além da China, o setor acompanha outros acontecimentos internacionais que podem influenciar o mercado.
Fernando Henrique Iglesias destaca que os frigoríficos observam atentamente os desdobramentos da decisão da União Europeia de restringir importações de determinados produtos de origem animal do Brasil, bem como a evolução dos casos da mosca-da-bicheira (Cochliomyia hominivorax) nos Estados Unidos.
Embora ainda não tenham provocado impactos diretos sobre os preços da arroba, esses fatores permanecem no radar dos exportadores e podem influenciar os fluxos globais de comércio de proteína animal ao longo do segundo semestre.
Cotações da arroba nas principais praças
Levantamento da Safras & Mercado aponta as seguintes médias para a arroba do boi gordo: Estado Preço da Arroba Mato Grosso R$ 359,26 São Paulo R$ 358,50 Mato Grosso do Sul R$ 354,89 Goiás R$ 336,96 Minas Gerais R$ 335,29
Mercado segue favorável, mas exige atenção
A pecuária brasileira entra em junho sustentada por fundamentos que continuam positivos. A oferta de animais terminados permanece relativamente controlada, as exportações seguem em ritmo recorde e o consumo doméstico tende a ganhar impulso com a Copa do Mundo.
Por outro lado, a proximidade do preenchimento da cota chinesa representa um novo desafio para a cadeia da carne bovina. Caso as compras da China desacelerem ou as bonificações diminuam, o mercado poderá encontrar mais resistência para continuar avançando.
Na avaliação conjunta de Safras & Mercado, Scot Consultoria e Agrifatto, o cenário ainda favorece a sustentação da arroba em patamares historicamente rentáveis para o produtor. Porém, os próximos movimentos da China deverão ser determinantes para definir se o mercado seguirá testando novas máximas ou entrará em uma fase de acomodação durante a segunda metade de junho.
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