Lista de 2026 reúne produtoras, cientistas e executivas e ajuda a entender como a liderança feminina participa das decisões sobre tecnologia, investimentos e futuro das fazendas brasileiras.
O poder no agronegócio pode estar na assinatura de um financiamento, na escolha da genética de um rebanho, no desenvolvimento de uma tecnologia ou na negociação que abre mercados para a produção brasileira. É por esses diferentes espaços que passa a segunda edição da lista “As 100 Mulheres Poderosas do Agro”, divulgada pela Forbes Brasil em 15 de outubro. A seleção oferece uma oportunidade de olhar além das homenagens e observar quem participa das decisões que chegam à porteira.
Cinco anos depois da primeira edição, publicada em 2021, a relação reúne trajetórias da produção rural, da pesquisa, das empresas e da representação institucional. A leitura editorial desse conjunto aponta para uma característica do agro contemporâneo: a competitividade depende tanto do que acontece na fazenda quanto do conhecimento, do capital e da capacidade de negociação que sustentam a atividade. Mulheres reconhecidas pela publicação atuam justamente nessas conexões.
O poder também está fora dos holofotes
A Forbes considera três dimensões na seleção: poder, impacto e influência. A proposta contempla tanto a responsabilidade por recursos e estratégias quanto a capacidade de transformar práticas produtivas e mobilizar pessoas. A relação não é uma classificação da primeira à centésima colocada por importância.
Essa distinção ajuda a compreender o alcance da lista. Uma tecnologia adotada em larga escala pode alterar os custos de milhares de produtores, mesmo que sua autora seja pouco conhecida fora do ambiente científico. Da mesma forma, uma dirigente de cooperativa participa de decisões sobre comercialização e investimentos que afetam associados muito além de sua região.
Para o produtor, esse é o ponto central: a relevância de uma liderança também pode ser medida pelas soluções que coloca à disposição do campo.
A ciência feminina chega à lavoura e ao rebanho
A presença de nove profissionais da Embrapa entre as selecionadas dá uma dimensão do peso da pesquisa. Estão na relação a presidente Silvia Massruhá e as pesquisadoras Mariangela Hungria, Mariana Aragão, Roberta Carnevalli, Nair Arriel, Cristina Arzabe, Debora Milori, Simone Favaro e Iêda Mendes.
O trabalho de Mariangela oferece um exemplo concreto dessa conexão com a produção. Segundo a Embrapa, seus estudos contribuíram para a adoção da inoculação com bactérias benéficas em aproximadamente 85% da área brasileira cultivada com soja, enquanto a coinoculação alcança cerca de 35%. São resultados que ajudam a explicar por que influência no agro também se constrói em laboratório e em experimentos de campo.
O reconhecimento já foi abordado pelo Compre Rural na reportagem sobre as nove mulheres da Embrapa presentes na lista da Forbes.
A Esalq/USP também identificou quatro egressas entre as homenageadas: Mariangela Hungria, Lilian Amorim, Thais Vieira e Stéphanie Ferreira Gobato. As trajetórias atravessam pesquisa, ensino, gestão acadêmica e representação dos produtores, mostrando diferentes caminhos pelos quais a formação técnica pode se converter em liderança.
Na fazenda, liderança precisa ter responsabilidade e autonomia
A seleção inclui Helen Jacintho, ligada à pecuária intensiva e ao aproveitamento de dejetos para produção de biogás e biofertilizante, e Xenia Yamanaka, que atua na gestão de riscos do crédito rural. Os dois exemplos aproximam agendas decisivas para o produtor: eficiência dentro da propriedade e acesso a recursos para investir.
Essa conexão também oferece uma reflexão para as famílias rurais. Preparar uma filha para a sucessão exige mais do que incluí-la nas conversas sobre o patrimônio. Envolve acesso aos números, conhecimento da operação, participação nas negociações e autonomia gradual para responder por decisões.
O mesmo raciocínio vale para equipes e organizações. A formação de lideranças ganha consistência quando vem acompanhada de atribuições claras, metas e condições reais de execução. Reconhecimento público tem valor, mas a continuidade do negócio depende do espaço concedido ao trabalho cotidiano.
O avanço existe, mas a lista não representa todo o campo
Os dados do IBGE ajudam a colocar o reconhecimento em perspectiva. No Censo Agropecuário de 2017, as mulheres representavam 18,7% dos produtores, ante 12,7% em 2006 — avanço de seis pontos percentuais entre os dois levantamentos. Esses números são uma referência histórica e não devem ser apresentados como um retrato atualizado de 2026.
Também é preciso distinguir uma seleção editorial de uma pesquisa sobre participação feminina. Cem trajetórias reconhecidas permitem conhecer experiências relevantes, mas não medem, por si só, o acesso das mulheres à terra, ao financiamento ou aos cargos de comando em todo o país.
A força da pauta está justamente nessa leitura: celebrar resultados sem tratar desafios como resolvidos.
O que essas trajetórias dizem sobre o futuro do agro
A diversidade de atuações reconhecidas permite uma interpretação: o agro precisa de lideranças capazes de conectar produção, ciência, gestão e mercado. Para uma fazenda, isso significa combinar conhecimento do solo e dos animais com controle financeiro, avaliação de riscos e planejamento de longo prazo.
É nesse ambiente que as trajetórias femininas ganham significado econômico, além do reconhecimento individual. Elas oferecem referências para jovens profissionais, sucessoras e produtoras que buscam construir espaço com qualificação e responsabilidade.
O desafio para empresas, entidades e famílias rurais é transformar essas referências em oportunidades concretas: dar acesso à formação, compartilhar decisões e preparar pessoas para assumir o negócio. O próximo avanço será percebido quando essas oportunidades fizerem parte da rotina de mais propriedades brasileiras.
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