Luft Agro testa uma nova estrutura logística para aproximar estoques das fazendas, reduzir distâncias e acelerar o abastecimento de fertilizantes, defensivos e outros insumos nas principais regiões produtoras
A logística de insumos agrícolas pode estar entrando em uma nova fase no Brasil. A Luft Agro começou a testar um modelo baseado em mini centros de distribuição, estruturas menores instaladas próximas às áreas de produção e pensadas para encurtar o caminho entre o estoque e a fazenda. A estratégia, que pode alcançar até 150 unidades no país, busca criar um sistema de abastecimento mais ágil em regiões onde cada hora de atraso pode interferir diretamente na operação do produtor.
A proposta foi apresentada por Luciano Luft, CEO da Luft Logistics, durante o Congresso Andav 2026. O conceito aproveita experiências já consolidadas no comércio eletrônico, setor no qual estoques são posicionados perto dos consumidores para reduzir o tempo necessário entre o pedido e a entrega.
No campo, porém, a aplicação envolve desafios próprios, como grandes distâncias, sazonalidade da demanda, armazenagem adequada e exigências regulatórias relacionadas a determinados produtos agrícolas.
Mini centros de distribuição começam pelo Matopiba
O primeiro projeto desse novo formato foi implantado em Uruçuí, no Piauí, uma das áreas agrícolas relevantes do Matopiba. A companhia também negocia uma segunda estrutura em Jataí, Goiás, importante polo de produção de grãos.
A escolha de municípios inseridos em regiões agrícolas estratégicas mostra a lógica do projeto: colocar produtos mais perto dos locais onde existe demanda recorrente.
Em vez de depender exclusivamente de grandes armazéns regionais, a companhia pretende criar pontos menores capazes de manter volumes selecionados de produtos e atender necessidades locais com maior velocidade.
A Luft considera que o modelo poderá ultrapassar uma centena de unidades e chegar a 150 mini centros de distribuição, mas esse número representa uma possibilidade de expansão e não uma rede já contratada.
Até o momento, a empresa não divulgou prazo para concluir essa expansão nem uma lista definitiva dos municípios que receberiam as estruturas.
Entrega de insumos pode cair para poucas horas
O principal ganho esperado está no prazo.
Quando fertilizantes, sementes ou defensivos estão armazenados longe das propriedades, uma demanda inesperada pode exigir viagens de centenas de quilômetros. Em situações específicas, isso significa perder parte de uma janela operacional importante.
A Luft já havia apresentado o conceito dos mini-CDs em 2025, quando informou que as estruturas poderiam ter aproximadamente 800 a 1.000 metros quadrados.
A proposta inicial previa, em determinadas condições, a possibilidade de concluir entregas em cerca de seis horas, desde que o item estivesse disponível em uma unidade próxima.
Para o produtor, o benefício potencial não está apenas na rapidez. Uma rede regionalizada também pode reduzir a necessidade de antecipar compras somente pelo receio de atrasos logísticos.
Mini centros de distribuição tentam resolver um gargalo antigo
A distância continua sendo um dos principais desafios da distribuição agrícola brasileira.
A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 apontou que 62,1% dos trechos pavimentados avaliados apresentavam condições classificadas como regular, ruim ou péssima. A avaliação considerou mais de 114 mil quilômetros de rodovias no país.
Em uma atividade que depende fortemente do transporte rodoviário, aproximar os estoques dos clientes pode diminuir a exposição a problemas de infraestrutura, congestionamentos e atrasos em rotas extensas.
Essa lógica se torna ainda mais importante em culturas que possuem janelas curtas para determinadas operações, como aplicações de defensivos ou correções nutricionais.
Ao reduzir a distância entre o produto e a fazenda, a logística passa a funcionar como uma ferramenta para diminuir risco operacional.
Estrutura menor não substitui os grandes armazéns
Apesar da comparação com gigantes do comércio eletrônico, a estratégia não significa abandonar os centros tradicionais.
Os grandes armazéns continuariam funcionando como bases de abastecimento e consolidação de volumes. Os mini-CDs atuariam como pontos avançados, mantendo estoques definidos de acordo com o perfil produtivo de cada região.
Esse desenho permite trabalhar com uma estrutura em camadas.
Produtos de maior giro podem permanecer próximos dos municípios produtores, enquanto volumes maiores continuam concentrados em instalações de maior capacidade.
A grande dificuldade está em definir corretamente quais produtos devem ficar disponíveis em cada região.
Um estoque mal dimensionado pode gerar exatamente o problema que o modelo tenta evitar: falta de produto quando a demanda aumenta ou mercadoria parada quando a procura é menor do que o previsto.
Tecnologia será decisiva para distribuir o estoque
Para administrar uma rede pulverizada, a Luft aposta em análise de dados e automação.
A companhia informou em 2026 que vem ampliando o uso de inteligência artificial e sistemas de controle operacional em suas atividades ligadas ao agronegócio.
Essas ferramentas podem ajudar a identificar padrões de consumo, prever necessidades regionais e acompanhar estoques antes que determinada unidade enfrente falta ou excesso de produto.
No novo modelo, essa capacidade de previsão será essencial.
Um município predominantemente produtor de soja e milho, por exemplo, possui uma curva de consumo diferente de regiões voltadas a outras culturas. Clima, calendário agrícola e ocorrência de pragas também modificam a demanda ao longo da safra.
Por isso, a eficiência dos mini centros de distribuição dependerá menos do tamanho dos galpões e mais da capacidade de posicionar o produto correto no local correto.
Luft já possui presença relevante na logística agrícola
A expansão parte de uma operação que já atua em larga escala no setor.
Segundo informações apresentadas pela empresa, Luft Agro e Transcamila contam com aproximadamente 900 colaboradores, mantêm 18 centros de distribuição destinados ao agronegócio e realizam cerca de 350 mil entregas anuais.
A companhia também estima participar, em alguma etapa logística, da movimentação de uma parcela significativa dos defensivos, fertilizantes e produtos foliares comercializados no Brasil.
O tamanho do mercado ajuda a explicar o interesse em novas soluções de distribuição.
Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos indicam que 6,926 milhões de toneladas de fertilizantes foram entregues ao mercado brasileiro somente entre janeiro e fevereiro de 2026.
Movimentar esse volume em um território de dimensões continentais exige redes capazes de atender tanto os grandes corredores logísticos quanto municípios mais afastados.
Mato Grosso já oferece uma referência para o modelo
A Luft também utiliza sua atuação no Mato Grosso como exemplo de regionalização.
A empresa possui estruturas em cidades como Cuiabá, Rondonópolis, Querência, Campo Novo do Parecis e Sorriso, criando uma rede distribuída dentro do principal estado produtor de grãos do país.
Segundo estimativa da própria companhia, essa presença permite alcançar grande parte do consumo estadual de insumos a partir de unidades relativamente próximas dos clientes.
Os mini-CDs aprofundariam essa estratégia.
Em vez de trabalhar apenas com bases regionais, o objetivo seria instalar estoques ainda mais próximos de municípios com forte concentração de propriedades agrícolas.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.