Enquanto a produção brasileira de algodão deve recuar 8,2% na safra 2025/26, a Bahia segue na contramão, amplia a área irrigada para quase metade das lavouras e projeta crescimento de 10% na colheita de pluma
A cotonicultura baiana consolida um novo ciclo de expansão e deve registrar uma das maiores safras de sua história em 2025/2026. Em um momento em que a produção nacional de algodão enfrenta retração, a Bahia desponta como exceção ao combinar avanços tecnológicos, expansão da irrigação e condições climáticas favoráveis, fatores que sustentam uma projeção de crescimento de aproximadamente 10% na produção de pluma.
A expectativa é de que o estado colha 925,2 mil toneladas de pluma, volume superior ao da safra anterior e resultado que reforça a posição da Bahia como o segundo maior produtor de algodão do país. As projeções foram apresentadas durante a 83ª Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Algodão e Derivados, realizada durante o XXIII ANEA Cotton Dinner, em Angra dos Reis (RJ).
Enquanto isso, a produção brasileira deverá alcançar 3,9 milhões de toneladas de pluma, representando uma redução de 8,2% em relação ao ciclo anterior, segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).
Além do aumento da produção, a Bahia também ampliou sua área cultivada, passando de 413 mil para 417 mil hectares, crescimento de 1,2%. A produtividade média esperada é de 2.214 quilos por hectare, desempenho significativamente superior à média nacional estimada em 1.954 quilos por hectare.

Irrigação transforma o modelo produtivo
O principal fator por trás desse desempenho é a rápida expansão da irrigação nas propriedades do Oeste baiano. Segundo análise apresentada pela Agroconsult, a área irrigada já representa praticamente 50% das lavouras de algodão do estado, percentual que há poucos anos girava em torno de 39%.
Para a sócia e responsável pelo mercado de algodão da Agroconsult, Heloisa Melo, essa transformação representa uma mudança estrutural na cotonicultura baiana.
“O avanço da irrigação compensou integralmente a redução das áreas de sequeiro. Desde o início trabalhamos com estabilidade de área para a Bahia”, explicou.
Segundo a especialista, o crescimento das áreas irrigadas também alterou o calendário agrícola do estado, levando muitos produtores a adotarem uma dinâmica semelhante à observada em Mato Grosso.
“Muito se falava que o plantio da Bahia estava atrasado. Não está atrasado. Estamos vivendo um novo normal. O plantio mudou porque o sistema de produção mudou”, afirmou.
Ela explica que a sucessão entre soja e algodão passou a ser cada vez mais comum. Após a colheita da soja, os produtores iniciam imediatamente o plantio do algodão, aproveitando máquinas, equipes e toda a estrutura operacional, aumentando a eficiência da atividade.
Embora nem toda a área irrigada seja cultivada como segunda safra, o avanço da irrigação proporciona maior estabilidade produtiva e reduz os riscos associados às variações climáticas.
Clima favoreceu recuperação das lavouras
Outro fator decisivo foi a melhora das condições climáticas após a forte seca registrada no ciclo anterior.
Durante a Câmara Setorial, o vice-presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), Douglas Orth, destacou que a regularização do regime de chuvas permitiu a recuperação das áreas cultivadas em sequeiro.
“No ano passado tivemos grandes problemas com seca na Bahia. Neste ciclo, a parte hídrica ocorreu dentro da normalidade e isso muda completamente o potencial das lavouras. Hoje, acreditamos que muitas áreas de sequeiro poderão produzir tanto quanto, ou até melhor que áreas irrigadas”, afirmou.
Para Orth, a combinação entre clima favorável e investimentos tecnológicos consolida um novo momento para a produção estadual.
“A Bahia está em crescimento. Acredito que vamos conseguir manter essa média e continuar evoluindo.”
Projeções continuam sendo revisadas para cima
O desempenho das lavouras tem surpreendido inclusive os analistas de mercado. Ao longo da safra, a Agroconsult elevou sua estimativa de produtividade de 1.950 para 2.060 quilos por hectare, refletindo o bom desenvolvimento das plantas observado em campo.
Mesmo assim, Heloisa Melo avalia que os números ainda podem ser conservadores.
“Os números da Abapa já mostram produtividades acima das nossas estimativas e muita gente acredita que ainda estamos conservadores.”
A consultoria retornará ao estado no fim de julho durante a etapa Algodão do Rally da Safra para validar as projeções diretamente nas propriedades rurais.
“No dia 27 de julho estaremos novamente na Bahia percorrendo as lavouras. Fico muito satisfeita com as condições que estamos encontrando no estado.”
A combinação entre expansão da irrigação, maior produtividade, investimentos em tecnologia e recuperação das condições climáticas coloca a Bahia em posição de destaque na cotonicultura brasileira. Enquanto boa parte do país enfrenta redução na produção, o estado demonstra que a adoção de novos sistemas produtivos pode aumentar a estabilidade das lavouras e elevar a competitividade do setor.
Se as projeções forem confirmadas, a safra 2025/2026 deverá figurar entre as melhores já registradas pela cotonicultura baiana, consolidando um modelo de produção cada vez mais resiliente e tecnificado.
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