Estudo brasileiro mostra que elevar a proteína bruta de 11% para 14% na dieta de terminação resultou em carcaças até 22,6 kg mais pesadas. Resultados também revelam diferenças no consumo, ganho diário e eficiência da formulação nutricional.
A busca por maior produtividade na pecuária de corte passa por uma decisão que pode representar milhares de reais no resultado de um confinamento: quanto de proteína realmente deve entrar na dieta do boi Nelore? Embora ingredientes proteicos estejam entre os componentes mais caros da alimentação, reduzir sua participação para economizar na ração nem sempre significa diminuir o custo de produção da arroba.
Uma pesquisa brasileira publicada em 2 de novembro de 2026, na revista científica Tropical Animal Health and Production, trouxe novos elementos para essa discussão. O experimento envolveu 120 bovinos Nelore, submetidos a três níveis de proteína bruta durante a terminação em confinamento, e identificou diferenças importantes tanto no desempenho dos animais quanto no peso das carcaças obtidas ao abate.
O resultado mais expressivo apareceu na comparação entre os tratamentos extremos: os animais alimentados com uma dieta formulada com 14% de proteína bruta produziram carcaças frias, em média, 22,6 quilos mais pesadas do que aqueles que receberam uma dieta com 11%.
A diferença equivale a aproximadamente 1,5 arroba adicional por animal, considerando a arroba de carcaça de 15 quilos. Entretanto, o estudo também mostrou que os animais submetidos à dieta mais proteica consumiram mais alimento, aspecto decisivo para determinar se o ganho produtivo representa, de fato, maior rentabilidade.
A investigação foi desenvolvida por pesquisadores vinculados à Universidade Federal de Goiás (UFG) e à Universidade Federal do Amazonas (UFAM), tendo Kaique de Souza Nascimento como primeiro autor.
Mais do que indicar que aumentar a proteína pode melhorar o desempenho, a pesquisa coloca em evidência uma questão fundamental para os pecuaristas: o que vale mais na terminação, economizar na tonelada da ração ou produzir arrobas adicionais com uma dieta nutricionalmente mais ajustada?
Como foi realizada a pesquisa com os 120 bovinos Nelore?
Para avaliar os efeitos dos diferentes níveis nutricionais, os pesquisadores utilizaram 120 machos Nelore não castrados, com peso vivo inicial médio de 386,18 quilos e aproximadamente 24 meses de idade.
Os animais foram distribuídos em 15 baias coletivas, com oito bovinos em cada uma. O delineamento experimental considerou cinco blocos de peso inicial, permitindo comparar três tratamentos com cinco baias por tratamento.
Antes do período de avaliação, os bovinos passaram por 14 dias de adaptação alimentar, seguidos de 105 dias de experimento.
As três dietas foram formuladas com os seguintes níveis de proteína bruta:
- 11% de proteína bruta: tratamento de menor concentração proteica;
- 12,5% de proteína bruta: tratamento intermediário;
- 14% de proteína bruta: tratamento de maior concentração proteica.
Um detalhe importante é que as dietas foram elaboradas para fornecer valores equivalentes de proteína metabolizável estimada, de aproximadamente 86 gramas por quilo de matéria seca, conforme o modelo nutricional NASEM.
A estratégia permitiu investigar como diferentes combinações de ingredientes, mesmo com oferta estimada semelhante de proteína metabolizável por quilo de dieta, poderiam influenciar o comportamento alimentar e a resposta produtiva dos bovinos.
As dietas continham aproximadamente 90% de concentrado e 10% de bagaço de cana-de-açúcar, na base de matéria seca. A elevação do teor proteico ocorreu principalmente por mudanças na participação de milho, farelo de soja e ureia.
Portanto, os resultados devem ser interpretados como efeitos das formulações completas, e não apenas da adição isolada de proteína.
Mais proteína, mais peso: o que aconteceu com os bois?
Os resultados evidenciaram uma resposta crescente no ganho de peso conforme aumentou o teor de proteína bruta da alimentação.
Os animais que receberam a dieta com 11% de proteína apresentaram ganho médio diário de 1,35 kg. No tratamento intermediário, com 12,5%, o desempenho subiu para 1,54 kg por dia.
Já os bovinos alimentados com 14% de proteína atingiram 1,69 kg de ganho médio diário.
Isso representa uma diferença de 340 gramas por animal por dia entre os tratamentos extremos, equivalente a aproximadamente 25% de ganho diário adicional.
O peso vivo final também acompanhou esse comportamento.
Indicador 11% PB 12,5% PB 14% PB Peso vivo final 529,7 kg 551,0 kg 564,1 kg Ganho médio diário 1,35 kg 1,54 kg 1,69 kg Consumo de matéria seca/dia 8,58 kg 9,90 kg 10,21 kg Peso da carcaça fria 287,6 kg 298,9 kg 310,2 kg Rendimento de carcaça 54,63% 54,60% 55,31%
Fonte: Nascimento e colaboradores (2026), Tropical Animal Health and Production. Valores médios arredondados.
A comparação revela que os bovinos submetidos à formulação mais proteica terminaram o experimento 34,4 quilos mais pesados do que os animais alimentados com 11% de proteína bruta.
Para o confinamento comercial, esse resultado é relevante porque o desempenho diário interfere diretamente na quantidade de arrobas produzidas, no custo de permanência dos animais e no planejamento dos abates.
Contudo, a interpretação não deve se limitar ao ganho de peso vivo. É necessário verificar quanto desse ganho efetivamente se transformou em carcaça comercializável.
Pesquisa revela até 22,6 quilos adicionais de carcaça fria
Uma das principais contribuições do estudo foi justamente avaliar o resultado do sistema após o abate.
Os pesquisadores identificaram aumento estatisticamente significativo no peso das carcaças quentes e frias conforme o teor proteico das dietas aumentou.
Na avaliação da carcaça fria, realizada após o resfriamento, as médias foram:
287,6 kg para os bovinos alimentados com 11% de proteína bruta; 298,9 kg para aqueles que receberam 12,5%; e 310,2 kg no grupo submetido à dieta com 14%.
Assim, a diferença entre os tratamentos extremos alcançou 22,6 quilos por animal, aproximadamente 7,9% a mais de peso de carcaça.
No entanto, existe uma distinção técnica fundamental: produzir uma carcaça mais pesada não significa necessariamente aumentar seu rendimento percentual.
Embora a dieta com 14% tenha apresentado rendimento numérico de 55,31%, contra 54,63% na dieta com 11%, a pesquisa não identificou diferença estatisticamente significativa nesse indicador.
O mesmo ocorreu com as perdas durante o resfriamento.
Na prática, o principal benefício observado foi o aumento da quantidade de carcaça produzida por animal, associado ao maior desenvolvimento corporal, e não uma comprovação de melhora no aproveitamento percentual da carcaça.
Também não é possível afirmar, com base nesse experimento, que a carne apresentou maior maciez, marmoreio ou qualidade sensorial, pois essas características não constituíram o foco das avaliações relatadas.
Por que os bovinos consumiram mais alimento com a dieta proteica?
Uma das descobertas mais interessantes está relacionada ao comportamento de consumo.
Os animais submetidos à dieta com 14% de proteína bruta ingeriram, em média, 10,21 quilos de matéria seca por dia, enquanto os bovinos do tratamento com 11% consumiram 8,58 quilos.
A diferença foi de 1,63 quilo de matéria seca por animal diariamente.
Durante os 105 dias experimentais, isso corresponde a aproximadamente 171 quilos adicionais de matéria seca consumida por cabeça, considerando as médias observadas.
O maior consumo contribuiu para explicar o aumento do ganho de peso e do peso final das carcaças.
Do ponto de vista fisiológico, os pesquisadores discutem dois mecanismos importantes.
O primeiro está relacionado à disponibilidade de nitrogênio no rúmen. A proteína degradável fornece substrato para a atividade dos microrganismos ruminais, que participam da fermentação dos alimentos e da produção de proteína microbiana.
Quando há desequilíbrio entre energia fermentável e nitrogênio disponível, a atividade microbiana e o consumo podem ser prejudicados.
O segundo mecanismo envolve a composição energética das formulações.
Na pesquisa, as dietas menos proteicas continham maior participação de milho e amido, enquanto as formulações mais proteicas incluíam maior quantidade de farelo de soja.
Os pesquisadores levantaram a hipótese de que a maior oferta de amido nas dietas de menor proteína tenha contribuído para reduzir o consumo, possivelmente por alterações na fermentação ruminal e nos mecanismos fisiológicos relacionados à saciedade.
Essa hipótese é biologicamente plausível, mas o estudo não demonstra que a redução do consumo tenha sido provocada exclusivamente por deficiência proteica ou por maior concentração de amido.
A resposta observada resultou da interação entre proteína, energia, ingredientes e consumo alimentar.
Um resultado inesperado: a dieta com menos proteína teve maior digestibilidade
Outro aspecto que merece atenção é que os bovinos alimentados com menores teores de proteína apresentaram maior digestibilidade aparente de alguns nutrientes.
Na avaliação da matéria seca, a digestibilidade foi de aproximadamente 77,2% na dieta com 11% de proteína, contra 60,7% no tratamento com 14%.
À primeira vista, isso pode parecer contraditório: como uma dieta com menor digestibilidade gerou animais mais pesados?
A resposta está na diferença entre a proporção de alimento digerido e o volume efetivamente consumido.
Animais que ingerem maiores quantidades de matéria seca podem apresentar menor digestibilidade aparente percentual, entre outros fatores, pela maior velocidade de passagem do conteúdo digestivo.
Mesmo com essa redução proporcional, o consumo total de nutrientes pode sustentar ganhos produtivos superiores.
O experimento reforça uma interpretação importante para a nutrição de bovinos: a maior digestibilidade percentual de uma dieta, isoladamente, não garante o maior desempenho animal.
É necessário avaliar simultaneamente o consumo, a composição nutricional, o aproveitamento dos nutrientes e a resposta produtiva.
E na prática: quanto vale produzir 1,5 arroba adicional por boi?
A resposta depende do custo da dieta e do preço recebido pelo animal terminado.
A diferença de 22,6 quilos na carcaça fria representa aproximadamente 1,51 arroba por cabeça.
Esse volume adicional pode gerar receita relevante, especialmente em confinamentos que trabalham com centenas ou milhares de animais.
Mas existe um ponto central: os bovinos que produziram mais carcaça também consumiram mais alimento, além de receber uma formulação com maior participação de ingredientes proteicos.
Portanto, o ganho adicional precisa ser confrontado com:
- O custo por tonelada de matéria seca de cada formulação;
- O consumo acumulado durante o confinamento;
- A diferença no valor dos ingredientes, especialmente milho, farelo de soja e ureia;
- O ganho de carcaça e o preço efetivamente recebido por arroba;
- Os custos operacionais e financeiros associados ao período de terminação.
O cálculo econômico exige comparar a receita adicional gerada pelas arrobas produzidas com o custo adicional total de alimentação.
Por exemplo, na comparação entre as dietas de 12,5% e 14%, a diferença média de carcaça fria foi de aproximadamente 11,3 quilos por animal, ou 0,75 arroba.
Nesse caso, a decisão de aumentar a concentração proteica precisa considerar quanto custa produzir essa fração adicional de arroba.
A dieta mais produtiva não será necessariamente a mais lucrativa. Da mesma forma, a ração com menor custo por tonelada pode resultar no maior custo por arroba produzida.
Essa distinção é especialmente importante em períodos de valorização do boi gordo, quando o potencial de receita com peso adicional aumenta, mas os gastos com alimentação continuam determinantes para a margem do confinamento.
Como o artigo científico não apresenta uma análise detalhada de custos dos tratamentos, não é possível estabelecer qual das três formulações proporcionou o melhor resultado financeiro.
Pesquisa também acende alerta sobre modelos de formulação utilizados na pecuária
Além de comparar os níveis de proteína, os pesquisadores avaliaram a capacidade do modelo nutricional NASEM de prever o comportamento dos bovinos Nelore.
O sistema é utilizado internacionalmente para estimar exigências nutricionais, consumo alimentar e desempenho de bovinos de corte.
Um dos resultados mais relevantes foi a diferença entre o consumo previsto e aquele efetivamente registrado durante o experimento.
Na dieta com 14% de proteína bruta, o consumo observado ficou aproximadamente 15% acima da estimativa do modelo.
No tratamento com 12,5%, a diferença foi próxima de 10%. Já na dieta com 11%, o consumo previsto foi ligeiramente superior ao observado.
A divergência tem implicações importantes para sistemas de confinamento baseados em formulações matemáticas.
Se um modelo subestima o consumo de matéria seca, suas previsões sobre ingestão de nutrientes, utilização de energia e ganho de peso também podem apresentar diferenças em relação ao desempenho real do lote.
Os autores destacam que parte dos modelos internacionais foi desenvolvida utilizando predominantemente informações de bovinos taurinos mantidos em condições de clima temperado.
O Nelore, por sua vez, apresenta particularidades fisiológicas e produtivas que precisam ser consideradas na formulação de dietas em ambientes tropicais.
A constatação não invalida a utilização dessas ferramentas, mas reforça a necessidade de ajustar as previsões com dados reais de consumo, pesagens e desempenho dos animais.
Para o pecuarista, isso significa que a formulação nutricional deve ser acompanhada por avaliações contínuas, e não tratada como uma decisão definitiva tomada apenas no início do confinamento.
Mais proteína não significa oferecer proteína sem limite
Apesar dos resultados favoráveis à dieta de maior concentração proteica neste experimento, os pesquisadores não defendem a utilização indiscriminada de ingredientes proteicos.
A quantidade necessária depende da categoria animal, do peso vivo, do potencial de ganho, do consumo de matéria seca, da composição dos ingredientes e do equilíbrio entre proteína degradável e não degradável no rúmen.
O excesso de proteína pode elevar os custos de produção sem gerar resposta proporcional no desempenho, além de aumentar as perdas de nitrogênio pelo metabolismo e pela excreção.
Por outro lado, níveis insuficientes podem limitar a atividade microbiana e impedir que o animal aproveite adequadamente a energia disponível na dieta.
O objetivo, portanto, não é simplesmente formular a ração com o maior teor de proteína possível, mas identificar a combinação de nutrientes que maximize a produção economicamente viável de carcaça.
Também é importante destacar que o estudo avaliou bovinos Nelore em terminação intensiva, utilizando dietas com elevada proporção de concentrado.
Seus resultados não devem ser automaticamente extrapolados para animais mais jovens, sistemas exclusivamente a pasto ou estratégias de suplementação com composições nutricionais diferentes.
Para sistemas intensivos, especialmente de alto concentrado, a adaptação correta dos bovinos ao confinamento e o acompanhamento do consumo são componentes indispensáveis da eficiência produtiva.
O que a pesquisa muda para a pecuária brasileira?
A principal contribuição do trabalho está em mostrar que a redução do teor de proteína bruta de uma dieta, mesmo quando modelos nutricionais indicam oferta estimada semelhante de proteína metabolizável, pode comprometer o consumo e o desempenho dos animais, dependendo de como a ração é formulada.
Esse resultado merece atenção em um cenário no qual o produtor busca reduzir custos alimentares e, ao mesmo tempo, aumentar a produtividade individual do rebanho.
Na terminação de bovinos Nelore, pequenas diferenças no ganho médio diário podem alterar significativamente o peso de saída e a quantidade de carcaça comercializada.
Entretanto, a resposta nutricional não deve ser analisada isoladamente. A composição da dieta, a qualidade dos ingredientes, o manejo de cocho, o potencial genético e as condições de adaptação interferem no resultado final.
O avanço das ferramentas de formulação e da nutrição de precisão tende a ampliar a capacidade de identificar os limites econômicos de cada estratégia, sobretudo em propriedades que conseguem monitorar o consumo de matéria seca e mensurar o custo real da arroba produzida.
A aplicação prática desse conhecimento também dialoga com o crescimento da busca por maior produtividade e peso de carcaça em bovinos Nelore.
Afinal, aumentar a proteína na dieta do Nelore vale a pena?
A pesquisa indica que a formulação com 14% de proteína bruta proporcionou maior consumo, ganho de peso e produção de carcaça do que as dietas com 11% e 12,5%, nas condições avaliadas.
O resultado de até 22,6 quilos adicionais de carcaça fria por animal demonstra que a estratégia nutricional pode ter impacto comercial significativo.
Mas a decisão econômica permanece condicionada aos custos.
Um confinamento que consegue transformar o investimento adicional em alimentação em arrobas de carcaça produzidas a um custo inferior ao valor de venda tende a capturar o benefício. Caso contrário, o ganho físico pode não se converter em margem.
A pesquisa oferece, assim, uma mensagem relevante para a pecuária brasileira: economizar proteína na ração não é necessariamente economizar dinheiro, assim como aumentar proteína não garante maior lucro.
O melhor resultado está no equilíbrio entre exigência nutricional, consumo, desempenho, custo alimentar e remuneração pela carcaça.
Mais do que discutir quanto de proteína colocar no cocho, a pergunta que deve orientar a gestão é quanto custa produzir cada arroba adicional — e qual formulação entrega a melhor resposta para os animais disponíveis na propriedade.
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