Após décadas sem casos, mosca-da-bicheira volta a atingir cavalo nos Estados Unidos

Parasito foi encontrado na perna de um cavalo de trabalho no Texas e representa o primeiro caso equino registrado no país neste século; larvas da Cochliomyia hominivorax alimentam-se de tecido vivo e exigem atenção rápida aos ferimentos

Um cavalo de trabalho de rancho entrou para uma estatística que os Estados Unidos passaram décadas tentando manter zerada. Um caso de New World screwworm foi confirmado em um equino no Texas, tornando-se a primeira ocorrência da mosca-da-bicheira em cavalos registrada no país neste século.

A infestação foi identificada em 9 de setembro de 2026, em uma lesão no membro posterior de um animal utilizado no trabalho rural em Presidio County, no oeste do Texas, próximo à fronteira com o México.

O parasito é bastante conhecido dos veterinários brasileiros: Cochliomyia hominivorax, mosca responsável pela chamada bicheira. Suas larvas se alimentam de tecido vivo, fazendo com que pequenas lesões possam evoluir rapidamente sem tratamento.

Caso amplia alerta nos Estados Unidos

Segundo a United States Equestrian Federation, as larvas foram encontradas no membro posterior do cavalo. O registro ocorre durante uma nova incursão do parasito nos Estados Unidos, onde a espécie havia sido erradicada décadas atrás.

O primeiro caso confirmado pelo USDA neste retorno ocorreu em 3 de junho, em um bezerro de três semanas em Zavala County, também no Texas. As larvas estavam na região umbilical.

Desde então, autoridades trabalham com vigilância, delimitação das áreas afetadas e estratégias de erradicação. A chegada do parasito aos cavalos amplia agora a atenção do setor equestre.

Por que a bicheira preocupa?

A Cochliomyia hominivorax procura ferimentos ou regiões vulneráveis para depositar seus ovos. Após a eclosão, as larvas penetram na lesão e passam a consumir tecido vivo, podendo ampliar rapidamente o ferimento.

Por isso, até pequenos cortes merecem atenção.

A orientação aos proprietários de cavalos é observar diariamente possíveis feridas, inchaço, secreção, odor desagradável ou presença de larvas, especialmente em potros recém-nascidos, áreas de procedimentos cirúrgicos, olhos, narinas e regiões úmidas.

Qualquer suspeita deve ser avaliada por um médico-veterinário.

Nos EUA é histórico; no Brasil, uma velha conhecida

O caso ganhou repercussão porque os Estados Unidos erradicaram o New World screwworm na década de 1960. No Brasil, a situação é diferente: a mosca-da-bicheira continua conhecida pela sanidade animal.

Uma revisão científica vinculada à Embrapa analisou 174 trabalhos sobre a ocorrência de C. hominivorax no país e identificou registros em 208 municípios, distribuídos pelos principais biomas brasileiros.

Isso não significa que toda ferida com larvas seja causada pela espécie. A identificação correta é importante para o diagnóstico e tratamento.

Como os Estados Unidos eliminaram o parasito?

Uma das principais ferramentas utilizadas historicamente foi a Técnica do Inseto Estéril.

O método consiste na produção e liberação em grande escala de machos esterilizados. Ao cruzarem com fêmeas selvagens, não geram descendentes viáveis, reduzindo gradualmente a população da mosca.

A estratégia continua fazendo parte das ações utilizadas para impedir que o parasito volte a se estabelecer.

A preocupação com os equinos, inclusive, começou antes do primeiro caso. Em 15 de junho de 2026, a FDA autorizou emergencialmente uma formulação líquida de ivermectina para prevenção de curto prazo da infestação em cavalos, dentro de condições específicas estabelecidas nos Estados Unidos.

Essa autorização não representa recomendação de uso no Brasil. Medicamentos e tratamentos em equinos devem seguir orientação veterinária e as regras sanitárias brasileiras.

O alerta para quem cria cavalos no Brasil

O episódio norte-americano não representa uma nova introdução da mosca-da-bicheira no Brasil, mas reforça uma recomendação importante: não banalizar ferimentos em cavalos.

Animais de trabalho, esporte ou reprodução podem apresentar pequenas lesões provocadas por cercas, equipamentos, atritos e acidentes. Em condições favoráveis às moscas, esses ferimentos podem servir de porta de entrada para miíases.

Inspeção frequente, manejo adequado das feridas, higiene das instalações e controle de moscas são medidas importantes. Diante de larvas, odor forte, secreção, aumento da lesão, dor ou alteração de comportamento, a avaliação veterinária deve ser rápida.

O animal infectado no Texas era um cavalo de trabalho de rancho. Para os Estados Unidos, o registro marca o retorno de uma ameaça sanitária a uma espécie que não apresentava casos havia décadas.

Para o criador brasileiro, fica um alerta conhecido, mas importante: a bicheira muitas vezes começa em algo tão pequeno quanto um simples ferimento.

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