Expansão das biorrefinarias amplia a oferta de ingredientes para alimentação animal e exige novos compradores, logística e exportações para acompanhar o crescimento industrial.
O crescimento do etanol de milho está ampliando um mercado que conecta combustível, lavouras e produção de carne e leite. Com a entrada de novas biorrefinarias, a produção brasileira de DDG, coproduto destinado à alimentação animal, pode superar 15 milhões de toneladas até 2030, segundo projeção atribuída à União Nacional do Etanol de Milho (Unem). O desafio será fazer a demanda acompanhar essa oferta.
A expansão abre oportunidades para pecuaristas, fabricantes de rações e exportadores, mas também coloca uma exigência para as usinas: vender os coprodutos é parte importante da rentabilidade do processamento do milho. Encontrar compradores, assegurar qualidade e entregar o ingrediente a um custo competitivo será tão relevante quanto ampliar a capacidade industrial.
Milho pode responder por um terço do etanol no Centro-Sul
As projeções da StoneX dimensionam a velocidade dessa transformação. A consultoria estima que a produção de etanol de milho no Centro-Sul alcance 13,6 bilhões de litros em 2027/28, crescimento de 29,7% sobre o ciclo anterior.
Diante de uma oferta total de 40,5 bilhões de litros de etanol projetada para a região, o milho representaria aproximadamente 33,6% do volume. O recorte é importante: os números do comunicado da consultoria se referem ao Centro-Sul.
Cada ampliação da moagem também aumenta a oferta de ingredientes para nutrição animal. Como o Compre Rural já mostrou ao abordar a perspectiva de produção de DDG até 2030, essa cadeia ganha importância própria dentro da indústria de biocombustíveis.
O que é DDG e por que interessa à pecuária
DDG é a sigla em inglês para grãos secos de destilaria. Durante a fabricação do etanol, o amido do cereal é utilizado na fermentação, enquanto outras frações dão origem a ingredientes aproveitados na alimentação animal. Quando o produto seco incorpora os solúveis do processo, recebe a denominação DDGS.
Esses ingredientes fornecem proteína, energia e fibra e podem integrar dietas de diferentes espécies. A possibilidade de substituir parcialmente matérias-primas tradicionais ajuda a explicar o avanço do DDG na pecuária brasileira.
Mais disponibilidade, porém, não significa redução automática do custo da ração. A vantagem depende do preço entregue na fazenda, da composição do produto e da formulação da dieta. Diferenças entre processos industriais também exigem análise nutricional e acompanhamento técnico.
China abre uma saída para a produção brasileira
O mercado internacional já participa dessa expansão. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, o acesso do DDG/DDGS brasileiro à China foi autorizado em maio de 2025, e os primeiros estabelecimentos foram habilitados em novembro daquele ano.
Em abril de 2026, o ministério informou a chegada de um navio com 62 mil toneladas de DDGS ao porto de Nansha, em Guangzhou. A operação, registrada na cobertura do Compre Rural sobre as primeiras cargas brasileiras recebidas pela China, mostrou que o produto passou da negociação sanitária à comercialização efetiva.
A abertura cria uma alternativa de escoamento, mas não garante a absorção de toda a oferta futura. Competitividade, regularidade dos embarques e atendimento às especificações dos compradores continuarão determinando o espaço brasileiro.
Frete e qualidade vão decidir onde o DDG será competitivo
Para o produtor de milho, novas usinas representam mais uma frente de demanda pelo grão. Para a pecuária, significam uma fonte adicional de ingredientes. Já para as biorrefinarias, o crescimento exige organizar canais comerciais capazes de atender consumidores próximos e mercados distantes.
O frete terá peso nessa equação. Um ingrediente competitivo na saída da indústria pode perder atratividade após o transporte até a fazenda ou o porto. Armazenagem adequada, padronização e contratos de fornecimento também serão necessários para dar previsibilidade às duas pontas.
O desafio do DDG será transformar volume industrial em consumo recorrente. Se a expansão vier acompanhada de mercado, o Brasil poderá agregar mais valor ao milho dentro do país, combinando produção de energia, alimentação animal e exportação.
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