Gestão de pessoas no confinamento influencia produtividade, manejo e desempenho animal. Veja como liderança e equipe impactam os resultados
Em um confinamento, falar em desempenho animal é falar também em pessoas. Dietas bem formuladas, instalações adequadas, tecnologia e planejamento são fundamentais, mas nenhum desses fatores funciona sozinho quando a equipe responsável pela operação não está preparada para executar corretamente cada etapa do processo.
Para entender melhor os desafios da gestão de pessoas dentro de um confinamento, conversei com Anderson Marcelino de Moraes Lima, profissional com 10 anos de experiência na gestão de confinamentos. Durante a conversa, ele destacou que a equipe deixou de ser apenas uma parte operacional do sistema e passou a ocupar uma posição estratégica nos resultados da produção.
“Como em todo segmento, uma equipe bem alinhada e treinada é fundamental. Costumo dizer que a equipe é um membro do corpo: não adianta ter a cabeça, que é o patrão pensante, e o coração pulsante, que é o gestor, se os membros não funcionam.”
O confinamento mudou — e o perfil dos colaboradores também
Nos últimos anos, a atividade pecuária passou por transformações importantes. A tecnologia ganhou espaço, os processos se tornaram mais precisos e as exigências sobre os profissionais aumentaram.
Para Anderson, essa evolução também modifica o perfil da mão de obra.
O colaborador de hoje precisa acompanhar a evolução dos processos, compreender novas ferramentas e estar disposto a aprender. Ao mesmo tempo, cabe à liderança preparar e desenvolver essas pessoas.
A dificuldade de encontrar mão de obra qualificada é um dos desafios enfrentados pelo setor. Porém, segundo Anderson, o problema não está somente na disponibilidade de profissionais, mas também na maneira como as empresas fazem o recrutamento e a seleção.
“Não é simplesmente contratar mais um. É preciso fazer uma boa seleção.”
Liderança: mais direção, menos imposição
Quando se fala em liderança no campo, ainda existe a ideia de que liderar significa apenas cobrar e dar ordens. Na visão de Anderson, essa realidade precisa mudar.
Para ele, o líder deve saber escutar, entender e direcionar.
Um dos principais desafios é justamente conseguir transmitir uma informação técnica de maneira simples para quem está diretamente ligado à operação.
“Falar tecnicamente com o peão ou com o pessoal ligado à operação, de uma maneira muito técnica, é como dar bom dia a cavalo.”
A frase, apesar de descontraída, revela um ponto importante: o conhecimento só gera resultado quando consegue chegar de forma clara a quem precisa colocá-lo em prática.
Por isso, conhecimento técnico e capacidade de comunicação precisam caminhar juntos.
O que mantém uma equipe?
A rotatividade de funcionários também é uma preocupação dentro dos confinamentos. Anderson destaca três pilares fundamentais para a permanência dos colaboradores:
ambiente de trabalho, condições de trabalho e equipamentos, e salário.
Não basta cobrar produtividade de uma equipe se as pessoas não possuem boas condições para realizar suas atividades.
Além disso, o colaborador precisa perceber que sua função tem importância dentro do processo.
Entre os fatores que mais desmotivam um profissional estão um ambiente ruim, uma liderança opressora e a sensação de não ser reconhecido.
Por outro lado, uma das formas de motivação apontadas por Anderson é apoiar o crescimento pessoal e profissional do colaborador.
“O gestor precisa apoiar o colaborador em seus sonhos palpáveis, seja a compra de um carro, uma casa própria, os estudos ou uma faculdade.”
Esse olhar demonstra que a gestão de pessoas não termina na execução da tarefa. Existe também a necessidade de compreender que, por trás de cada função, existe uma pessoa com objetivos e expectativas.
A nova geração e a influência da tecnologia
O comportamento das novas gerações também trouxe mudanças para o ambiente de trabalho rural.
Na visão de Anderson, isso faz parte de um processo natural. A tecnologia ocupa cada vez mais espaço e, consequentemente, algumas atividades passam a exigir menos mão de obra e mais qualificação.
Ele também chama atenção para a influência das redes sociais na percepção que algumas pessoas têm sobre o confinamento.
Imagens e vídeos publicados na internet podem transmitir uma visão simplificada da atividade, como se o confinamento fosse apenas um ambiente de manejo de animais. Na prática, existe uma série de responsabilidades envolvidas: formular e executar dietas, realizar manejos, acompanhar os animais, manter bebedouros limpos, controlar processos e cumprir uma rotina rigorosa.
“O confinamento não é um parque de diversão. Lidar no campo, formular uma dieta e executar um dia de manejo exige responsabilidade.”
Pressão por produtividade: até onde é saudável?
Produtividade é indispensável para qualquer negócio. No entanto, Anderson faz uma distinção importante entre pressão e opressão.
Para ele, uma certa pressão pode ser positiva quando estimula o profissional a sair da zona de conforto e evoluir. O problema começa quando essa pressão ultrapassa os limites e se transforma em opressão.
Nesse ponto, o papel do líder é fundamental.
Cabe à liderança estabelecer metas, acompanhar resultados e cobrar o que precisa ser feito, mas também compreender os limites da equipe e evitar que a cobrança destrua o ambiente de trabalho.
Um bom líder precisa ser seguido, não carregado
Quando questionado sobre as características necessárias para um bom líder dentro de um confinamento, Anderson coloca o conhecimento prático em primeiro lugar.
Além disso, destaca a importância de saber respeitar para ser respeitado.
“O líder precisa ser seguido, não carregado.”
A experiência prática, segundo ele, não substitui a teoria, assim como a teoria não substitui a prática.
“A literatura ajuda, mas somente a prática traz experiência. Os dois precisam andar de mãos dadas.”
Essa visão também aparece quando Anderson fala sobre um erro que ele próprio cometeu no início de sua trajetória: acreditar que já sabia tudo.
“Eu era um bobo motivado, achando que já sabia de tudo. Hoje entendo que a prática e a teoria precisam andar juntas.”
Reconhecer esse tipo de erro demonstra que a experiência profissional também é construída pela capacidade de aprender, rever conceitos e admitir que sempre existe algo novo para desenvolver.
Planejamento e sucessão dentro da equipe
Entre os erros mais comuns na gestão de pessoas, Anderson destaca a falta de planejamento da equipe.
Um colaborador não deve ser colocado simplesmente para “tapar um buraco” sem conhecer a operação ou receber treinamento adequado.
Outro ponto importante é a necessidade de sempre existir alguém preparado para assumir uma função quando necessário.
“Ninguém é insubstituível.”
A afirmação pode parecer dura, mas representa uma necessidade de gestão: o processo não pode depender exclusivamente de uma única pessoa.
Se um funcionário deixar a empresa, a operação precisa continuar funcionando.
Para isso, é necessário treinamento, organização e desenvolvimento de pessoas capazes de assumir diferentes responsabilidades.
A equipe interfere diretamente no resultado dos animais
Em um confinamento, todos os colaboradores fazem parte do resultado final.
Desde o profissional responsável pela limpeza dos bebedouros até o tratador, todos possuem influência direta sobre o desempenho dos animais.
Água limpa, rotina, manejo adequado e execução correta dos procedimentos são elementos essenciais.
Por isso, uma dieta excelente pode perder seu potencial se não for executada corretamente.
“No confinamento, não adianta ter a melhor dieta se a equipe não executa bem.”
O animal depende da rotina. E essa rotina depende das pessoas.
O boi não sabe quem é o gestor, quem formulou a dieta ou quem estabeleceu o protocolo. Ele responde ao ambiente e ao manejo que recebe diariamente.
Quando a equipe não está aberta a aprender
Anderson também destaca uma característica que pode comprometer o desempenho de uma equipe: a resistência em aprender.
Segundo ele, existem profissionais que acreditam que somente a própria maneira de trabalhar está correta e não estão abertos a novos conhecimentos ou mudanças de processo.
É o que ele compara à conhecida expressão da “laranja podre”: uma pessoa pode prejudicar o ambiente e influenciar negativamente os demais.
Por isso, mais do que conhecimento técnico, é necessário ter disposição para aprender.
Uma equipe forte é formada por profissionais que possuem aquilo que Anderson chama de “coração ensinável” — pessoas dispostas a ouvir, aprender, corrigir erros e evoluir.
Afinal, qual é o maior desafio?
Quando questionado se o maior desafio do confinamento são as pessoas ou os animais, Anderson é direto:
“O gado não está ali porque quer. Ele foi trazido, colocado e alojado.”
O animal faz parte de um sistema produtivo e responde ao manejo que recebe. O grande desafio está em fazer com que as pessoas responsáveis por esse sistema compreendam a importância de suas funções.
A falta de mão de obra qualificada é um gargalo, mas o desafio vai além da contratação. É necessário desenvolver profissionais, ensinar, treinar, acompanhar e criar uma cultura em que todos entendam que fazem parte de um processo maior.
E talvez esteja aí uma das principais mudanças de mentalidade que o confinamento precisa buscar.
Não estamos simplesmente produzindo boi. Estamos produzindo carne.
Essa diferença muda a maneira de enxergar o trabalho.
O colaborador que lava o bebedouro não está apenas lavando um bebedouro. O tratador não está apenas tratando o gado. O responsável pela dieta não está apenas misturando ingredientes. Cada pessoa está participando de uma cadeia que termina em um produto: carne.
Por isso, uma equipe bem treinada, motivada e alinhada não é apenas um suporte para o confinamento.
Ela é parte do resultado.
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