Estudo com mais de 3 mil vacas Holandesas reforça que o estresse térmico durante a gestação pode deixar efeitos duradouros sobre produção de leite e reprodução das futuras matrizes.
O impacto do calor sobre uma vaca leiteira pode não terminar quando a temperatura cai. Uma nova pesquisa reforça uma preocupação que vem ganhando espaço na ciência da produção animal: uma bezerra submetida ao estresse térmico ainda dentro do útero pode carregar consequências produtivas até a vida adulta, quando chegar à primeira lactação.
Publicado em 2026 na revista científica Theriogenology, o trabalho acompanhou informações de 3.182 vacas Holandesas nascidas entre 2016 e 2022 e encontrou associação entre a exposição ao calor durante a gestação e indicadores que só apareceriam muitos meses — ou anos — depois. O resultado amplia uma mudança importante na forma de enxergar o conforto térmico nas fazendas: proteger do calor apenas a vaca que está produzindo leite pode ser insuficiente.
A pesquisa mostrou ainda que o momento da gestação em que ocorre o estresse térmico importa. Enquanto a exposição no primeiro trimestre esteve relacionada à produção futura de leite, gordura e proteína, o calor no segundo e terceiro trimestres apresentou associação com atraso na idade à primeira inseminação e ao primeiro parto.
O calor que atinge a mãe pode acompanhar a filha por anos
Para avaliar a exposição ao estresse térmico, os pesquisadores utilizaram o Índice de Temperatura e Umidade, conhecido como ITU ou THI, combinação que permite avaliar o efeito conjunto da temperatura e da umidade sobre os animais.
No estudo, foram considerados dias em que o THI atingiu ou ultrapassou 68 durante diferentes fases do desenvolvimento: primeiro, segundo e terceiro trimestres da gestação e os três primeiros meses depois do nascimento.
O resultado mais expressivo apareceu no início da vida fetal.
Cada dia adicional de exposição a THI igual ou superior a 68 durante o primeiro trimestre esteve associado a uma redução de aproximadamente 6,65 kg na produção acumulada de leite aos 305 dias da primeira lactação. Também foram observadas reduções na produção acumulada de proteína e gordura.
É importante interpretar esse número corretamente. O estudo não diz que a futura vaca perde 6,65 kg de leite por dia quando adulta. A associação encontrada foi de 6,65 kg a menos no total da lactação de 305 dias para cada dia adicional de exposição ao limite de calor utilizado pelos pesquisadores.
Também se trata de um estudo de associação, portanto não significa que temperatura seja o único fator determinando a produtividade futura. Genética, nutrição, sanidade, ambiente, manejo e outros componentes continuam tendo grande peso sobre o desempenho das vacas.
Ainda assim, o resultado reforça uma hipótese que vem se tornando cada vez mais consistente: o ambiente uterino também faz parte da construção da futura matriz leiteira.
Cada fase da gestação parece deixar uma marca diferente
Outro ponto relevante é que os pesquisadores não encontraram exatamente a mesma resposta durante toda a gestação.
A exposição térmica no segundo e terceiro trimestres não apresentou associação significativa com a quantidade de leite produzida na primeira lactação naquele conjunto de dados, mas esteve relacionada ao desenvolvimento reprodutivo.
No segundo trimestre, cada dia adicional com THI igual ou superior a 68 foi associado a um acréscimo próximo de 0,20 dia na idade à primeira inseminação e 0,19 dia na idade ao primeiro parto.
No terceiro trimestre, os aumentos ficaram ao redor de 0,12 a 0,13 dia para esses indicadores.
Isoladamente, frações de um dia parecem pequenas. O problema surge quando a exposição se prolonga por semanas durante períodos quentes, situação possível em regiões de clima tropical e subtropical.
Para sistemas que trabalham para reduzir a idade ao primeiro parto e acelerar a entrada das novilhas na produção, qualquer fator ambiental que empurre esse calendário na direção oposta merece atenção.
Não é o primeiro sinal encontrado pela ciência
O estudo de 2026 acrescenta novas peças a uma linha de pesquisa desenvolvida há anos.
Trabalhos da Universidade da Flórida já haviam demonstrado que o estresse térmico sofrido durante a vida intrauterina pode comprometer o crescimento e o desenvolvimento da glândula mamária. Pesquisadores observaram que novilhas provenientes de vacas submetidas ao calor no final da gestação apresentaram desempenho leiteiro inferior posteriormente.
Uma análise de dados de longo prazo mostrou efeitos chegando à primeira, segunda e terceira lactações. Na primeira, filhas de vacas submetidas ao estresse térmico no final da gestação produziram, em média, cerca de 4,9 libras de leite por dia a menos, aproximadamente 2,2 kg/dia, durante as primeiras 35 semanas avaliadas.
Estudos anteriores também encontraram impacto ao redor do período da concepção. Em uma dessas análises, animais concebidos sob condições de estresse térmico apresentaram diferenças de produção que chegaram a aproximadamente 399 kg de leite por lactação, dependendo da comparação realizada.
As pesquisas não são idênticas e avaliaram animais, momentos gestacionais e condições ambientais diferentes. Por isso, seus números não devem ser simplesmente somados. O que chama a atenção é a direção dos resultados: diferentes trabalhos vêm encontrando sinais de que o calor antes do nascimento pode influenciar a produtividade da futura vaca.
Glândula mamária ajuda a explicar o efeito tardio
Uma das perguntas mais importantes é por que um episódio ocorrido antes do nascimento conseguiria aparecer anos mais tarde no tanque de leite.
Parte da resposta pode estar na chamada programação fetal.
Durante a gestação, órgãos e tecidos do feto passam por fases críticas de formação e diferenciação. Alterações no ambiente materno — incluindo temperatura elevada — podem mudar processos metabólicos, hormonais, imunológicos e celulares envolvidos nesse desenvolvimento.
Um estudo publicado no Journal of Dairy Science em 2025 avançou justamente nessa direção. Os pesquisadores verificaram que o estresse térmico intrauterino no final da gestação comprometeu o crescimento corporal e o desenvolvimento da glândula mamária de novilhas entre o pós-desmame e a puberdade.
Esse ponto é estratégico porque a capacidade produtiva de uma vaca não começa a ser construída no parto. A estrutura mamária que sustentará as futuras lactações começa a se desenvolver muito antes.
Revisões científicas também apontam alterações relacionadas ao sistema imunológico, crescimento, metabolismo e desenvolvimento de órgãos entre os efeitos associados ao estresse térmico fetal.
O erro pode estar em resfriar somente quem está produzindo
Do ponto de vista prático, talvez essa seja a principal consequência das pesquisas.
É natural que as vacas em lactação concentrem os investimentos em ventiladores, aspersores, sombra e instalações de conforto térmico. São elas que colocam leite no tanque naquele momento, e a queda produtiva provocada pelo calor aparece rapidamente.
As vacas secas, entretanto, podem não apresentar um prejuízo financeiro tão evidente no dia seguinte.
Isso não significa que estejam protegidas.
O período seco normalmente coincide com o estágio final da gestação, quando ocorre intenso crescimento fetal. Estudos da Universidade da Flórida indicam que vacas submetidas ao estresse térmico nessa fase também podem produzir menos leite na lactação seguinte, além de gerar filhas com desempenho inferior.
Assim, o conforto térmico da vaca seca deixa de ser apenas um investimento na próxima lactação da mãe e passa a ser também um investimento na futura matriz que ela está gestando.
Para o Brasil, o alerta é ainda mais relevante
A discussão tem peso especial para a pecuária leiteira brasileira.
Grande parte da produção nacional ocorre em regiões que enfrentam períodos prolongados de temperatura elevada, muitas vezes associados à alta umidade. Além disso, a intensificação da produção aumenta o desafio porque animais de maior produtividade apresentam elevada geração de calor metabólico.
Pesquisa da Embrapa Gado de Leite sobre vacas Holandesas no Sudeste brasileiro encontrou, entre setembro e março, predominância de perdas potenciais de aproximadamente 2 a 4 kg de leite por vaca/dia relacionadas ao estresse térmico em diferentes áreas, com estimativas superiores a 4 kg/vaca/dia em pontos do Norte e Nordeste de Minas Gerais, Norte do Espírito Santo e Rio de Janeiro.
Esses números dizem respeito aos efeitos diretos do calor sobre animais em produção, e não ao efeito fetal estudado pela pesquisa de 2026. Mas ajudam a dimensionar a pressão climática enfrentada pelos rebanhos brasileiros.
E mesmo animais considerados mais adaptados merecem atenção. Trabalho apresentado pela Embrapa em 2025, utilizando mais de 155 mil registros de produção de vacas Gir e 32 mil de Guzerá, investigou respostas dessas raças ao estresse térmico e ressaltou que impactos podem ocorrer inclusive em genótipos reconhecidos pela maior tolerância ao calor.
Sombra pode ser apenas o começo
A resposta ao problema depende do sistema produtivo, região, genética e estrutura disponível na propriedade, mas a literatura aponta para uma combinação de medidas.
Sombreamento adequado, ventilação, aspersão ou resfriamento evaporativo, fornecimento abundante de água de boa qualidade, redução da radiação solar direta e ajustes de manejo e alimentação podem ajudar a diminuir a carga térmica.
Resultados compilados pela Embrapa já mostraram a diferença que o ambiente pode produzir. Em uma avaliação com bovinos leiteiros a pasto, a produção foi de 18,20 kg/vaca/dia somente com sombra, passou a 19,19 kg com sombra e ventilação e alcançou 20,53 kg com sombra, ventilação e aspersão.
A decisão não deve se limitar às vacas que estão no lote de alta produção. Os novos dados fortalecem a necessidade de incluir vacas secas, novilhas gestantes e animais de reposição na estratégia de conforto térmico da propriedade.
O prejuízo invisível de hoje pode aparecer no leite de amanhã
Durante décadas, o estresse térmico foi observado principalmente pela queda imediata no consumo e na produção de leite, pela frequência respiratória elevada e pelas alterações reprodutivas da vaca adulta.
A ciência está mostrando que essa conta pode ser mais longa.
Uma onda de calor enfrentada por uma vaca prenhe pode não provocar apenas uma perda naquele verão. Dependendo da intensidade, duração e estágio da gestação, parte do impacto pode acompanhar a bezerra ainda não nascida e somente aparecer quando ela própria entrar no rebanho leiteiro.
Isso muda a lógica econômica do conforto térmico.
Proteger uma vaca gestante do calor deixa de ser somente uma medida de bem-estar ou uma tentativa de preservar a produção da próxima lactação. Pode significar proteger hoje uma quantidade de leite que só seria produzida dois ou três anos depois.
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