Agricultores constroem lavouras que flutuam para continuar produzindo durante as enchentes

Técnica tradicional de Bangladesh transforma aguapé e outros materiais vegetais em canteiros flutuantes para cultivar alimentos em regiões onde a água ocupa o terreno durante longos períodos

Em regiões alagáveis do sul e sudoeste de Bangladesh, agricultores desenvolveram uma maneira pouco convencional de continuar produzindo mesmo quando o terreno está coberto pela água: construir os próprios canteiros sobre a superfície inundada. As estruturas são formadas principalmente por aguapé e outros materiais vegetais, criando uma base flutuante utilizada para o cultivo de hortaliças e para a produção de mudas.

Não se trata de uma tecnologia recém-criada para enfrentar as mudanças climáticas. Registros reunidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pelo Bangladesh Agricultural Research Institute (BARI) indicam que a prática é utilizada por agricultores locais há aproximadamente dois séculos, especialmente em áreas de Pirojpur, Barisal e Gopalganj. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Como são construídas as lavouras flutuantes de Bangladesh

O sistema nasceu da necessidade de produzir em terrenos que passam parte do ano inundados ou encharcados. Nessas condições, o preparo convencional do solo fica limitado, mas a superfície da água pode sustentar estruturas feitas com biomassa disponível na própria região.

O aguapé (Eichhornia crassipes) é um dos principais materiais utilizados na construção dos canteiros. Segundo a descrição técnica da FAO, uma camada densa dessa planta serve como base da estrutura, enquanto bambu ajuda na sustentação. Outras camadas de vegetação são acrescentadas acima e começam a se decompor, formando o meio onde as plantas serão cultivadas.

A estrutura recebe o nome local de dhap. Diferentemente de uma lavoura plantada diretamente no terreno, suas raízes se desenvolvem no material vegetal acumulado sobre a água.

Depois da montagem da última camada, a FAO informa que os agricultores aguardam aproximadamente oito a dez dias antes de realizar a semeadura ou o transplante de mudas previamente preparadas.

O processo transforma um ambiente temporariamente impróprio para o cultivo terrestre convencional em uma área produtiva sem a necessidade de esperar a água baixar.

Técnica é utilizada há cerca de 200 anos

Embora atualmente seja frequentemente apresentada como exemplo de adaptação agrícola aos eventos climáticos, a origem da agricultura flutuante de Bangladesh é muito anterior ao atual debate sobre aquecimento global.

Material técnico produzido pelo Bangladesh Agricultural Research Institute (BARI) e disponibilizado pela FAO registra que agricultores das regiões de Pirojpur, Barisal e Gopalganj utilizam essas estruturas há aproximadamente dois séculos para produzir hortaliças e especiarias em áreas alagadas.

Um estudo publicado em 2023 na revista científica Aquatic Botany também descreve a agricultura flutuante como uma prática tradicional das planícies inundáveis do sul de Bangladesh, especialmente nos distritos de Barishal, Gopalganj e Pirojpur.

A permanência dessa técnica ao longo de gerações mostra como comunidades rurais adaptaram seu sistema produtivo às condições naturais da região muito antes da disponibilidade das tecnologias agrícolas atuais.

FAO reconheceu o sistema como patrimônio agrícola mundial

A relevância cultural e produtiva da prática levou a FAO a reconhecer oficialmente os jardins flutuantes de Bangladesh como um Sistema Importante do Patrimônio Agrícola Mundial, conhecido pela sigla GIAHS.

A designação ocorreu em 2015. Segundo a FAO, a área reconhecida pelo programa possui aproximadamente 2.500 hectares e está localizada em Gopalganj, Pirojpur e Barisal.

O reconhecimento não significa que todas as lavouras flutuantes existentes em Bangladesh estejam concentradas exclusivamente nessa área. Os 2.500 hectares correspondem ao sistema incluído pela FAO no programa de patrimônio agrícola.

O GIAHS identifica sistemas produtivos tradicionais que combinam conhecimento transmitido entre gerações, produção de alimentos, biodiversidade e adaptação às condições ambientais locais.

Canteiros podem receber mais de um cultivo durante a estação

Uma mesma estrutura não necessariamente produz apenas uma cultura antes de ser desmontada.

De acordo com a descrição do sistema pela FAO, são comuns duas ou três rotações de culturas durante uma estação de monções, frequentemente com diferentes espécies sendo cultivadas em conjunto.

O BARI documenta tanto o emprego das estruturas para produção de hortaliças quanto seu uso na preparação de mudas de vegetais e especiarias.

Essa característica permite aproveitar justamente o período em que as condições de alagamento dificultariam o cultivo direto no solo.

A estratégia ganha relevância quando observada ao lado dos problemas provocados pelo excesso de água na agricultura convencional. No Brasil, por exemplo, o excesso de chuvas pode reduzir a disponibilidade de oxigênio para as raízes e prejudicar a absorção de nutrientes, além de dificultar operações dentro das propriedades.

A própria estrutura pode voltar para o solo

O ciclo dos jardins flutuantes não termina necessariamente depois da última colheita.

Quando chega o período seguinte e as águas recuam, o material vegetal que formava os canteiros já se encontra parcialmente decomposto. Segundo a FAO, os resíduos das estruturas podem então ser utilizados para enriquecer o solo empregado no cultivo de hortaliças durante o inverno local.

Isso cria uma lógica de aproveitamento da biomassa em duas etapas: primeiro, o material sustenta fisicamente a produção sobre a água; depois, seus resíduos retornam ao sistema terrestre.

O emprego do aguapé também chama atenção porque a planta apresenta crescimento acelerado e pode assumir comportamento invasivo em ambientes aquáticos.

Estudo publicado na Aquatic Botany mostra ainda que o princípio da agricultura flutuante não depende exclusivamente de uma única espécie vegetal. Pesquisadores testaram diferentes macrófitas aquáticas na composição das estruturas e verificaram que o material escolhido pode influenciar tanto a estabilidade do canteiro quanto parâmetros de desenvolvimento das plantas cultivadas.

Pesquisa busca entender quais plantas funcionam melhor nos canteiros

O conhecimento tradicional acumulado pelos agricultores também passou a ser objeto de pesquisas agronômicas.

No experimento publicado em 2023, pesquisadores da University of Barishal e do Bangladesh Agricultural Research Institute avaliaram cinco espécies de plantas aquáticas na produção de tomate em estruturas flutuantes.

Os resultados mostraram respostas diferentes conforme o material utilizado. Salvinia cucullata apresentou melhor desempenho relacionado à estabilidade do canteiro, enquanto Salvinia molesta obteve melhores resultados em vários parâmetros associados ao desenvolvimento e à produção dos tomates avaliados.

O estudo ajuda a mostrar que a técnica envolve mais do que simplesmente colocar plantas sobre uma camada de vegetação. A composição e as características físicas do substrato podem alterar o desempenho do cultivo.

Agricultura flutuante também possui limitações

A técnica oferece uma alternativa produtiva para determinadas áreas alagadas, mas as pesquisas disponíveis não sustentam a ideia de que ela seja uma solução universal para regiões sujeitas a enchentes.

Um estudo publicado no Journal of Environmental Management analisou tentativas de ampliar a utilização da agricultura flutuante em outras áreas úmidas de Bangladesh e encontrou obstáculos importantes.

Entre os fatores que podem dificultar sua adoção estão ondas fortes, precipitação excessiva, falta de plantas aquáticas adequadas para construir as estruturas e dificuldades relacionadas à implantação e gestão dos projetos.

Isso significa que reproduzir o sistema exige avaliação das condições locais, disponibilidade de biomassa, espécies cultivadas, características da água e comportamento das inundações.

No Brasil, estratégias de adaptação ao clima seguem caminhos diferentes de acordo com cada região e cultura. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático e práticas conservacionistas, por exemplo, estão entre as ferramentas utilizadas para reduzir a exposição das propriedades brasileiras às variações climáticas.

Uma lavoura criada para conviver com a água

O que chama atenção nos jardins flutuantes de Bangladesh é justamente a inversão da lógica tradicional utilizada diante de uma inundação.

Em vez de depender exclusivamente da retirada da água para voltar a plantar, agricultores aprenderam a usar a própria superfície inundada como espaço produtivo.

A prática não elimina os impactos de grandes enchentes, não substitui sistemas de drenagem e tampouco pode ser transportada automaticamente para qualquer região. Sua importância está em mostrar como conhecimento agrícola acumulado por gerações pode transformar uma limitação ambiental em parte do próprio sistema de produção.

Depois de aproximadamente dois séculos de utilização, os jardins construídos com plantas aquáticas continuam produzindo alimentos nas áreas inundáveis de Bangladesh — agora também reconhecidos internacionalmente como um exemplo de patrimônio agrícola.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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