Fabricante de fertilizantes iniciou mediação para renegociar obrigações e solicitou a suspensão de cobranças por 60 dias; vendas recuaram 62% no segundo trimestre, mas companhia afirma que fábricas e canais comerciais continuam operando
A Fertilizantes Heringer voltou à Justiça em meio a uma nova pressão financeira. Quatro anos após encerrar uma recuperação judicial que envolveu mais de R$ 2 bilhões em dívidas, a companhia iniciou uma mediação com credores e pediu proteção temporária contra cobranças, execuções e bloqueios patrimoniais.
O pedido foi apresentado à Justiça de São Paulo em 25 de agosto de 2026, mesma data em que a mediação foi instaurada perante a Câmara Wind de Mediação. A Heringer solicita a suspensão, durante 60 dias, da exigibilidade dos créditos incluídos nas negociações.
A proteção, entretanto, ainda depende de decisão judicial. Portanto, a medida não significa, neste momento, que a Heringer entrou novamente em recuperação judicial ou que já recebeu uma blindagem contra todos os credores.
Segundo a companhia, o objetivo é preservar as condições necessárias para negociar suas obrigações e reorganizar a estrutura financeira sem sofrer, durante esse período, a pressão imediata de medidas de execução promovidas pelos credores abrangidos pela mediação.
Heringer afirma que operações continuam normalmente
Em fato relevante encaminhado ao mercado, a fabricante ressaltou que o procedimento possui natureza temporária e, isoladamente, não provoca interrupção das atividades comerciais ou industriais.
A companhia informou que suas unidades produtivas e seus canais de venda permanecem operacionais, com continuidade no atendimento a clientes e parceiros. Também afirmou que pretende adotar medidas para aumentar a eficiência, adequar sua estrutura de capital e reforçar a sustentabilidade financeira do negócio no longo prazo.
A mediação está prevista no artigo 20-B da Lei nº 11.101/2005, que disciplina as recuperações judicial e extrajudicial e as falências. O mecanismo permite que empresas e credores busquem uma solução negociada para obrigações financeiras, inclusive antes da apresentação de um eventual pedido formal de recuperação.
O prazo de 60 dias funcionaria, caso seja concedido pela Justiça, como uma janela para a construção de acordos. A suspensão alcançaria os créditos e credores participantes da mediação, não significando necessariamente uma paralisação geral de todas as obrigações da companhia.
Queda nas vendas ajuda a explicar a pressão financeira
O novo movimento ocorre após uma forte redução da atividade comercial da Heringer. No segundo trimestre de 2026, a empresa entregou 103 mil toneladas de fertilizantes, volume 62,4% inferior às 274 mil toneladas comercializadas no mesmo período de 2025.
Entre janeiro e junho, as entregas somaram 305 mil toneladas, uma queda próxima de 50% na comparação anual. A companhia relacionou o desempenho, principalmente, ao menor número de plantas em operação.
A receita líquida alcançou R$ 316,5 milhões somente no segundo trimestre, com retração de 54,8%. No acumulado do primeiro semestre, a receita foi de R$ 841,8 milhões, queda de 47,6% em relação ao mesmo intervalo de 2025.
A distinção é importante: o valor de R$ 316,5 milhões divulgado em algumas publicações corresponde ao período entre abril e junho, e não a todo o primeiro semestre.
Mesmo com o encolhimento das vendas, a Heringer conseguiu melhorar parte de seus indicadores operacionais. O resultado bruto do segundo trimestre ficou positivo em R$ 16,7 milhões, revertendo o resultado negativo de R$ 19,2 milhões registrado um ano antes.
O Ebitda, indicador que mede a geração operacional de caixa antes de juros, impostos, depreciação e amortização, ficou negativo em R$ 3,4 milhões, contra resultado também negativo de R$ 76,3 milhões no segundo trimestre de 2025.
Na última linha do balanço, porém, a companhia apresentou prejuízo líquido de R$ 37,2 milhões no trimestre. No primeiro semestre, a perda acumulada chegou a R$ 22,6 milhões, revertendo o lucro de R$ 30,7 milhões observado no mesmo período do ano anterior.
Balanço indica passivo superior a R$ 2,8 bilhões
Os dados oficiais enviados à Comissão de Valores Mobiliários mostram uma situação patrimonial mais ampla do que os R$ 813 milhões mencionados em algumas publicações nas redes sociais.
Em 30 de junho de 2026, a Heringer registrava ativos totais de R$ 1,514 bilhão e patrimônio líquido negativo de R$ 1,342 bilhão. Pela estrutura do balanço, isso corresponde a um passivo total próximo de R$ 2,857 bilhões — resultado da soma das obrigações com o patrimônio líquido negativo.
Isso não significa que todo esse valor esteja vencido, submetido à mediação ou sujeito ao pedido de suspensão. O fato relevante não informou o montante exato dos créditos abrangidos pelas negociações.
Companhia já enfrentou recuperação judicial
A Fertilizantes Heringer entrou com pedido de recuperação judicial em 2019 para renegociar mais de R$ 2 bilhões em obrigações. O plano foi homologado em fevereiro de 2020.
Em março de 2022, a 2ª Vara Cível de Paulínia encerrou o processo, considerando o decurso do período de supervisão e o cumprimento das obrigações previstas no plano durante aquela etapa.
Agora, o procedimento adotado é diferente. A companhia iniciou uma mediação e apresentou uma tutela cautelar antecedente, mas não anunciou um novo pedido de recuperação judicial.
O que a situação representa para o produtor rural?
Para o mercado de fertilizantes, o principal ponto de atenção é a continuidade do fornecimento em um período de planejamento e compra de insumos para as próximas lavouras. A Heringer tem atuação tradicional no atendimento a culturas como soja, milho e café.
Até o momento, a companhia afirma que mantém normalmente sua produção, suas vendas e o relacionamento com os clientes. Não há indicação oficial de interrupção generalizada no fornecimento de fertilizantes.
A evolução do caso dependerá agora da decisão da Justiça sobre os 60 dias de proteção e, principalmente, do resultado das negociações com os credores. Uma eventual concessão dará fôlego temporário à Heringer, mas não resolverá, isoladamente, os desafios provocados pela redução das vendas, pelo prejuízo e pelo desequilíbrio patrimonial.
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