A vocação agrícola brasileira, a extensão territorial e, principalmente, o avanço da produção de etanol de milho colocam o país em posição favorável para atender a esse novo mercado.
O transporte marítimo pode se transformar em uma nova e relevante fronteira para o etanol brasileiro. A avaliação é de Martinho Seiiti Ono, CEO da SCA Brasil, que vê no processo de descarbonização da navegação uma oportunidade para o país ampliar os mercados consumidores do biocombustível.
Segundo Ono, a vocação agrícola brasileira, a extensão territorial e, principalmente, o avanço da produção de etanol de milho colocam o país em posição favorável para atender a esse novo mercado. A diversificação das fontes de consumo também ganha importância diante das transformações no setor automotivo, com o avanço dos veículos híbridos e elétricos.
“O Brasil está diante de uma nova fronteira para o etanol com o uso do biocombustível na navegação e seu potencial para reduzir a pegada de carbono do setor marítimo. Temos enorme capacidade de produção, especialmente com o crescimento do etanol de milho”, afirma Ono.
Na avaliação do CEO da SCA Brasil, o uso do biocombustível no transporte marítimo pode evoluir em ritmo mais acelerado do que outros mercados emergentes, como o de combustível sustentável de aviação (SAF).
“O biobunker parece ser um mercado bastante promissor e pode avançar mais rapidamente até mesmo do que o SAF. Na aviação, existem diferentes feedstocks para a produção do combustível sustentável e uma trajetória gradual de aumento da mistura. Na navegação, já existem testes com diferentes proporções de etanol, chegando inclusive ao E100, com resultados positivos”, explica.
Para Ono, a possibilidade de utilização de diferentes percentuais de etanol nas embarcações amplia as perspectivas para o produto brasileiro.
“Os testes têm mostrado boa aceitação das misturas, o que abre uma oportunidade muito grande para o etanol brasileiro”, acrescenta.
A perspectiva ganha relevância com o desenvolvimento de uma nova geração de embarcações preparadas para operar com combustíveis alternativos. Parte desses navios deverá entrar em operação até 2030, abrindo espaço para que grandes produtores de biocombustíveis se posicionem como fornecedores.
Para aproveitar esse mercado emergente, Ono considera necessário que o Brasil comece a preparar sua estrutura produtiva e logística.
“Precisamos olhar para esses novos navios que estão sendo fabricados para utilizar biocombustíveis e que estarão no mercado até 2030. O Brasil precisa preparar sua capacidade produtiva e de infraestrutura, e os portos também terão que estar estruturados para abastecer essas embarcações. É um cenário desafiador”, afirma.
A estimativa mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aponta que o Brasil deve produzir 41,88 bilhões de litros de etanol na safra 2026/27. O transporte marítimo mundial, por sua vez, consome aproximadamente entre 250 e 298 bilhões de litros de combustíveis por ano.
Segundo o executivo, a dimensão desse novo mercado chama a atenção quando comparada à atual produção brasileira de etanol.
“Imagine se o mercado de combustíveis marítimos adotasse uma participação de apenas 10% de etanol na mistura. O consumo poderia chegar a aproximadamente 30 bilhões de litros ou mais. Isso dá a dimensão da oportunidade de negócios que temos pela frente”, destaca.
Para transformar esse potencial em consumo efetivo, o CEO da SCA Brasil considera fundamental estabelecer regras claras e garantir previsibilidade aos investimentos.
Ono participou de uma reunião sobre o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Navegação, que discutiu a estruturação desse novo mercado.
“Recentemente participei de uma discussão em que o governo federal, por meio de diferentes ministérios e órgãos, começou a trabalhar na regulamentação desse mercado. Ficou claro, que é importante estabelecer um cronograma, com metas e previsibilidade para os investimentos, tanto na produção de etanol quanto na infraestrutura necessária”, afirma.
Segundo Ono, empresas do transporte marítimo e grandes embarcadores já avaliam a utilização de biocombustíveis em suas operações.
“A Vale e a Maersk vêm realizando testes e adaptações em embarcações para o uso de biocombustíveis, com resultados positivos. É um movimento que mostra que essa discussão começa a sair do campo das possibilidades e avançar para uma aplicação concreta”, conclui.
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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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