Pesquisa da Embrapa e da USP mostra que o bordão-de-velho favorece a fertilidade e a diversidade de microrganismos em sistema silvipastoril na Amazônia
Uma árvore nativa pode ajudar o pecuarista a combinar sombra para o rebanho, alimento para os animais e melhoria da saúde do solo. Pesquisa da Embrapa e do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena/USP) identificou que o bordão-de-velho (Samanea tubulosa), integrado a pastagens, favorece a fertilidade, a matéria orgânica e a diversidade de microrganismos no solo.
Os resultados foram obtidos em um experimento na Embrapa Rondônia, com árvores plantadas em uma área de capim-marandu. Na comparação com o sistema que utilizou eucalipto, a parcela com bordão-de-velho apresentou menor acidez e maior diversidade de bactérias e arqueias, organismos que participam de processos essenciais para o funcionamento do solo.
O trabalho integra a pesquisa de doutorado de Henrique Nery Cipriani, pesquisador da Embrapa Florestas, sob orientação da professora Tsai Siu Mui, do Cena/USP.
Por que o bordão-de-velho chama atenção na pecuária
O bordão-de-velho é uma leguminosa com ocorrência em diferentes regiões brasileiras. Sua integração às pastagens reúne características de interesse para sistemas silvipastoris, nos quais árvores, forrageiras e animais compartilham a mesma área.
Além da copa que proporciona sombra, a espécie apresenta associação com bactérias capazes de fixar nitrogênio e produz vagens procuradas pelos bovinos.
“Ela já era considerada uma das melhores espécies de árvore para a integração com pastagens, pois além da sombra proporcionada ao gado, ela é capaz de fixar nitrogênio no solo e ainda produz frutos apreciados pelos animais”, afirma Cipriani.
Embora seu aproveitamento madeireiro seja menos vantajoso que o do eucalipto, segundo o pesquisador, a combinação de benefícios ao solo e ao rebanho amplia o interesse pela espécie.
Efeito no solo chegou a cinco metros das árvores
O experimento começou em 2018, em uma área de 14 hectares de capim-marandu, dividida em duas parcelas iguais. Uma recebeu 156 mudas de bordão-de-velho e a outra, 172 mudas de eucalipto. As amostras de solo foram coletadas em 2022 e 2024, em diferentes profundidades.
“Um dos resultados que mais chamou a atenção foi a elevada fertilidade do solo na área com bordão-de-velho”, relata Cipriani.
A influência da árvore sobre a comunidade microbiana foi identificada a até cinco metros de distância do tronco e em camadas mais profundas do solo. Segundo o pesquisador, o mesmo alcance não foi observado com os eucaliptos.
Na área com a espécie nativa, também houve maior proporção de microrganismos associados ao ciclo do nitrogênio e à decomposição de compostos aromáticos. Essa última característica indica potencial para degradar determinadas moléculas tóxicas, conforme a interpretação apresentada pela pesquisa.

Estoque de carbono ficou próximo ao da floresta nativa
Outro resultado relevante foi a conservação do carbono no solo. Os sistemas com bordão-de-velho e eucalipto apresentaram estoques estatisticamente semelhantes aos da floresta nativa utilizada como referência.
Após o ajuste dos valores para considerar diferenças na compactação do solo, os estoques registrados foram:
Área avaliada Estoque de carbono no solo Sistema silvipastoril com eucalipto 107 toneladas por hectare Sistema silvipastoril com bordão-de-velho 95 toneladas por hectare Floresta nativa de referência 78 toneladas por hectare
Apesar das diferenças numéricas, a análise estatística não apontou diferença significativa entre esses estoques. Os resultados, portanto, não permitem afirmar que os sistemas com árvores armazenaram mais carbono que a floresta.
O bordão-de-velho também apresentou o maior Índice de Manejo de Carbono, de 91,13, em uma escala na qual a floresta de referência recebeu valor 100. Esse indicador considera a quantidade e características do carbono orgânico; não corresponde diretamente ao percentual do estoque de carbono preservado.
Segundo Cipriani, os sistemas podem ter mantido os estoques ou recuperado parte do carbono perdido após a conversão da área, ocorrida décadas antes.
O que os resultados representam para o produtor
A pesquisa reforça o potencial de árvores nativas na composição de pastagens mais diversificadas. Para o pecuarista, o interesse está na combinação de conforto térmico para os animais, ciclagem de nutrientes e manutenção da qualidade do solo.
Os resultados apresentados, porém, não quantificam aumento de ganho de peso, economia com adubação ou retorno financeiro. A escolha da espécie e do arranjo de plantio precisa considerar as condições da propriedade e o equilíbrio entre sombra e desenvolvimento do capim.
Como o estudo foi realizado na Amazônia, a confirmação dos mesmos benefícios em outros biomas depende de experimentos locais.
“Os resultados são promissores e reforçam o potencial da biodiversidade nativa para a ciclagem de nutrientes e o sequestro de carbono, abrindo novas perspectivas para o manejo desses sistemas no Brasil”, afirma Tsai Siu Mui.
Os trabalhos incluem um artigo publicado na Revista Brasileira de Ciência do Solo, com resultados das coletas de 2022, e a tese de doutorado de Cipriani, que analisou as amostras de 2024.
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