Agronegócio recebeu R$ 7,7 bilhões em crédito pelo Plano Brasil Soberano

Cadeias ligadas ao campo responderam por 39,5% dos financiamentos aprovados pelo BNDES para empresas afetadas pelas tarifas dos Estados Unidos

O agronegócio recebeu R$ 7,7 bilhões em crédito pelo Plano Brasil Soberano, considerando os financiamentos destinados aos segmentos de alimentos, agricultura, pecuária, madeira e couro. O volume equivale a 39,5% dos R$ 19,6 bilhões aprovados pelo BNDES para apoiar exportadores brasileiros prejudicados pelo aumento das tarifas dos Estados Unidos.

Os números constam no relatório de execução divulgado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social em 10 de julho. O documento apresenta a aplicação dos recursos durante 2025, período marcado pela primeira rodada de barreiras comerciais adotadas pelo governo norte-americano contra produtos brasileiros.

O levantamento foi elaborado a partir das atividades registradas na Classificação Nacional de Atividades Econômicas, a CNAE. Como o relatório não identifica individualmente todas as empresas contempladas, o valor relacionado ao campo pode ser superior ao já contabilizado.

Indústria de alimentos concentrou a maior parcela dos recursos

Entre as atividades diretamente associadas ao setor, a indústria de alimentos liderou a contratação de crédito. Foram R$ 4,159 bilhões distribuídos em 260 operações.

A fabricação de produtos de madeira apareceu em seguida, com R$ 1,854 bilhão. Agricultura, pecuária e serviços relacionados receberam R$ 917 milhões, enquanto a preparação de couros e a produção de artefatos somaram R$ 804 milhões.

A distribuição dos recursos demonstra que os efeitos das tarifas não ficaram restritos à produção dentro das propriedades rurais. Indústrias processadoras, empresas exportadoras e negócios envolvidos no beneficiamento de matérias-primas também precisaram de suporte financeiro para manter suas atividades.

Valor destinado ao agro pode ser ainda maior

O cálculo de R$ 7,7 bilhões considera apenas categorias claramente vinculadas ao agronegócio. Outros financiamentos aprovados podem ter beneficiado empresas da cadeia produtiva, mas não foram incluídos por falta de detalhamento no relatório.

Isso ocorre em segmentos como comércio atacadista, fabricação de máquinas e equipamentos e indústria química. Essas classificações podem reunir tradings agrícolas, fabricantes de implementos, empresas de fertilizantes e produtoras de defensivos.

Sem informações sobre a atividade específica de cada beneficiária, não é possível atribuir esses valores ao campo com segurança. Por esse motivo, o total identificado representa um patamar mínimo.

Também ficam fora do levantamento companhias que decidiram absorver os custos das tarifas com recursos próprios, preservando contratos de exportação e mantendo entregas sem recorrer às linhas oficiais.

Plano Brasil Soberano priorizou manutenção do caixa

Criado em agosto de 2025 pela Medida Provisória 1.309/25, o Plano Brasil Soberano previa inicialmente R$ 30 bilhões em crédito para empresas atingidas pelo impasse comercial com os Estados Unidos.

Até o encerramento daquele ano, foram aprovados R$ 19,59 bilhões em 1.386 operações. O montante comprometeu 89% dos R$ 22 bilhões transferidos ao BNDES pelo Fundo de Garantia à Exportação.

Do total contratado, R$ 10,82 bilhões já haviam sido efetivamente liberados até dezembro. Os R$ 8,77 bilhões restantes ainda dependiam das etapas de desembolso e poderiam ser pagos posteriormente ou cancelados.

A maior parte das operações teve como finalidade reforçar o capital de giro das empresas. A linha Giro Emergencial concentrou 51% do crédito aprovado, enquanto o Giro Diversificação respondeu por 47%.

Nesta segunda modalidade, as beneficiárias assumem o compromisso de ampliar vendas para destinos diferentes dos Estados Unidos. A medida busca reduzir a dependência do mercado norte-americano e diminuir a exposição das empresas brasileiras a novas barreiras comerciais.

Investimentos produtivos tiveram baixa participação

Apesar da necessidade de adaptação das empresas, os financiamentos destinados à modernização produtiva representaram uma parcela pequena do programa.

As linhas para aquisição de bens de capital e realização de investimentos receberam R$ 348 milhões, menos de 2% do volume aprovado. Já a modalidade voltada diretamente à inovação, à adaptação da produção e à expansão das exportações não registrou nenhuma operação.

O comportamento indica que as empresas priorizaram despesas imediatas, como pagamento de fornecedores, manutenção de empregos, cumprimento de contratos e continuidade das operações.

A compra de máquinas, a ampliação da capacidade produtiva e a reorganização das plantas industriais acabaram adiadas diante da necessidade de preservar liquidez.

Nova etapa terá foco na tarifa de 25%

O governo federal anunciou uma nova fase do programa, batizada de Brasil Soberano Competitividade. A iniciativa pretende abrir outra frente de financiamento para os setores afetados pela tarifa de 25% aplicada pelos Estados Unidos a partir de 22 de julho.

A expectativa é que a nova etapa mantenha o suporte emergencial, mas amplie o espaço para ações relacionadas à competitividade e à diversificação comercial.

Para o agronegócio, o desafio será combinar acesso ao crédito com estratégias capazes de abrir mercados, atender novas exigências sanitárias, agregar valor aos produtos e diminuir a dependência de poucos compradores.

A experiência da primeira fase mostrou que o financiamento foi importante para evitar interrupções nas atividades. O próximo passo, no entanto, será transformar o apoio de curto prazo em investimentos que aumentem a capacidade de reação das empresas brasileiras diante de novos conflitos comerciais.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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