Levantamento do Cepea e da CNA aponta 28,4 milhões de pessoas ocupadas no agronegócio, crescimento da renda e maior qualificação profissional; avanço reforça a importância econômica do setor, mas também evidencia os desafios para contratar e manter trabalhadores no campo.
O agronegócio brasileiro voltou a demonstrar sua força na geração de trabalho e renda. No segundo trimestre de 2026, o setor alcançou 28,4 milhões de pessoas ocupadas, o maior contingente registrado para esse período desde o início da série histórica, em 2012. O resultado representa aproximadamente 26% de toda a força de trabalho ocupada no Brasil e confirma que a importância econômica do agro ultrapassa as porteiras das propriedades rurais, alcançando indústrias, transportadoras, empresas de tecnologia, comércio e serviços especializados.
O avanço também aparece na remuneração. Enquanto o rendimento médio real dos trabalhadores do agronegócio apresentou crescimento, os empregados da pecuária registraram ganho salarial real de 8%, sinalizando uma valorização importante da mão de obra em uma atividade que depende cada vez mais de qualificação, eficiência produtiva e capacidade de gestão. Os números integram o levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), realizado em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), divulgado em outubro.
A combinação entre expansão do emprego e valorização salarial coloca em evidência uma transformação estrutural no campo brasileiro: produzir mais já não depende apenas de terra, genética, máquinas ou tecnologia, mas também da capacidade de atrair, capacitar e reter profissionais.
Agro alcança 28,4 milhões de trabalhadores e reforça peso na economia
Segundo o estudo, a população ocupada no agronegócio cresceu 0,7% em relação ao segundo trimestre de 2025, incorporando aproximadamente 188,6 mil trabalhadores. Na comparação com os três primeiros meses de 2026, o aumento foi mais moderado, de 0,1%, equivalente a cerca de 27 mil pessoas.
O resultado ocorreu em um ambiente de aquecimento do emprego no país. A taxa nacional de desocupação atingiu 5,4% no segundo trimestre, o menor nível já observado para esse período na série considerada pelo levantamento.
Um aspecto importante é que o recorde corresponde especificamente ao segundo trimestre. Não significa que o setor tenha superado todos os contingentes de qualquer trimestre da série histórica. Essa distinção permite avaliar corretamente o movimento do emprego, sem confundir oscilações sazonais com crescimento permanente.
A pesquisa também considera uma definição ampla do agronegócio, incluindo produção agropecuária, fabricação de insumos, agroindústria e agrosserviços. Portanto, os 28,4 milhões representam pessoas ocupadas ao longo de toda essa cadeia, e não somente empregados diretamente nas fazendas.
Salários crescem 8% na pecuária, mas disputa por profissionais continua
A valorização da remuneração é um dos sinais mais relevantes do levantamento. No segundo trimestre, o rendimento médio mensal real dos empregados e outras ocupações agrupadas nessa categoria pelo Cepea atingiu R$ 2.972, crescimento de 3,7% na comparação anual. Apesar da melhora, permaneceu abaixo da média nacional de R$ 3.475 para a mesma categoria.
Na produção primária, os empregados da pecuária tiveram crescimento real de 8% nos rendimentos, enquanto os trabalhadores da agricultura registraram avanço de 4,4%. A comparação considera valores corrigidos pela inflação, demonstrando que houve ganho de poder de compra, e não apenas reajuste nominal.
O indicador da pecuária reúne diferentes atividades de criação animal, não sendo exclusivo da bovinocultura de corte. Também não significa que todos os empregados receberam reajustes individuais de 8%, já que o resultado representa a evolução da média do grupo pesquisado.
Parte dessa valorização pode ser interpretada à luz da crescente necessidade de profissionais preparados para atividades que exigem conhecimento técnico. Na bovinocultura, por exemplo, tarefas relacionadas à nutrição, reprodução, sanidade, operação de equipamentos e gestão dos animais passaram a demandar maior especialização.
O movimento também reflete a concorrência por profissionais entre propriedades rurais, empresas agroindustriais e outras atividades econômicas. Em muitas regiões produtoras, oferecer uma remuneração competitiva passou a ser condição necessária para manter equipes experientes.
Renda gerada pelo agro chega a quase R$ 72 bilhões
Outro indicador importante é a massa de rendimentos, que corresponde ao conjunto dos valores recebidos pelos trabalhadores nas diferentes posições ocupacionais pesquisadas.
No segundo trimestre de 2026, esse montante alcançou aproximadamente R$ 71,84 bilhões, crescimento real de 2,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Desse total, cerca de R$ 45,8 bilhões corresponderam aos empregados e outras ocupações reunidas na categoria, aproximadamente R$ 9 bilhões aos empregadores e R$ 17,1 bilhões aos trabalhadores por conta própria.
O crescimento não foi uniforme. Enquanto os rendimentos dos empregados e empregadores avançaram, os trabalhadores por conta própria registraram retração real, evidenciando que a melhora econômica do setor não alcança todas as categorias da mesma maneira.
Para municípios cuja economia depende diretamente da agropecuária, a circulação dessa renda também tem efeitos importantes sobre o comércio, a prestação de serviços, o mercado imobiliário e outras atividades associadas à dinâmica regional.
Crescimento do emprego não elimina a falta de mão de obra nas fazendas
O número recorde de ocupados revela apenas uma parte da realidade. Ao mesmo tempo que o agronegócio amplia sua presença no mercado de trabalho brasileiro, produtores continuam enfrentando dificuldades para encontrar profissionais disponíveis e qualificados.
Uma pesquisa apresentada pela CNA, em parceria com o Cepea, mostrou que 94,8% dos produtores entrevistados relataram dificuldades para contratar trabalhadores. Além disso, 84,3% afirmaram operar com equipes menores do que consideram necessárias.
O levantamento, já abordado pelo Compre Rural, revelou consequências econômicas da escassez de profissionais.
Entre os produtores consultados, 43,9% relataram aumento dos custos relacionados à mão de obra, enquanto 42% apontaram perdas de produção. Outros 48% disseram ter adiado ou abandonado projetos de expansão em razão da dificuldade para contratar.
Esses resultados ajudam a explicar por que o avanço salarial na pecuária deve ser interpretado também como um indicador de pressão sobre os custos operacionais.
Para uma fazenda, pagar melhor pode ser necessário para reduzir a rotatividade, mas o aumento da despesa precisa vir acompanhado de produtividade e melhor organização do trabalho.
Pecuária exige qualificação e transforma a gestão das fazendas
Na pecuária de corte, a profissionalização das equipes ganhou importância especialmente em propriedades que utilizam inseminação artificial, protocolos de reprodução, confinamento, suplementação estratégica e sistemas digitais de monitoramento.
São atividades nas quais falhas operacionais podem provocar perdas expressivas, comprometer o desempenho animal e reduzir a margem financeira da operação.
O diagnóstico aparece também no levantamento Confina Brasil, da Scot Consultoria. Conforme reportagem publicada pelo Compre Rural, 80,4% dos gestores de confinamento consultados apontaram a mão de obra como seu principal desafio.
A pesquisa também destacou que 73,9% dos confinamentos visitados utilizavam algum tipo de bonificação ou premiação para os colaboradores, demonstrando a busca por mecanismos de retenção e estímulo ao desempenho.
A situação reforça uma mudança relevante na gestão pecuária. O trabalhador deixa de ser visto apenas como responsável pela execução de tarefas e passa a ter participação mais evidente nos resultados produtivos da propriedade.
Isso não significa que a tecnologia substitua integralmente as pessoas. Em muitos casos, ela reduz tarefas repetitivas e aumenta a demanda por profissionais capazes de operar equipamentos, interpretar indicadores e tomar decisões.
Escolaridade avança e quase 5 milhões de profissionais têm ensino superior
O levantamento do Cepea/CNA também revela mudanças importantes no perfil educacional da força de trabalho.
A quantidade de pessoas ocupadas no agronegócio com ensino superior completo ou incompleto cresceu 5,4%, alcançando aproximadamente 4,94 milhões de trabalhadores. Esse grupo passou a representar cerca de 17,4% dos ocupados.
Em sentido contrário, o contingente de pessoas sem instrução registrou recuo de 3,3%. Apesar da redução, aproximadamente 1,44 milhão de trabalhadores ainda se encontravam nessa condição.
Outro aspecto relevante é a presença feminina, que corresponde a 38,2% da população ocupada no agronegócio, enquanto os homens representam 61,8%.
A mudança no perfil educacional acompanha uma cadeia produtiva que necessita de conhecimentos em gestão, tecnologia, logística, administração, medicina veterinária, zootecnia e outras especialidades.
Entretanto, maior escolaridade não elimina automaticamente a deficiência de formação prática. O desafio é aproximar a capacitação profissional das necessidades reais de cada sistema produtivo, especialmente nas regiões onde a oferta de cursos e treinamento permanece limitada.
O que o recorde de empregos representa para o produtor rural
Do ponto de vista econômico, os resultados trazem uma mensagem importante: o agronegócio mantém sua capacidade de absorver trabalhadores e gerar renda, mas o mercado de trabalho está mais competitivo.
Para o produtor, a nova realidade exige atenção a fatores que vão além da folha salarial. Condições adequadas de trabalho, formação técnica, organização das jornadas, segurança, alojamento e possibilidades de crescimento profissional podem interferir diretamente na permanência dos colaboradores.
Há também uma questão de produtividade. Uma equipe bem treinada tende a executar melhor os protocolos sanitários, reduzir desperdícios, preservar equipamentos e identificar problemas antes que eles provoquem prejuízos maiores.
Na pecuária leiteira, por exemplo, a ausência de pessoal pode comprometer operações que precisam ser realizadas diariamente. Na pecuária de corte intensiva, atrasos na alimentação e falhas no manejo podem afetar o desempenho dos lotes.
Por isso, a elevação da remuneração não deve ser analisada isoladamente. O indicador mais importante para a sustentabilidade da propriedade é a relação entre o custo do trabalho, a produtividade alcançada e a receita gerada.
O futuro do emprego no agro dependerá de produtividade e valorização profissional
O recorde de trabalhadores no segundo trimestre de 2026 confirma a relevância do agronegócio para a economia brasileira. Ao responder por aproximadamente um quarto da população ocupada do país, o setor demonstra capacidade de sustentar empregos e movimentar renda em diferentes regiões.
O crescimento real dos salários na pecuária, por sua vez, evidencia que a valorização profissional ganhou espaço em uma atividade historicamente marcada por dificuldades de contratação e retenção de trabalhadores.
Mas os números também revelam um desafio que não pode ser ignorado. Ter mais pessoas ocupadas no agronegócio não significa necessariamente que as fazendas estejam conseguindo preencher todas as vagas de que precisam.
O próximo estágio de competitividade do setor dependerá, em grande medida, da capacidade de combinar tecnologia, formação profissional, melhores condições de trabalho e eficiência econômica.
Para a pecuária brasileira, essa transformação já deixou de ser uma tendência distante. Ela está presente nas decisões de contratação, nos custos das propriedades e, sobretudo, na capacidade de produzir com qualidade e rentabilidade.
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